Cultura · 2026-10-15 · Redação Notícia ES

A fantástica fábrica de verdades alternativas - Século Diário

A fantástica fábrica de verdades alternativas - Século Diário. Registro original em Século Diário. A Redação Notícia ES reapurou a pauta para a editoria Cultura.

A fantástica fábrica de verdades alternativas - Século Diário
A fantástica fábrica de verdades alternativas - Século Diário

Dizia um velho mestre do jornalismo, com aquela malícia de quem conhece o bicho humano pelo colarinho, que o Brasil é o único país onde o sujeito jura pela própria mãe e, no segundo seguinte, vende um terreno na Lua com direito a escritura pública.

Se a fina ironia de boteco estivesse mais viva

Se a fina ironia de boteco estivesse mais viva do que nunca neste outubro de 2026, certamente incluiria o nosso iminente segundo turno, marcado para o próximo dia 25.

Misturando a picardia das mesas dos bares da Rua da Lama, de onde parte a ideia de que o olho do furacão é o local mais tranquilo da tempestade, a gente olha para a cabine de votação e percebe que o brasileiro não vai apenas eleger o presidente da República e o governador do Espírito Santo.

Vai, isto sim, referendar o campeonato nacional de mitomania.

Para os menos avisados ou aqueles que andaram faltando

Para os menos avisados ou aqueles que andaram faltando às aulas de psicologia de botequim, convém esclarecer o que vem a ser um mitômano.

Trata-se daquele cidadão acometido por uma compulsão irreprimível de mentir, mas com um refinamento crucial: ele não mente para se safar de uma multa ou justificar o batom no colarinho.

O mitômano constrói uma realidade paralela tão suntuosa, tão cheia de varandas e gárgulas jurídicas, que ele próprio passa a residir nela.

É a mentira como obra de arte e projeto de poder. Nas eleições de 2026, a mitomania deixou de ser patologia de consultório e virou plataforma eleitoral, com candidatos operando verdadeiros milagres bíblicos da desinformação.

No plano nacional, a peleja entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro atingiu o status de realismo fantástico.

De um lado, a usina de boatos tenta convencer a dondoca da Praia do Canto e o operário de Cariacica de que o atual presidente planeja confiscar até as moedas do porquinho das crianças para financiar um programa de socialização do churrasco de domingo, onde a picanha seria trocada por ração cibernética de soja.

Do outro lado da trincheira ficcional, imputam ao senador a autoria de planos mirabolantes para privatizar o ar que respiramos, cobrar pedágio na calçada e transformar a Floresta Amazônica em um imenso estacionamento de condomínio de luxo.

Não vai faltar sombra. É um festival de assombrações que faria inveja aos clássicos do terror do cinema, tudo devidamente chancelado por tias das redes sociais que juram ter visto o documento oficial timbrado pelo Vaticano.

Mas o capixaba, que não gosta de ficar atrás em matéria de folclore político, refinou o debate no front estadual.

A disputa pelo Palácio Anchieta entre o ex-prefeito da capital, o ex-delegado Lorenzo Pazolini, e o atual governador, o família Ricardo Ferraço, virou um duelo de narrativas digno de um esquete de humor.

Os detratores de Pazolini espalharam, com a seriedade de um âncora de telejornal, que se ele for eleito baixará um decreto proibindo a venda de moqueca que não tenha sido vistoriada por uma junta de peritos criminais, além de instalar detectores de mentira nas barraquinhas de torta capixaba na Ilha das Caieiras.

Já a máquina de boatos contra Ferraço contra-atacou no melhor estilo da mitomania das elites: o boato da vez é que o emedebista, em um surto de privatização gourmet, pretende conceder a Terceira Ponte a um fundo árabe, voltando a cobrar o pedágio, dessa vez em euros, e exigindo passaporte diplomático para quem ousar atravessar de Vitória para Vila Velha em horário de pico.

Faltou apenas dizerem que o Convento da Penha será transformado em um cassino flutuante de criptomoedas.

É a mentira assumindo o papel de comitê de campanha, enquanto o eleitor, no meio desse fogo cruzado de ficções, tenta descobrir se o que vai sair da urna eletrônica no domingo é um governante ou o próximo roteirista de novela das nove.

Chegaremos ao dia 25 exaustos de tanta criatividade. O brasileiro, mestre na arte de rir da própria desgraça, caminha para a urna eletrônica com a desconfiança de quem sabe que, na segunda-feira, a única verdade incontestável será a ressaca e a conta de luz.

Que o bom senso de quem ainda pensa tenha piedade desta paróquia chamada Brasil. Que não se busque o retrocesso que inevitavelmente desembocaria na trágica limitação da liberdade. Orai, irmãos!

E uni-vos contra a tempestade perfeita que se forma. Mesmo no olho do furacão ainda é possível pensar.

Em resumo

O que aconteceu?

Dizia um velho mestre do jornalismo, com aquela malícia de quem conhece o bicho humano pelo colarinho, que o Brasil é o único país onde o sujeito jura pela própria mãe e, no segundo seguinte, vende um terreno na Lua com direito a escritura pública. Se a fina ironia de boteco estivesse mais viva do que nunca neste outubro de 2026, certamente incluiria o nosso

Qual é o ponto principal?

Misturando a picardia das mesas dos bares da Rua da Lama, de onde parte a ideia de que o olho do furacão é o local mais tranquilo da tempestade, a gente olha para a cabine de votação e percebe que o brasileiro não vai apenas eleger o presidente da República e o governador do Espírito Santo. Vai, isto sim, referendar o campeonato nacional de mitomania.

Quais são os dados mais importantes?

Para os menos avisados ou aqueles que andaram faltando às aulas de psicologia de botequim, convém esclarecer o que vem a ser um mitômano. Trata-se daquele cidadão acometido por uma compulsão irreprimível de mentir, mas com um refinamento crucial: ele não mente para se safar de uma multa ou justificar o batom no colarinho. O mitômano constrói uma realidade pa

Qual é o contexto?

É a mentira como obra de arte e projeto de poder. Nas eleições de 2026, a mitomania deixou de ser patologia de consultório e virou plataforma eleitoral, com candidatos operando verdadeiros milagres bíblicos da desinformação.

Quais são os próximos desdobramentos?

No plano nacional, a peleja entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro atingiu o status de realismo fantástico. De um lado, a usina de boatos tenta convencer a dondoca da Praia do Canto e o operário de Cariacica de que o atual presidente planeja confiscar até as moedas do porquinho das crianças para financiar um programa de socialização do churrasco

Fontes