A pedra no sapato de quem vive em linha reta - Século Diário
A pedra no sapato de quem vive em linha reta - Século Diário. Registro original em Século Diário. A Redação Notícia ES reapurou a pauta para a editoria Justiça.

Ou a sentença concreta: viver e brincar e pensar tanto faz
Mundo, minhas excelentíssimas senhoras e devotos cavalheiros, gira mais
O mundo, minhas excelentíssimas senhoras e devotos cavalheiros, gira mais que frango em televisão de cachorro na beira da estrada. Belchior, paladino alucinado, expurgaria a ferida aberta no flanco libertário.
Lalá, minha vizinha de frente e filósofa de botequim, jura de pés juntos que a história humana não é e nem cabe num livro de sociologia.
Segundo ela, a história é mais uma daquelas comédias de chanchada que a gente assiste sabendo exatamente quando o mocinho vai escorregar na casca de banana.
Problema é que, de tempos em tempos, a casca
O problema é que, de tempos em tempos, a casca de banana vem pintada de verde e amarelo, ou com um simpático bigodinho de pincel.
Lá pelos idos de mil novecentos e vinte e poucos, um sujeito baixinho na Itália resolveu que o país precisava de ordem, progresso e camisas pretas bem engomadas.
Benito, que não era o de Paula que nos deixou recentemente, convenceu a turma de que o passado romano era o futuro da nação. O pessoal achou o figurino imponente e o gogó afinado.
No final, a única coisa que realmente funcionou direito na Itália fascista foram os trens chegando no horário, o que convenhamos, é muito pouco benefício para quem acabou de perder o direito de abrir a boca.
Pouco depois, na Alemanha de trinta e três, um pintor de paredes frustrado decidiu trocar as trinchas pela geopolítica de quarteirão.
O homem falava com uma entonação acima, apontava o dedo para os bodes expiatórios de sempre e prometia purificar a pátria das mamatas da época.
O cidadão de bem teutônico, cansado da inflação que transformava o carrinho de mão em carteira de dinheiro, bateu palmas para o espetáculo.
Olharam para o cabo austríaco e pensaram: “ele é meio xarope, mas vai dar um jeito na bagunça”. Deu no que deu, com o mundo inteiro precisando de terapia e reconstrução nos tantos anos seguintes.
Corta a cena para o Brasil tropical, onde o calor amolece os miolos e a memória dura menos que um bloco de gelo no verão de Cachoeiro de Itapemirim.
Por aqui, a receita ganhou tempero local, com direito a pastel de feira, camisa da seleção e sinais de arma feitos com o dedo indicador.
O bolsonarismo subiu a rampa prometendo salvar a família cristã de perigos tão invisíveis quanto as lendas do Monte Aghá em Piúma.
O brasileiro médio, que adora um herói de desenho animado com linguajar de quartel, achou o máximo ver a liturgia do cargo ser trocada por piadas de tiozão, tá ok?
O paralelo, como diria Lalá do alto do seu pós-doc, não é por falta de aviso dos historiadores. O roteiro da extrema-direita é mais manjado que final de novela das nove.
Primeiro você inventa um inimigo terrível, depois se coloca como o único salvador da lavoura e, por fim, aparelha até os campeonatos de cuspe à distância e de porrinha.
A diferença é que os europeus usavam alfaiataria fina e pose de ópera, enquanto por aqui a epopeia nacional se resolve entre tiroteios no WhatsApp e teorias de que a terra é plana como uma mesa de bilhar.
Agora, o calendário nos empurra contra a parede neste domingo, dia 25, quando as urnas vão apitar o veredicto do segundo turno.
O perigo não é apenas o candidato A ou B levar a faixa para casa para desfilar no Rolls-Royce oficial. Ou subir as escadarias do Anchieta sob o olhar crítico da águia.
O verdadeiro drama é a possibilidade de chancelar o absurdo institucional como o novo normal da nossa paróquia.
Passar mais quatro anos discutindo se a vacina tem chip ou se o comunismo vai fechar a padaria da esquina é um teste de paciência que nem os santos aguentariam.
Ou ainda ficar espalmando as mãos, carregando a Bíblia na cabeça, ou reclamar da experiência jogada no ralo.
Votar, portanto, virou um exercício de legítima defesa contra o ridículo e o autoritarismo de churrascaria. Que o eleitor aperte os botões com a cabeça fria e o coração longe das correntes de fakes do Zap e do Insta.
Afinal de contas, o Brasil já tem problemas reais demais para gastar energia com salvadores da pátria que mal conseguem salvar as próprias aparências.
Se a história se repete como farsa, que a nossa farsa pelo menos termine em samba e voto consciente, e não em marcha militar de fundo de quintal e assassinato de liberdades.
Em resumo
Ou a sentença concreta: viver e brincar e pensar tanto faz
O mundo, minhas excelentíssimas senhoras e devotos cavalheiros, gira mais que frango em televisão de cachorro na beira da estrada. Belchior, paladino alucinado, expurgaria a ferida aberta no flanco libertário. Lalá, minha vizinha de frente e filósofa de botequim, jura de pés juntos que a história humana não é e nem cabe num livro de sociologia. Segundo ela,
Lá pelos idos de mil novecentos e vinte e poucos, um sujeito baixinho na Itália resolveu que o país precisava de ordem, progresso e camisas pretas bem engomadas. Benito, que não era o de Paula que nos deixou recentemente, convenceu a turma de que o passado romano era o futuro da nação. O pessoal achou o figurino imponente e o gogó afinado. No final, a única
Pouco depois, na Alemanha de trinta e três, um pintor de paredes frustrado decidiu trocar as trinchas pela geopolítica de quarteirão. O homem falava com uma entonação acima, apontava o dedo para os bodes expiatórios de sempre e prometia purificar a pátria das mamatas da época. O cidadão de bem teutônico, cansado da inflação que transformava o carrinho de mão
Corta a cena para o Brasil tropical, onde o calor amolece os miolos e a memória dura menos que um bloco de gelo no verão de Cachoeiro de Itapemirim. Por aqui, a receita ganhou tempero local, com direito a pastel de feira, camisa da seleção e sinais de arma feitos com o dedo indicador. O bolsonarismo subiu a rampa prometendo salvar a família cristã de perigos