“Ainda estou aqui”: Benjamin, Trump, os Bolsonaro, o Anjo, a História e ecos do nazismo
E mais: Eunice, Levi e Guido. O que tais elementos têm a ver entre si? Tudo! É o que tratamos de expor neste artigo, com pitadas literárias, historiográficas, filosóficas e de reflexões sobre a literatura (e arte em geral) como forma de resistência

“A quem, é o que pergunto, quem se interessaria hoje por tão mesquinhos meandros de um tempo distante, e a resposta que meu pai repete é uma absurda mescla de devaneio e lucidez: as ditaduras podem voltar, você deveria saber”.
Tal é o ensinamento do pai para o filho,
Tal é o ensinamento do pai para o filho, Sebastián, narrador do romance A resistência , de Julián Fuks, vencedor do prêmio Jabuti em 2016 [1].
E então esse filho que se narra compartilha suas reflexões conosco: “As ditaduras podem voltar, eu sei, e sei que seus arbítrios, suas opressões, seus sofrimentos, existem das mais diversas maneiras, nos mais diversos regimes, mesmo quando uma horda de cidadãos marcha às urnas bienalmente”.
Há muito mais “lucidez” que “devaneio” na lição desse sábio pai, psiquiatra exilado da ditadura civil-militar argentina (1976-1983) no romance de Fuks, e também nas reflexões do filho.
Provam-no os últimos 11 anos, passados desde 2015, ano
Provam-no os últimos 11 anos, passados desde 2015, ano da publicação da obra e do princípio da queda da então presidente Dilma Rousseff.
Emblemático título da narrativa de autoficção de Fuks, resistência é justamente um dos papéis cumpridos, de maneira inigualável, pela arte – a literatura, o cinema e suas mais diversas formas.
Resistência, por exemplo, à violência em suas múltiplas dimensões: física, sexual, psicológica, política, econômica, simbólica.
A pior de todas é aquela praticada pelo próprio Estado contra seus cidadãos, uma das principais características de regimes totalitários, em qualquer época e em qualquer lugar.
Isso inclui a nossa própria ditadura civil-militar (1964-1985).
No dia 10 de novembro de 2024, declarou o escritor Marcelo Rubens Paiva, em entrevista ao site Metrópoles , sobre seu livro de testemunho Ainda estou aqui , também lançado em 2015 [2] : “A literatura é o testemunho dos vencidos, e nós somos os vencidos de 1970”.
O autor dessa narrativa testemunhal, que originou o filme homônimo de Walter Salles Jr., dialoga, intencionalmente ou não, com o pensamento de Walter Benjamin (1892-1940), crítico literário e filósofo da Escola de Frankfurt.
Em suas teses Sobre o conceito de história [3] , um dos documentos filosóficos mais importantes do século XX, Benjamin argumenta que o passado só pode ser compreendido em momentos de perigo (e quem duvida de que estejamos diante de um momento assim, no mundo inteiro, anda meio distraído, vide a Ucrânia, vide a guerra no Irã, vive o que foi feito de Gaza, vide o new big stick de Trump sobre a América Latina, querendo voltar a fazê-la backyard dos Estados Unidos – o Brasil incluído).
Benjamin defende que os historiadores devem se identificar com os vencidos e não com os vencedores. Advoga que a história deve ser reinterpretada e recontada sob o ponto de vista não dos opressores, mas dos oprimidos – donde sua revolucionária concepção de História.
Vale a pena citar aqui, muito sinteticamente, excertos de algumas teses capitais desse pensador radicalmente antifascista a seu tempo.
As teses de Benjamin, notem bem, foram escritas na “meia-noite do século XX” (como diria Victor Serge), no início de 1940, pouco antes de o autor, alemão e judeu, cometer suicídio em sua malsinada fuga da França ocupada por tropas nazistas [4] (ao ser interceptado pela polícia franquista na fronteira com a Espanha) e meses antes de o Terceiro Reich pôr em marcha a Solução Final: o genocídio de judeus e ciganos nos campos de concentração e extermínio, verdadeiras “fábricas da morte”, como escreveu Primo Levi (1919-1987).
Para Benjamin, como lemos na oitava tese, “a tradição dos oprimidos nos ensina que a regra é o ‘estado de exceção’, no qual estamos vivendo” (isto é, no qual se vivia na Alemanha nazista e na Europa nos anos 1930, em plena expansão do Terceiro Reich).
Já na sexta tese, Benjamin nos adverte que “nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. Por isso, alerta-nos o pensador alemão, a luta deve ser incessante; a resistência deve ser tão perene quanto o é a ameaça de incêndio.
Para além da marcha triunfante dos dominadores na História, impossível não relacionarmos o fragmento com a história dos desaparecidos políticos nas ditaduras civil-militares da América do Sul entre os anos 1960 e os 1980; ditaduras que matavam suas vítimas e matavam a morte de suas vítimas, vitimando duplamente tanto os homens e mulheres assassinados como os entes queridos que ficavam, por privá-los do direito ao luto e por falsear ou simplesmente apagar a história desses mortos.
Em Walter Benjamin: aviso de incêndio [5], o professor Michael Löwy, um dos mais lúcidos leitores de Benjamin, interpreta assim o excerto: “O historiador revolucionário sabe que a vitória do inimigo atual ameaça até os mortos […] pela falsificação ou pelo esquecimento dos seus combates.
[…] Do ponto de vista dos oprimidos, o passado não é uma acumulação gradual de conquistas, como na historiografia ‘progressista’, mas sobretudo uma série interminável de derrotas catastróficas”.
Por fim, quero citar a incontornável alegoria da nona tese, na qual Benjamin descreve o seu Anjo da História:
Sua face se volta para o passado. Lá onde nós vemos surgir uma sequência de eventos, ele vê uma catástrofe única, que incessantemente empilha escombros sobre escombros e os lança a seus pés”.
Em resumo
“A quem, é o que pergunto, quem se interessaria hoje por tão mesquinhos meandros de um tempo distante, e a resposta que meu pai repete é uma absurda mescla de devaneio e lucidez: as ditaduras podem voltar, você deveria saber”.
Tal é o ensinamento do pai para o filho, Sebastián, narrador do romance A resistência , de Julián Fuks, vencedor do prêmio Jabuti em 2016 [1]. E então esse filho que se narra compartilha suas reflexões conosco: “As ditaduras podem voltar, eu sei, e sei que seus arbítrios, suas opressões, seus sofrimentos, existem das mais diversas maneiras, nos mais diversos
Há muito mais “lucidez” que “devaneio” na lição desse sábio pai, psiquiatra exilado da ditadura civil-militar argentina (1976-1983) no romance de Fuks, e também nas reflexões do filho. Provam-no os últimos 11 anos, passados desde 2015, ano da publicação da obra e do princípio da queda da então presidente Dilma Rousseff.
Emblemático título da narrativa de autoficção de Fuks, resistência é justamente um dos papéis cumpridos, de maneira inigualável, pela arte – a literatura, o cinema e suas mais diversas formas. Resistência, por exemplo, à violência em suas múltiplas dimensões: física, sexual, psicológica, política, econômica, simbólica. A pior de todas é aquela praticada pelo
No dia 10 de novembro de 2024, declarou o escritor Marcelo Rubens Paiva, em entrevista ao site Metrópoles , sobre seu livro de testemunho Ainda estou aqui , também lançado em 2015 [2] : “A literatura é o testemunho dos vencidos, e nós somos os vencidos de 1970”.