André Lara Resende à BBC: 'Não falei com Lula. Isso foi plantado para queimar alguém que defendeu a proposta'
Economista que presidiu o BNDES e fez parte da diretoria do Banco Central propôs criação de conselho que reduziria taxa Selic a longo prazo; proposta mobilizou mercado financeiro e discussão em Brasília.

Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) por oito meses em 1998, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e diretor do Banco Central (BC) entre 1985 e 1986, no período de José Sarney (MDB), ele vê, há dias, seu texto pautar toda a discussão sobre o horizonte econômico do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) .
O contexto da decisão judicial
O objetivo, diz ele à BBC News Brasil, era "responder porque a taxa básica de juros é extraordinariamente alta no Brasil e como escapar dessa armadilha".
"Não significa subscrever que o país não tem problemas com gastos [públicos] e com tributação, mas não são eles que estão criando o problema do déficit fiscal brasileiro", completou em entrevista nesta quarta-feira (5/11).
Em 2025, o déficit, citado por ele, foi de 0,48% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com o Tesouro Nacional.
Detalhes e consequências do caso
Na análise de Lara Resende, o desequilíbrio das contas públicas brasileiras é causado mais pelo juro básico elevado do que pelos gastos do governo propriamente — ao contrário do que aponta uma parte significativa do setor financeiro.
"É uma 'bolsa-rentista': juros da dívida pública pagos aos detentores da dívida que são também a parcela mais rica da população. Juros altos é um fator concentrador de renda e riqueza".
A relação entre o texto publicado antes do primeiro turno da eleição e a realidade não foi fortuita: começou quando a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) compartilhou, na quarta-feira passada (28/10), o artigo em seu perfil nas redes sociais, apontando-o como "fundamental para enfrentar a ofensiva terrorista sobre a política fiscal brasileira".
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Imediatamente, parte do mercado passou a prospectar não só que o economista se encontraria com Lula — que analisa nomes para encabeçar seu futuro Ministério da Fazenda — como que a proposta contida no texto seria levada a cabo.
Ao longo do atual mandato, o presidente enfatizou, em diversas oportunidades, seu descontentamento com elevada taxa básica de juros do país, a Selic .
Definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, ela foi mantida, nesta semana, a 13,75% ao ano — um freio no ciclo de cortes iniciado ainda no primeiro semestre do ano, quando ela estava em 15%.
"Eu não falei com o presidente Lula, não tenho nem tive contato com ele, assim como não tenho nada marcado [para apresentar a ideia a ele].
Essa notícia foi plantada obviamente para queimar a proposta ou [prejudicar] alguém que não eu, porque todo mundo sabe que eu não quero ir para o governo — incluindo o próprio Lula", afirma.
"Estão queimando alguém que defendeu essa proposta, uma briga interna dentro do governo na qual eu entrei como Judas no Pai Nosso".
Um dos formuladores do Plano Real, que estancou a hiperinflação brasileira da transição das décadas de 1980 e 1990, André Lara Resende explica, nesta conversa, que o núcleo da sua proposta está na criação do Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN), um órgão que atuaria lado a lado com o Banco Central para formular metas de longo prazo ao manejo fiscal do país e para a taxa básica de juros.
O conselho teria o papel, sobretudo, de "coordenar as expectativas" sobre os juros e a política fiscal.
Para ir adiante, contudo, esse plano precisaria passar pelo crivo do Congresso Nacional, porque o BC não tem autonomia institucional para criar conselhos próprios, apenas comitês consultivos.
Resende sustenta um diálogo com o economista americano John Cochrane, pesquisador da Hoover Institution, ligada à Universidade Stanford, na Califórnia, nos Estados Unidos, que se tornou conhecido por ter construído uma teoria alternativa aos efeitos dos juros sobre a inflação.
No Brasil, segmentos do setor financeiro tanto quanto da oposição ao governo passaram a apontar que a ideia é, na verdade, apenas uma tentativa de diminuir os juros à força, esvaziando a autonomia do Banco Central em formular a política monetária.
Em resumo
Presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) por oito meses em 1998, durante a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e diretor do Banco Central (BC) entre 1985 e 1986, no período de José Sarney (MDB), ele vê, há dias, seu texto pautar toda a discussão sobre o horizonte econômico do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) .
O objetivo, diz ele à BBC News Brasil, era "responder porque a taxa básica de juros é extraordinariamente alta no Brasil e como escapar dessa armadilha".
"Não significa subscrever que o país não tem problemas com gastos [públicos] e com tributação, mas não são eles que estão criando o problema do déficit fiscal brasileiro", completou em entrevista nesta quarta-feira (5/11).
Em 2025, o déficit, citado por ele, foi de 0,48% do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com o Tesouro Nacional.
Na análise de Lara Resende, o desequilíbrio das contas públicas brasileiras é causado mais pelo juro básico elevado do que pelos gastos do governo propriamente — ao contrário do que aponta uma parte significativa do setor financeiro.