Segurança Pública · 2026-08-28 · Redação Notícia ES

Chamadas recusadas, contas acessadas e morte no mar: o mistério dos últimos passos de Antônio Gobbi

Aposentado de 79 anos saiu para uma consulta na Praia da Costa, não chegou ao dentista e foi encontrado morto na Baía de Vitória; família relata tentativas de empréstimos e acessos bancários, enquanto a polícia apura as circunstâncias.

Chamadas recusadas, contas acessadas e morte no mar: o mistério dos últimos passos de Antônio Gobbi
Chamadas recusadas, contas acessadas e morte no mar: o mistério dos últimos passos de Antônio Gobbi

Uma consulta odontológica que nunca aconteceu, ligações que deixaram de completar, alertas de movimentações financeiras e um corpo encontrado no mar. A morte do aposentado Antônio Marcelino Gobbi, de 79 anos, abriu uma investigação cercada por perguntas ainda sem resposta no Espírito Santo.

Antônio saiu de casa, na Praia da Costa, em Vila Velha, na manhã de terça-feira, 25 de agosto, para ir ao dentista. Segundo familiares ouvidos por diferentes veículos, ele não chegou ao consultório. No dia seguinte, 26 de agosto, seu corpo foi localizado na região da Baía de Vitória, próximo à área portuária e à Ilha da Fumaça.

A Polícia Civil informou inicialmente que a ocorrência foi registrada como encontro de cadáver e encaminhada ao Departamento Especializado de Homicídios e Proteção à Pessoa (DEHPP). A Polícia Científica recebeu o corpo para exames. A investigação precisa agora responder se a morte foi acidental ou se houve crime antes de Antônio chegar à água.

O primeiro sinal de alerta veio do telefone

O filho de Antônio, Bruno Gobbi, relatou à TV Tribuna/Band que a família começou a tentar contato quando percebeu que o aposentado estava demorando. Segundo ele, as ligações chegavam a chamar poucas vezes e eram interrompidas.

Esse detalhe é relevante porque, segundo o relato, o telefone não parecia simplesmente desligado. A família suspeita que outra pessoa pudesse estar com o aparelho. Trata-se, porém, de uma percepção dos parentes, não de uma conclusão técnica divulgada pela polícia.

Tentativas de acesso a contas aumentaram a suspeita da família

Os familiares afirmam que, ainda no dia do desaparecimento, começaram a surgir alertas de tentativas de acesso ao aplicativo bancário e ao e-mail do aposentado. Também foram relatadas solicitações de empréstimos, pedidos de aumento de limite, abertura de contas e até uma reserva de hotel na Bahia em nome dele.

Bruno, que administra as contas do pai, disse que as tentativas ocorreram durante horas. A família bloqueou acessos e procurou a polícia. A Gazeta também publicou que os parentes identificaram tentativas de transferências, contratação de empréstimos e acesso às contas.

Até o momento das publicações consultadas, a Polícia Civil não havia confirmado publicamente que essas movimentações financeiras estejam ligadas à morte. Essa distinção é central: os acessos são apontados pela família como indício de possível assalto ou sequestro, mas a relação causal ainda depende da investigação.

Corpo foi encontrado na Baía de Vitória

Segundo A Gazeta, o Corpo de Bombeiros foi acionado depois que uma pessoa avistou um corpo boiando no canal de Vitória. Uma equipe de mergulho seguiu para a região da Ilha da Fumaça, recolheu o corpo e o entregou aos cuidados da Polícia Científica.

O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico-Legal. A ocorrência seguiu para o DEHPP, unidade responsável por apurar mortes violentas e circunstâncias suspeitas.

Família relata marcas na cabeça

Em entrevista publicada pelo Tribuna Online na tarde de 27 de agosto, Bruno Gobbi afirmou que percebeu marcas na testa e na nuca do pai durante o reconhecimento do corpo. Ele disse acreditar que as lesões seriam compatíveis com pancadas.

Essa avaliação também é, por enquanto, relato familiar. O mesmo texto do Tribuna informa que um laudo pericial teria apontado afogamento como causa da morte. O Notícia ES não localizou, nesta apuração, uma cópia pública desse laudo nem nota oficial posterior da Polícia Científica detalhando o resultado.

Há ainda uma diferença temporal entre as reportagens. A Gazeta, em publicação anterior, informou que o DEHPP aguardava exames para determinar a causa da morte. O Tribuna, horas depois, afirmou que o laudo já apontava afogamento. A sequência sugere atualização do caso ao longo do dia, mas a investigação sobre como Antônio foi parar na água permanece aberta.

Afogamento não encerra a investigação

Mesmo que a causa médica da morte seja confirmada como afogamento, isso não esclarece, por si só, o que aconteceu antes. Uma morte por afogamento pode decorrer de acidente, mal súbito, queda, ação de terceiros ou outras circunstâncias. É justamente esse caminho anterior que os investigadores terão de reconstruir.

As imagens de câmeras de segurança, os registros do telefone, dados bancários, localização do aparelho, eventuais acessos digitais e o percurso entre a Praia da Costa e a área onde o corpo foi encontrado podem ajudar a formar uma linha do tempo.

O que está confirmado e o que ainda é hipótese

Está confirmado que Antônio saiu para uma consulta, não chegou ao dentista e foi encontrado morto no dia seguinte. Também está confirmado, por informação atribuída às autoridades, que o caso foi encaminhado ao DEHPP e que o corpo passou pela Polícia Científica.

As tentativas de movimentação financeira, as chamadas recusadas e as marcas percebidas no corpo foram relatadas pelos familiares. A hipótese de assalto ou sequestro é defendida pela família, mas ainda não foi apresentada publicamente pela Polícia Civil como conclusão investigativa.

Esse cuidado é importante para não transformar indícios em sentença. O caso reúne elementos que justificam investigação aprofundada, mas a responsabilidade criminal, se houver, depende de prova.

Uma investigação que precisa fechar a linha do tempo

A pergunta central já não é apenas onde Antônio foi encontrado. É o que aconteceu entre o momento em que ele deixou o prédio para uma consulta próxima e a hora em que desapareceu do radar da família.

Se houve acesso indevido às contas, os registros digitais podem indicar horários, aparelhos e localização. Se outra pessoa estava com o celular, dados de telefonia podem ajudar. Se houve deslocamento forçado, câmeras públicas e privadas podem reconstruir rotas. E se as lesões descritas pela família tiverem relevância pericial, isso também pode alterar o rumo da investigação.

Antônio foi sepultado em Ponta da Fruta, Vila Velha. Para a família, porém, o caso não terminou no cemitério. A resposta agora depende da combinação de perícia, dados digitais e investigação policial. Até que essa linha do tempo seja fechada, a morte do aposentado permanece envolta em perguntas que o Estado precisa responder.

Foto: Bento Mattos/Wikimedia Commons. Vista da Baía de Vitória e região portuária. Licença CC BY-SA 4.0.

Fontes da apuração

Fontes