Bancos argentinos voltam aos títulos públicos com crédito fraco
Papéis do governo concentram receitas enquanto empréstimos perdem força e inadimplência aumenta no sistema argentino.

Os bancos comerciais da Argentina voltaram a obter a maior parte de sua receita operacional com títulos públicos, enquanto o crédito ao setor privado perdeu força. Em julho, os ganhos com papéis do governo responderam por cerca de 56% da receita operacional, mais de três vezes os 17% gerados pela margem líquida dos empréstimos.
Os percentuais foram publicados pelo InfoMoney nesta quinta-feira (8), com base em dados do Banco Central da República Argentina. O relatório oficial sobre bancos de julho confirma a desaceleração: o saldo real do financiamento ao setor privado em pesos caiu 0,9% no mês e o crédito total, somadas as moedas, recuou 1%.
O movimento interrompe a recuperação que começou após 2023. O crédito ao setor privado havia mais que dobrado em relação ao tamanho da economia, passando de cerca de 5,3% do Produto Interno Bruto para aproximadamente 12,5%. Mesmo assim, a intermediação tradicional ainda rende menos que a carteira de papéis públicos.
Títulos públicos dominam receitas
Para os bancos, os títulos oferecem liquidez e uma remuneração elevada em um ambiente de juros altos e incerteza. Esses ativos podem ser vendidos ou usados com mais rapidez que uma carteira de empréstimos, o que ajuda as instituições a administrar riscos quando empresas e famílias enfrentam maior dificuldade financeira.
O Tesouro argentino também depende do mercado doméstico para refinanciar a dívida em pesos. A combinação cria um encontro de interesses: o governo procura compradores para seus papéis, e os bancos encontram neles uma aplicação mais previsível que a concessão de crédito a clientes expostos à desaceleração econômica.
Regras prudenciais reforçaram essa escolha. O Banco Central permitiu que parte das exigências de liquidez fosse cumprida com títulos públicos adquiridos em leilões do Tesouro e depois ampliou o conjunto de ativos aceitos. No relatório de julho, o indicador que inclui esses papéis e operações de curto prazo com a autoridade monetária equivalia a 31,3% dos depósitos em pesos.
Crédito perde força
A deterioração aparece também na qualidade dos empréstimos. A taxa de irregularidade do crédito privado chegou a 7,7% em julho, segundo o Banco Central argentino. Entre as famílias, o indicador alcançou 12,9%; entre as empresas, ficou em 3,6%. O aumento da inadimplência obriga as instituições a reservar recursos para cobrir perdas e reduz o retorno da atividade de emprestar.
Ao mesmo tempo, juros elevados afastam tomadores com melhor capacidade de pagamento e deixam uma parcela mais arriscada entre os interessados em crédito. Os bancos respondem endurecendo critérios, enquanto a demanda enfraquece com a renda pressionada e a atividade econômica mais lenta.
O quadro não significa que o sistema esteja sem proteção. O relatório de julho informa capital e liquidez em níveis elevados, além de provisões equivalentes a 87,6% da carteira irregular. A fragilidade está menos na solvência imediata dos bancos e mais na capacidade do crédito de financiar consumo, investimento e produção.
Para a economia argentina, a dependência de títulos públicos cria um circuito difícil de romper. Quanto mais atraentes esses papéis se tornam, menor é o estímulo para assumir o risco de novos empréstimos. Sem recuperação da demanda, redução da inadimplência e maior estabilidade das taxas, a retomada do crédito tende a permanecer limitada.
Em resumo
Eles responderam por cerca de 56% da receita operacional em julho.
A receita líquida de juros do crédito privado representou cerca de 17%.
Não. O saldo real em pesos caiu 0,9%, e o total em todas as moedas recuou 1%.
O índice de irregularidade do crédito privado chegou a 7,7% em julho.
O Banco Central informou níveis elevados de capital, liquidez e cobertura de perdas.