Esporte · 2026-09-23 · Redação Notícia ES

Bets respondem por um terço da receita comercial dos clubes da Série A

Levantamento atribui R$ 1,03 bilhão das receitas de patrocínio de 2025 às casas de apostas; presença nas camisas caiu em 2026.

Bets respondem por um terço da receita comercial dos clubes da Série A
Montagem reúne jogadores de Corinthians, Flamengo, Palmeiras, Santos e São Paulo com marcas de casas de apostas nos uniformes. Crédito: Arte/UOL.

As casas de apostas responderam por R$ 1,03 bilhão dos R$ 3,069 bilhões obtidos em patrocínios pelos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro em 2025, segundo levantamento da consultoria Convocados divulgado pelo UOL. A proporção equivale a aproximadamente um em cada três reais da receita comercial da elite. O dado ajuda a medir a dependência criada entre o futebol e um setor que enfrenta propostas de maior restrição à publicidade.

Em 2025, 19 dos 20 clubes da Série A exibiam ao menos uma marca de bet entre seus patrocinadores. Em 2026, a presença caiu para 13 dos 20, de acordo com a mesma reportagem. A redução não elimina o peso financeiro dos contratos anteriores, mas mostra que o mercado começou a se reorganizar antes de qualquer ruptura ampla.

Os números tratam de receitas comerciais, principalmente patrocínio e publicidade, e não da arrecadação total dos clubes. Direitos de transmissão, bilheteria, premiações, programas de sócios e negociação de atletas formam outras parcelas. Essa distinção é essencial para não afirmar que um terço de todo o dinheiro do futebol vem de apostas; a proporção informada se refere ao bloco comercial.

Receita comercial mais que dobrou desde 2021

O relatório da Convocados registra que as receitas comerciais dos clubes saltaram de R$ 1,3 bilhão em 2021 para mais de R$ 3 bilhões em 2025, avanço de 133% no período. Entre 2021 e 2022, o valor passou a R$ 1,5 bilhão. No ano seguinte, chegou a R$ 1,9 bilhão. A expansão das casas de apostas como patrocinadoras principais ocorreu ao mesmo tempo em que clubes aumentaram preços e quantidade de propriedades comerciais.

O levantamento reproduzido pelo Lance! confirma R$ 3,069 bilhões de receitas comerciais em 2025 e crescimento anual de 34%. Embora a alta não possa ser atribuída exclusivamente às bets, os R$ 1,03 bilhão calculados para o setor revelam uma concentração relevante. Retirar essa fonte de uma temporada para outra obrigaria os clubes a substituir contratos, reduzir custos ou buscar novas receitas.

O economista César Grafietti, autor do relatório citado pelo UOL, avaliou que uma interrupção teria impacto forte na gestão da temporada. Essa projeção é uma análise, não um resultado inevitável. O efeito dependeria do prazo de transição, das regras adotadas, da capacidade de cada clube conseguir outros patrocinadores e do custo de seus elencos.

Dívidas ampliam o risco de ajuste brusco

A Convocados informou investimento de R$ 4,3 bilhões em elencos profissionais em 2025 e dívida total de R$ 17,3 bilhões na base examinada. Outros estudos apresentam valores diferentes porque selecionam clubes e classificam obrigações de maneiras próprias. A EY, por exemplo, publicou receita total de R$ 14,9 bilhões para a Série A de 2025 e dívida líquida de R$ 14,3 bilhões. Não há contradição automática: os indicadores não são idênticos.

Para avaliar a exposição de cada clube, é necessário olhar o prazo do contrato de patrocínio, a parcela já recebida, garantias, concentração em uma única marca e relação entre despesas recorrentes e receitas previsíveis. Um acordo grande pode financiar contratações imediatas, mas se torna risco quando o gasto continua depois do fim do contrato.

O debate também envolve proteção ao consumidor. Publicidade de apostas alcança torcedores em transmissões, camisas, placas e redes sociais. Eventuais limites podem reduzir receita esportiva, mas são defendidos por quem aponta endividamento de apostadores e impacto sobre famílias. A decisão pública precisa confrontar os dois lados com dados, evitando tanto tratar o patrocínio como recurso sem custo social quanto presumir que a retirada será absorvida sem consequências.

Clubes não têm posição unânime

Um manifesto em defesa do setor foi publicado ou endossado por 16 dos 20 clubes da Série A. Athletico, Coritiba, Remo e Bahia não participaram, segundo o UOL. A ausência não permite concluir que todos os quatro apoiem uma proibição; indica apenas que não aderiram ao documento. As razões individuais precisam ser verificadas com cada instituição.

Na Série B, o Cuiabá adotou posição explícita. O presidente Cristiano Dresch afirmou que considera o segmento nocivo à sociedade e às famílias e disse que o clube não trabalha com casas de apostas há muito tempo. O caso demonstra que é possível escolher outra política comercial, embora a realidade de receita, torcida e mercado de cada agremiação seja diferente.

Os próximos passos dependerão das propostas de regulação e das negociações para as temporadas seguintes. Clubes terão de informar quanto de seus contratos permanece vigente e qual seria o custo de mudanças. Patrocinadores, por sua vez, deverão se adaptar a regras de publicidade responsável e proteção de públicos vulneráveis. Para o torcedor, o dado central permanece claro: em 2025, as bets foram responsáveis por cerca de um terço do dinheiro comercial da elite brasileira, uma concentração grande demais para ser ignorada no planejamento esportivo e financeiro.

Em resumo

Quanto as bets representaram nas receitas comerciais da Série A em 2025?

O levantamento citado atribui R$ 1,03 bilhão às casas de apostas dentro de R$ 3,069 bilhões em patrocínios dos 20 clubes, aproximadamente um terço.

Quantos clubes tinham patrocínio de bets em 2025?

Dezenove dos 20 integrantes da Série A tinham alguma marca de casa de apostas entre seus patrocinadores.

A presença aumentou ou diminuiu em 2026?

Diminuiu: a reportagem registra 13 dos 20 clubes da elite com patrocínio do setor em 2026.

Todos os clubes defendem patrocínios de apostas?

Não. Um manifesto foi endossado por 16 clubes da Série A, enquanto Athletico, Coritiba, Remo e Bahia não participaram; o Cuiabá, na Série B, declarou que não aceita o segmento.

Receita de patrocínio é igual à receita total dos clubes?

Não. Patrocínios são apenas uma parte da arrecadação, que também inclui direitos de transmissão, bilheteria, premiações, vendas de atletas e programas de sócios.

Os números de dívida são iguais em todos os estudos?

Não. Relatórios usam grupos de clubes e metodologias diferentes; por isso, valores de dívida e receita total não devem ser comparados sem conferir a base de cada levantamento.

Fontes