Boom da IA resiste aos juros altos nos EUA
Investimentos em chips, centros de dados e energia seguem acelerados, apesar do crédito caro, e ampliam o desafio do Federal Reserve.

O ciclo de investimentos em inteligência artificial continua avançando nos Estados Unidos apesar do custo elevado do crédito. Empresas de tecnologia e infraestrutura mantêm projetos de centros de dados, chips e sistemas de energia, transformando a expansão da IA em uma força própria dentro da economia americana.
O InfoMoney relatou na segunda-feira, 5 de outubro, que a alta dos juros ainda não conteve esse movimento. A reportagem reúne indicadores de gasto empresarial e construção para mostrar que o setor tem aceitado financiamentos mais caros diante da expectativa de ganhos tecnológicos e de demanda crescente.
Investimento avança apesar do crédito
Uma estimativa do economista Stijn Van Nieuwerburgh calcula mais de US$ 10 trilhões em investimentos ligados à IA entre 2025 e 2032, valor equivalente a cerca de 3,6% da produção anual dos Estados Unidos. Projeções desse porte são incertas, mas ajudam a dimensionar a quantidade de capital disputada pelo setor.
No segundo trimestre, os gastos com computadores e equipamentos superaram US$ 100 bilhões e cresceram aproximadamente 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. A construção de centros de dados, por sua vez, multiplicou-se por mais de cinco desde o começo de 2022, segundo os dados reunidos pela publicação.
O financiamento por dívida ganhou espaço à medida que os projetos ficaram maiores. Para companhias que esperam uma mudança estrutural de produtividade, uma pequena diferença na taxa de captação pode pesar menos do que a possibilidade de perder capacidade computacional ou atrasar a entrada em um mercado competitivo.
O Wall Street Journal registrou outra face desse otimismo: na mesma segunda-feira, ações de tecnologia levaram o Nasdaq a um novo recorde, mesmo com a elevação dos rendimentos dos títulos públicos. O contraste reforça que investidores ainda separam a IA de setores mais sensíveis ao encarecimento imediato do crédito.
Fed enfrenta efeito desigual
Essa resistência cria um dilema para o Federal Reserve. Juros altos costumam esfriar a atividade ao elevar o custo de empréstimos e reduzir investimentos, mas o canal funciona de maneira desigual quando empresas enxergam retornos excepcionais e dispõem de caixa, ações valorizadas ou acesso amplo ao mercado de dívida.
Se a infraestrutura de IA permanecer aquecida, o aperto monetário poderá atingir com mais força segmentos como habitação, automóveis e pequenas empresas. Isso não significa que a tecnologia seja imune: receitas abaixo do esperado, excesso de capacidade ou restrições de energia podem reavaliar projetos rapidamente.
Também existe uma questão física. Centros de dados precisam de terrenos, redes elétricas, refrigeração e grandes volumes de equipamentos. Gargalos nessas cadeias podem elevar custos e prolongar obras, limitando o ritmo de expansão mesmo quando há financiamento. A disponibilidade de eletricidade tornou-se parte central da estratégia tecnológica.
Por enquanto, os números apontam continuidade, não invulnerabilidade. O boom da IA sustenta investimento e ativos de tecnologia, mas aumenta a diferença entre setores da economia e dificulta a leitura dos efeitos dos juros. O Fed precisa avaliar essa assimetria sem confundir entusiasmo financeiro com produtividade já comprovada.
Em resumo
Empresas esperam retornos elevados e priorizam capacidade computacional, mesmo pagando mais pelo financiamento.
Uma estimativa citada pelo InfoMoney projeta mais de US$ 10 trilhões entre 2025 e 2032.
Principalmente em chips, servidores, centros de dados, redes elétricas e sistemas de refrigeração.
O aperto monetário esfria setores sensíveis ao crédito, mas tem efeito menor sobre projetos de IA considerados estratégicos.
Excesso de capacidade, receitas frustradas, dívida cara, falta de energia e atrasos na construção podem levar a revisões.