Bradesco reduz projeção do PIB a 1,7% e vê Selic em 13,25% no fim de 2026
Banco aponta perda de força do consumo e crédito mais restrito; cenário é mais pessimista para atividade e mais agressivo nos cortes de juros que o Focus.

O Bradesco revisou para 1,7% a previsão de crescimento da economia brasileira em 2026 e passou a esperar a taxa Selic em 13,25% ao ano no fim de dezembro. O cenário divulgado pelo banco combina atividade mais fraca com espaço para novos cortes de juros, mas ainda projeta inflação de 4,9% e não prevê recessão em 2027.
A análise identifica sinais de desaceleração no consumo, no crédito e no mercado de trabalho. Famílias endividadas enfrentam parcelas altas e juros ainda elevados, o que limita novas compras. Empresas também reavaliam investimentos quando a demanda perde força e o custo de financiamento permanece acima da média histórica.
Para 2027, o banco estima expansão de 1% do Produto Interno Bruto e Selic de 11%. O dólar é projetado em R$ 5 no encerramento de 2026 e R$ 5,20 no ano seguinte. Essas estimativas formam um cenário integrado, não promessas: câmbio, inflação e atividade reagem a decisões fiscais, choques externos e confiança.
Bradesco vê mais corte que mediana do Focus
O Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta semana mostrou mediana de 13,5% para a Selic no fim de 2026. A projeção do Bradesco, de 13,25%, pressupõe redução um pouco maior nas reuniões restantes do Comitê de Política Monetária. A diferença revela divergência normal entre instituições sobre a velocidade do ciclo.
O Copom reduziu a taxa para 13,75% na reunião anterior e evitou compromisso automático com o passo seguinte. Para continuar cortando, o colegiado observará inflação corrente, expectativas, atividade, câmbio e política fiscal. Projeções privadas não vinculam a decisão do Banco Central.
Juros menores tendem a aliviar gradualmente crédito e investimentos, mas o efeito demora a chegar à economia. Contratos antigos permanecem com custos elevados, e bancos podem manter spreads altos diante da inadimplência. Por isso, corte da Selic não se transforma imediatamente em financiamento barato para todas as famílias e empresas.
Consumo perde impulso
O endividamento das famílias aparece como um dos principais freios. Parte relevante da renda está comprometida com prestações, cartão e crédito pessoal. Quando o orçamento fica apertado, o consumo de bens duráveis costuma reagir primeiro. Serviços e itens essenciais podem sustentar atividade, mas não compensam sempre a queda em outros segmentos.
O Bradesco também considera riscos como petróleo mais caro, efeitos climáticos do El Niño, reforma tributária e mudanças na jornada de trabalho. Cada fator atua de forma diferente: energia e clima pressionam preços; regras tributárias alteram custos; mudanças trabalhistas podem afetar produtividade, emprego e margens.
Fiscal continua no centro das projeções
O banco avalia que o cumprimento formal do arcabouço fiscal é provável, mas questiona se será suficiente para fortalecer a confiança. O mercado acompanha não apenas a meta anual, mas a qualidade das receitas, o crescimento de despesas obrigatórias e a trajetória da dívida pública.
Uma desaceleração maior pode reduzir arrecadação e dificultar o equilíbrio fiscal, ao mesmo tempo em que aumenta a pressão por estímulos. O governo precisa administrar esse conflito sem provocar nova alta das expectativas de inflação. Medidas de curto prazo podem sustentar renda, mas exigem fonte de financiamento e avaliação do impacto futuro.
Os próximos dados do IBGE e os relatórios do Banco Central indicarão se a perda de ritmo se confirma. Varejo, serviços, indústria, emprego e crédito oferecem sinais complementares. Uma leitura responsável evita transformar um indicador isolado em diagnóstico definitivo de recessão ou recuperação.
A previsão do banco é mais fraca que estimativas anteriores para o crescimento e reforça a importância da composição do PIB. Expansão apoiada apenas por consumo público ou setores específicos pode esconder dificuldades em investimento e produtividade. Já uma desaceleração ordenada pode ajudar a inflação sem provocar aumento abrupto do desemprego. Os dados trimestrais mostrarão qual desses caminhos está se formando.
Para consumidores e empresas, o cenário sugere cautela com dívidas e planejamento. A previsão de juros menores não elimina o custo atual, e a expansão de 1,7% representa crescimento modesto. As projeções serão atualizadas à medida que novos dados chegarem; o ponto central é a combinação de atividade mais fraca, inflação ainda pressionada e espaço limitado para cortes.
Em resumo
Crescimento de 1,7%.
Alta de 1%, sem cenário de recessão.
13,25% ao ano.
4,9%, segundo o cenário divulgado pelo banco.
Consumo mais fraco, endividamento das famílias, crédito caro e perda de força do mercado de trabalho.
Não. É um cenário que muda conforme dados, política fiscal, inflação e decisões do Banco Central.