Tecnologia · 2026-10-13 · Redação Notícia ES

Checagens apontam inserção por IA em foto da Paulista

Imagem viral combinou o cenário real de uma estação pichada com a figura artificial de uma trabalhadora, segundo análises independentes.

Checagens apontam inserção por IA em foto da Paulista
Checagens apontam inserção por IA em foto da Paulista

Duas checagens independentes apontaram uso de inteligência artificial em uma imagem que mostrava uma mulher limpando a entrada da estação Trianon-Masp, na Avenida Paulista. O conteúdo circulou depois da manifestação pró-Lula realizada no domingo (11), em São Paulo, como se fosse um registro fotográfico do trabalho de limpeza.

O Poder360 divulgou nesta terça-feira (13) uma análise da plataforma brasileira Signaip, enquanto a Agência Lupa publicou na segunda-feira (12) uma verificação própria com ferramenta diferente e busca reversa. As duas apurações chegaram à mesma conclusão central: o cenário pichado existia, mas a trabalhadora não fazia parte da fotografia original.

A Signaip atribuiu 84% de probabilidade de manipulação por inteligência artificial ao arquivo viral. A ferramenta avaliou separadamente o fundo, que recebeu apenas 10% de probabilidade de alteração sintética. Segundo Caroline Nunes, fundadora da InspireIP, responsável pela plataforma, o resultado indica uma edição parcial sobre uma base fotográfica autêntica, e não a criação integral da cena.

A Lupa submeteu o material ao Hive Moderation, que indicou mais de 90% de chance de geração artificial. A agência também localizou, por busca reversa, a imagem usada como base: nela aparecem os vidros pichados da estação, sem a mulher que foi acrescentada na versão compartilhada nas redes.

Laudos separam cenário e personagem

A diferença entre os percentuais não invalida a convergência das análises. Detectores desse tipo trabalham com modelos, bases e critérios distintos; por isso, os números expressam probabilidades, não uma certificação matemática absoluta. Neste caso, a comparação com o arquivo anterior oferece uma evidência adicional, porque permite identificar qual parte foi introduzida depois.

O episódio mostra uma forma de adulteração mais difícil de perceber do que uma imagem totalmente inventada. Ao manter a arquitetura, os vidros e as pichações de uma fotografia real, a montagem preserva elementos reconhecíveis e adiciona apenas a personagem necessária para sustentar uma narrativa sobre o ocorrido.

A imagem foi compartilhada sem aviso de conteúdo sintético no canal oficial da campanha de Flávio Bolsonaro no WhatsApp, de acordo com a Lupa. A legenda afirmava que a mulher trabalhava no feriado para apagar as marcas deixadas após o ato. A existência de danos na estação não transforma a personagem criada em registro documental.

Origem digital precisa ser verificável

A análise da Signaip informou que o arquivo não apresentava manifesto C2PA nem registro de procedência em blockchain. O C2PA é um padrão de credenciais digitais que pode registrar informações sobre a origem e o histórico de edição de um conteúdo. A ausência desse registro, isoladamente, não prova fraude, mas impede uma camada importante de verificação.

Para o público, a medida mais segura é buscar a publicação original, comparar versões anteriores e consultar checagens independentes antes de compartilhar imagens com forte carga política. Pequenos erros visuais já não são um critério suficiente, pois sistemas generativos atuais conseguem produzir detalhes convincentes.

O caso também reforça a diferença entre mostrar um fato real e criar uma cena para representá-lo. Houve pichações na região da Paulista, mas a fotografia viral não documentou uma trabalhadora presente naquele momento. Ao circular sem identificação de montagem, a peça misturou uma base verdadeira com um elemento artificial e apresentou o resultado como prova do que teria acontecido.

Em resumo

A foto da mulher limpando a estação é autêntica?

Não como foi apresentada. Checagens indicaram que a mulher foi inserida artificialmente sobre uma fotografia real da estação pichada.

Qual foi o resultado da análise da Signaip?

A plataforma apontou 84% de probabilidade de manipulação por inteligência artificial no arquivo viral.

O cenário da estação também foi criado por IA?

A análise atribuiu apenas 10% de probabilidade de alteração ao fundo, e uma busca reversa encontrou a fotografia anterior sem a personagem.

A ausência de C2PA prova que uma imagem é falsa?

Não. Ela apenas significa que o arquivo não traz essa credencial de origem e edição; a conclusão depende de outras evidências.

Por que a montagem foi convincente?

Porque combinou uma fotografia real dos vidros pichados com uma personagem sintética, preservando elementos reconhecíveis da cena.

Fontes