Cidades vulneráveis recebem 68% menos recursos para prevenir desastres
Municípios mais expostos a enxurradas e inundações receberam menos recursos para investimentos em infraestrutura verde. Leia no Poder360.

Municípios mais expostos a enxurradas e inundações receberam menos recursos para investimentos em infraestrutura verde e resiliência ambiental, mostram dados inéditos analisados pelo Poder360
Cada chuva forte, a dona de casa Rosemari Peres
A cada chuva forte, a dona de casa Rosemari Peres Barbosa vê a água transformar a rua em frente à sua casa, em Unaí (MG), num córrego. Já perdeu móveis, comida e até a 1ª casa que construiu no terreno, em 2006.
Ela vive na periferia da cidade mineira, perto da zona de transbordo do Rio Preto, que corta a cidade.
Depois de uma das enchentes, precisou morar com a família em um barraco de plástico enquanto reconstruía a casa. “ Tinha desmanchado tudo. A água corria aqui como se fosse um córrego dentro da minha chácara ”, conta. Na época, tinha uma neta de 2 meses que vivia com ela.
Problema é conhecido há 20 anos e continua sem
O problema é conhecido há 20 anos e continua sem solução. Para que as crianças consigam atravessar a área alagada e chegar à escola durante o período de chuvas, o marido improvisou uma pequena ponte de madeira.
Na seca, a ponte parece uma cena de realismo mágico: liga a calçada à metade da rua. Na chuva, a imagem deixa de parecer estranha e volta a ser necessidade.
“ Não tem nem como virar lembrança. Todo ano a gente passa pelo mesmo problema ”, diz Rosemari, de 48 anos. O que falta não é saber onde a água vai passar. É trazer a obra de drenagem.
O caso de Unaí ajuda a dimensionar uma questão que se repete em municípios de todo o país.
O Poder360 analisou dados inéditos do Sistema de Análise da Dívida Pública, Operações de Crédito e Garantias da União, Estados e Municípios, que reúne informações sobre operações de crédito de governos locais, reunidos pela Abde (Associação Brasileira dos Bancos de Desenvolvimento), e cruzou com a lista de cidades suscetíveis a enxurradas e inundações da Casa Civil.
O resultado revela um contraste: os municípios mais expostos receberam 68% menos recursos para investimentos destinados à infraestrutura verde ou à resiliência ambiental do que os demais municípios.
Em 2025, 17 municípios brasileiros classificados pelo governo federal como suscetíveis a enxurradas e inundações registraram R$ 406,3 milhões em operações de crédito enquadradas nas categorias “Infraestrutura Verde” ou “Resiliência Ambiental” pelo Sistema Nacional de Fomento.
Nos demais 28 municípios que também recorreram a crédito dessa natureza, foram R$ 292,2 milhões em operações enquadradas nas mesmas categorias.
O valor total, porém, esconde a diferença relevante. Quando os recursos são distribuídos pela população, os municípios suscetíveis receberam R$ 64 por habitante . Nos demais, foram R$ 197 .
Isso significa que o valor per capita das operações de crédito enquadradas em “ Infraestrutura Verde ” ou “ Resiliência Ambiental ” foi 68% menor entre os municípios classificados como suscetíveis a enxurradas e inundações. Entenda a metodologia .
A diferença permanece mesmo quando o universo de investimentos é ampliado. Ao incluir saneamento na análise, os municípios suscetíveis registraram R$ 1,59 bilhão em operações, contra R$ 796,5 milhões nos demais.
Como a população dos 2 grupos é muito diferente, o resultado novamente muda quando calculado por habitante: R$ 122 nos municípios suscetíveis, contra R$ 265 nos demais –uma diferença de cerca de 54%.
A distância aparece também em outra frente da prevenção. Os municípios suscetíveis registraram R$ 11,88 por habitante em gastos associados à Defesa Civil , contra R$ 20,89 nos demais –uma diferença de 43% a menos.
O contraste vem de um problema que está longe de ser restrito a algumas cidades.
Entre 1991 e 2024, 5.097 dos 5.570 municípios brasileiros –91,5% do total– registraram ao menos um desastre relacionado a água , segundo levantamento de pesquisadores do Cemaden, USP e Inpe publicado na revista Environmental Research Letters .
Os números não significam que municípios mais expostos estejam impedidos de obter financiamento. Mostram algo mais específico: a existência do risco não se converte, na mesma proporção, em crédito para financiar obras capazes de reduzir seus efeitos .
Em Unaí, a melhora da situação fiscal da prefeitura foi uma das condições para conseguir financiamentos. Para contratar uma operação de crédito, o município precisa estar com as contas em dia para assumir uma nova dívida.
Em resumo
Municípios mais expostos a enxurradas e inundações receberam menos recursos para investimentos em infraestrutura verde e resiliência ambiental, mostram dados inéditos analisados pelo Poder360
A cada chuva forte, a dona de casa Rosemari Peres Barbosa vê a água transformar a rua em frente à sua casa, em Unaí (MG), num córrego. Já perdeu móveis, comida e até a 1ª casa que construiu no terreno, em 2006. Ela vive na periferia da cidade mineira, perto da zona de transbordo do Rio Preto, que corta a cidade.
Depois de uma das enchentes, precisou morar com a família em um barraco de plástico enquanto reconstruía a casa. “ Tinha desmanchado tudo. A água corria aqui como se fosse um córrego dentro da minha chácara ”, conta. Na época, tinha uma neta de 2 meses que vivia com ela.
O problema é conhecido há 20 anos e continua sem solução. Para que as crianças consigam atravessar a área alagada e chegar à escola durante o período de chuvas, o marido improvisou uma pequena ponte de madeira. Na seca, a ponte parece uma cena de realismo mágico: liga a calçada à metade da rua. Na chuva, a imagem deixa de parecer estranha e volta a ser neces
“ Não tem nem como virar lembrança. Todo ano a gente passa pelo mesmo problema ”, diz Rosemari, de 48 anos. O que falta não é saber onde a água vai passar. É trazer a obra de drenagem.