Classe C vira foco na disputa entre Flávio e Lula
Leituras sobre renda e preferência eleitoral colocam o grupo no centro do segundo turno, mas os estudos usam definições diferentes para a classe C.

A disputa pelo eleitorado de renda intermediária ganhou espaço no segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva nesta terça-feira (13). O jornalista Pedro Doria afirmou que a maior diferença entre os candidatos estaria na classe C, grupo que reúne trabalhadores assalariados, autônomos e pequenos empreendedores.
A CNN Brasil publicou a análise de Doria durante seu programa, enquanto a Folha de S.Paulo apresentou um levantamento próprio que cruza locais de votação com dados de renda do Censo de 2022. As duas fontes identificam avanço de Flávio em faixas intermediárias, mas usam recortes distintos e não devem ser tratadas como uma única medição.
Doria descreveu a classe C como quase metade da população e associou sua preferência a valores de autonomia econômica, desejo de empreender e cobrança por serviços públicos. A fala é uma interpretação política do comentarista, não o resultado isolado de uma pesquisa registrada com definição oficial e única do grupo social.
O levantamento da Folha indica que Flávio obteve maioria em áreas com renda média de 1,6 a 16,3 salários mínimos, faixa que abrange 68% da população no modelo adotado. O jornal também identificou Lula à frente entre os mais pobres e crescimento do presidente em parcelas de renda elevada.
Renda revela movimentos eleitorais
A análise geográfica ajuda a mostrar onde cada candidato avançou, mas não permite atribuir o voto de cada pessoa apenas à renda média do local. Uma seção eleitoral reúne eleitores com perfis diversos, e fatores como região, religião, escolaridade, ocupação e avaliação do governo também influenciam a escolha.
Segundo Doria, propostas dirigidas a microempreendedores individuais dialogam com a busca por autonomia presente nesse segmento. A campanha de Flávio tenta aproximar essa pauta de uma agenda de crédito e atividade econômica, enquanto Lula preserva apelo entre eleitores de menor renda por meio de programas sociais e políticas de transferência.
A leitura econômica ocorre em um cenário apertado. Pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada nesta terça mostrou Lula com 52% e Flávio com 48% dos votos válidos, diferença dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. O resultado geral não comprova sozinho a preferência de cada classe, mas reforça a importância de grupos numerosos na reta final.
Endividamento, juros, custo de vida e expectativa de ascensão social entram na decisão ao lado de temas morais e institucionais. Reduzir a classe C a um bloco uniforme apaga diferenças entre assalariados, comerciantes, prestadores de serviço e famílias que mudaram recentemente de faixa de renda.
Definições mudam conforme o recorte
Não existe uma única fronteira aceita por todos os institutos para definir a classe C. Algumas análises usam renda domiciliar, outras consideram renda por pessoa, posse de bens ou capacidade de consumo. Por isso, percentuais como “metade do país”, 68% ou 78% podem descrever universos diferentes.
Essa diferença metodológica precisa acompanhar qualquer manchete sobre o tema. A CNN destacou a tese apresentada por Doria; a Folha procurou sustentação em dados georreferenciados. Ambos os enquadramentos ajudam a compreender a eleição, mas nenhum autoriza afirmar que todos os integrantes de uma categoria votam da mesma forma.
A mesma régua deve valer para as duas campanhas. Se Lula ou Flávio reivindicarem representar um segmento social, propostas, pesquisas e definições usadas precisam ser expostas com clareza. Rótulos amplos não substituem amostras identificáveis nem dispensam a margem de erro.
Na prática, a classe C virou território decisivo porque combina peso demográfico, demandas por serviços e aspiração de mobilidade. A corrida eleitoral tende a intensificar promessas para esse público até a votação, mas o resultado dependerá de uma coalizão mais ampla de rendas e regiões.
Em resumo
Análises recentes identificaram avanço de Flávio Bolsonaro em faixas intermediárias de renda, um eleitorado numeroso e disputado.
Não. Institutos e analistas usam critérios diferentes de renda, consumo e composição domiciliar.
Ele disse que a maior diferença entre Flávio e Lula estaria na classe C e relacionou o grupo à autonomia econômica e ao empreendedorismo.
Flávio teve maioria em áreas de renda intermediária no modelo do jornal, enquanto Lula liderou entre os mais pobres e avançou entre os mais ricos.
Lula apareceu com 52% e Flávio com 48% dos votos válidos, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.