Como o Brasil encareceu a energia que o mundo quer
Em artigo à CNN Infra, Antonio Bastos Filho argumenta que o país transformou sua maior vantagem em um desastre energético com contas altas, contratos quebrados e uma barreira à prosperidade da inteligência artificial

O dono de uma lanchonete não precisa conhecer o setor elétrico para entender sua importância: a conta chega, sobe e precisa ser paga. Em vinte anos, a “conta de luz” acumulou alta acima de 400%.
IPCA avançou por volta de 200%
O IPCA avançou por volta de 200%. Para famílias e indústrias, energia cara virou um imposto regressivo, silencioso e permanente.
O Brasil talvez seja o único país capaz de ser simultaneamente um Electrostate , como a China, baseado em eletrificação e renováveis baratas, e um Petrostate , como os Estados Unidos, com petróleo competitivo e vastas reservas de gás.
Mas políticas ruins, má gestão regulatória e falta de ousadia transformaram abundância em custo. Competição e busca pelo menor preço cederam espaço a subsídios, interesses corporativos e escolhas políticas.
Tarifas sobem, empresas quebram, fabricantes de equipamentos saem e
Tarifas sobem, empresas quebram, fabricantes de equipamentos saem e investidores se afastam diante de arbitrariedades e contratos descumpridos.
No maior leilão de energia da história, o governo contratou 19 GW térmicos por mais de R$ 2 milhões por MW, embora baterias pudessem prestar o mesmo serviço por cerca de 40% menos.
A escolha ocorreu quando o custo das turbinas a gás (importadas) quase triplicou desde 2023, com a corrida global por IA. O prejuízo estimado ao consumidor é de R$ 0,5 trilhão em valor presente.
Quem tem painel solar continua usando a rede, mas transfere custos aos mais de 80 milhões de consumidores sem painel.
O subsídio médio é estimado em R$ 210 mensais para 6,5 milhões de consumidores com GD, contra R$ 31 para 17,5 milhões de consumidores de baixa renda.
Sob uma frágil justificativa ambiental (a expansão via projetos utility scale mais eficientes já é renovável), transferimos renda dos mais pobres para os mais ricos, a um custo de R$ 20 bilhões por ano.
E, como o ONS não controla a GD, corta grandes usinas solares e eólicas, gerando prejuízos de R$ 6,5 bilhões a geradores que pagaram pela conexão e contrataram margens de acesso, desperdiçando energia competitiva e quebrando contratos.
O resultado: a instalação de energia solar e eólica centralizada, fontes de energia mais baratas, caiu 54% em 2025 e deverá recuar ainda mais em 2026.
Belo Monte sem reservatórios adequados, Angra 3 com tecnologia dos anos 1970 e preços 200% acima do mercado, a concentração de mercado e outras disfunções revelam um modelo que exige reforma estrutural urgente.
A Noruega exporta petróleo e gás e eletrifica sua economia com renováveis. O potencial do Brasil é maior.
Primeiro, modernizar o mercado, ampliar o acesso ao mercado livre e contratar atributos (potência, flexibilidade e confiabilidade), e não tecnologias.
Segundo, eliminar subsídios para novos projetos, cobrar da GD os encargos de rede previstos na regulação e reavaliar Angra 3 e térmicas fora do mérito econômico, a partir de contratos existentes.
Precisamos de um PROER (bem-sucedido programa de saneamento do setor financeiro do governo Fernando Henrique Cardoso) para sanear nosso setor energético.
Terceiro, integrar expansão e operação, usando a transmissão como plataforma de crescimento e criando regras para grandes cargas, por exemplo, adotando o conceito de bring your own power para IA, associado a um fast track regulatório para tais cargas que podem gerar uma prosperidade brutal ao país em poucos anos.
Quarto, ressarcir perdas, combater fraudes e restaurar a segurança jurídica com agências técnicas e independentes — o sentimento atual dos investidores sobre o descumprimento de contratos no setor elétrico brasileiro tem que ser endereçado com vigor, clareza e rapidez.
A economia do futuro será intensiva em energia e inteligência. O Brasil tem uma valiosa combinação de recursos, escala, empresas e recursos limpos e abundantes. Falta decidir usar essa vantagem.
Energia barata não é apenas conta menor. É indústria, tecnologia, produtividade, renda e liberdade para criar o novo. Países que prosperam não administram escassez: transformam abundância em possibilidades.
Imagine motoboys elevando sua renda em 30% com motos elétricas, petróleo gerando US$ 50 bilhões de superávit e o Brasil capturando 10% dos investimentos globais em IA, mais de R$ 3 trilhões em uma década, abastecidos por renováveis e gás.
Esse sonho pode virar realidade muito rapidamente; bastam liderança, competência e inegociável compromisso com o cumprimento de regras e contratos.
O próximo governo pode continuar administrando privilégios e afastando investimentos ou fazer uma escolha maior: transformar a energia brasileira em plataforma de prosperidade.
O primeiro passo será mudar a abordagem histórica e formar um time que entenda profundamente do tema, com alta capacidade executiva e credibilidade junto aos mercados. O futuro já está sendo construído.
A questão é se teremos ambição e credibilidade para construí-lo aqui.
* Antonio Bastos Filho é fundador da Serena Energia
Em resumo
O dono de uma lanchonete não precisa conhecer o setor elétrico para entender sua importância: a conta chega, sobe e precisa ser paga. Em vinte anos, a “conta de luz” acumulou alta acima de 400%. O IPCA avançou por volta de 200%. Para famílias e indústrias, energia cara virou um imposto regressivo, silencioso e permanente.
O Brasil talvez seja o único país capaz de ser simultaneamente um Electrostate , como a China, baseado em eletrificação e renováveis baratas, e um Petrostate , como os Estados Unidos, com petróleo competitivo e vastas reservas de gás.
Mas políticas ruins, má gestão regulatória e falta de ousadia transformaram abundância em custo. Competição e busca pelo menor preço cederam espaço a subsídios, interesses corporativos e escolhas políticas. Tarifas sobem, empresas quebram, fabricantes de equipamentos saem e investidores se afastam diante de arbitrariedades e contratos descumpridos.
No maior leilão de energia da história, o governo contratou 19 GW térmicos por mais de R$ 2 milhões por MW, embora baterias pudessem prestar o mesmo serviço por cerca de 40% menos. A escolha ocorreu quando o custo das turbinas a gás (importadas) quase triplicou desde 2023, com a corrida global por IA. O prejuízo estimado ao consumidor é de R$ 0,5 trilhão em
Quem tem painel solar continua usando a rede, mas transfere custos aos mais de 80 milhões de consumidores sem painel. O subsídio médio é estimado em R$ 210 mensais para 6,5 milhões de consumidores com GD, contra R$ 31 para 17,5 milhões de consumidores de baixa renda. Sob uma frágil justificativa ambiental (a expansão via projetos utility scale mais eficiente