Crédito rural expõe lacunas nos planos dos candidatos
Programas de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam caminhos diferentes para financiar o campo, mas ainda não definem volume total, metas nem taxas do próximo Plano Safra.

Os programas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tratam o crédito rural como peça central da política agrícola, mas deixam sem resposta números decisivos para o produtor. Nenhum dos dois documentos informa quanto pretende destinar ao próximo Plano Safra nem fixa taxas para as linhas oficiais.
O levantamento publicado pela CNN Brasil nesta segunda-feira (19) compara as propostas registradas pelas candidaturas. A apuração foi confrontada com uma análise do Notícias Agrícolas, que examinou os programas entregues à Justiça Eleitoral e confirmou diferenças de prioridade entre os concorrentes.
Flávio relaciona a ampliação do acesso ao financiamento à regularização e à titulação de pequenos imóveis rurais. A lógica apresentada é que a documentação da propriedade oferece garantia jurídica para a contratação de crédito e para novos investimentos. O programa também cita securitização e reorganização de dívidas, além de expansão do seguro rural.
Planos divergem no financiamento
No documento de Lula, o compromisso é ampliar os recursos do crédito rural e buscar juros compatíveis com a rentabilidade da atividade. O programa prioriza máquinas, equipamentos, irrigação e tecnologias destinadas a elevar a produtividade, além de mencionar recursos do mercado de capitais e títulos ligados ao agronegócio.
As propostas também se separam na abordagem da agricultura familiar. Lula prevê continuidade da expansão do Plano Safra específico para esse público, com condições diferenciadas conforme o perfil do produtor e o produto financiado. Alimentos da cesta básica, agroecologia, produção orgânica, inovação e equipamentos adaptados aparecem entre as prioridades.
Flávio, por sua vez, dá mais ênfase à regularização fundiária, ao planejamento das dívidas e à criação de condições para que o título da terra facilite a tomada de recursos. O programa menciona o Plano Safra em conexão com incentivos à biomassa, mas não apresenta uma meta de expansão do crédito oficial para custeio e investimento.
Promessas ainda carecem de números
A ausência de valores impede comparar o alcance fiscal das promessas e a capacidade de atender diferentes perfis de produtores. Também faltam parâmetros para saber quanto seria destinado a custeio, investimento, seguro ou renegociação, e quais faixas de juros seriam consideradas sustentáveis por cada candidatura.
O ponto comum é a tentativa de reduzir riscos e destravar investimentos no campo. Ambos os programas citam seguro rural, irrigação, tecnologia, conectividade e regularização. A divergência está na ênfase: Lula propõe reforçar o sistema público de crédito e diversificar fontes; Flávio associa o financiamento à titulação e à reorganização de passivos.
Até que os candidatos apresentem metas, o eleitor dispõe de diretrizes, não de um orçamento verificável. Para produtores e cooperativas, os dados que faltam são justamente os que determinam o custo do dinheiro, a duração das linhas e a capacidade de financiar uma safra inteira.
Em resumo
Lula promete ampliar recursos e diversificar fontes, enquanto Flávio vincula o acesso ao crédito à regularização fundiária e à reorganização de dívidas.
Não. Nenhum dos dois documentos fixa o volume total de recursos para o próximo Plano Safra.
Não. Lula fala em juros compatíveis com a rentabilidade, mas não estabelece percentuais; Flávio também não apresenta taxas.
O programa de Lula prevê ampliar o crédito específico e diferenciar condições; o de Flávio enfatiza titulação e segurança jurídica da propriedade.
Faltam metas quantitativas, divisão dos recursos por finalidade e estimativa do custo fiscal das promessas.