Plano de governo de Cury cita doutorado em Psicologia que diverge do currículo do candidato
Documento apresentado à Justiça Eleitoral atribui ao presidenciável um doutorado em Psicologia Multifocal pela Florida Christian University, enquanto o currículo Lattes registra PhD em Administração de Empresas pela mesma instituição.

O plano de governo apresentado por Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência da República, traz uma informação sobre sua formação acadêmica que diverge do currículo Lattes atribuído ao próprio escritor. O documento registrado para a eleição de 2026 informa que Cury teria concluído, em 2013, um doutorado em Psicologia Multifocal pela Florida Christian University, nos Estados Unidos. No currículo acadêmico divulgado em seu nome, porém, a titulação indicada é um PhD em Administração de Empresas pela mesma instituição.
A divergência foi revelada nesta terça-feira, 1º de setembro, pela Folha de S.Paulo e reproduzida por outros veículos. O Portal de Dados Abertos do Tribunal Superior Eleitoral confirma que as propostas de governo dos candidatos à Presidência estão entre os documentos oficiais disponibilizados pela Justiça Eleitoral para a campanha de 2026.
O que aparece no plano
Segundo a reportagem da Folha, o plano encaminhado ao TSE descreve um doutorado em Psicologia Multifocal concluído em 2013 e associa a titulação ao trabalho intitulado “Programa Freemind como ferramenta global para prevenção de transtornos psíquicos”. A mesma formulação aparece em materiais biográficos sobre o escritor publicados na internet.
O ponto central da controvérsia está na diferença entre essa descrição e o registro do currículo Lattes. O currículo aponta formação de doutorado na área de Administração de Empresas, e não um doutorado acadêmico em Psicologia. Reportagem do Metro1, publicada nesta terça-feira, também registrou a inconsistência entre as duas informações.
A distinção importa porque plano de governo é um documento apresentado formalmente à Justiça Eleitoral e utilizado para informar o eleitor sobre trajetória, propostas e compromissos do candidato. A existência de versões diferentes sobre uma qualificação acadêmica, portanto, exige esclarecimento objetivo sobre a natureza do título obtido, o curso frequentado e a forma correta de apresentá-lo.
Declaração anterior do candidato
A Folha informou ainda que Cury já havia tratado de sua formação em julho, em artigo publicado no Observatório da Imprensa. Na ocasião, segundo o jornal, ele afirmou não apresentar o título obtido na Florida Christian University como um doutorado acadêmico em Psicologia. Essa manifestação anterior reforça a necessidade de explicar por que o plano de governo usa uma descrição diferente.
Até a publicação das reportagens consultadas, não havia sido apresentada uma resposta específica do candidato para esclarecer se houve erro material na redação do plano, se a denominação utilizada corresponde a uma certificação não acadêmica ou se há outro documento que sustente a descrição registrada na proposta eleitoral.
O Notícia ES não encontrou, nas fontes públicas consultadas nesta reapuração, elemento que permita afirmar que houve intenção de induzir o eleitor a erro. O fato verificável é a divergência documental entre a descrição do plano de governo e a informação atribuída ao currículo Lattes.
Universidade e reconhecimento de títulos
A reportagem da Folha também discute a situação institucional da Florida Christian University e o reconhecimento acadêmico de seus cursos. Esse é um tema separado da divergência documental. Um título emitido no exterior pode ter diferentes naturezas e, para determinados efeitos acadêmicos no Brasil, está sujeito a regras próprias de reconhecimento e validação.
Por isso, a resposta completa ao caso depende de documentos: qual programa foi cursado por Cury, qual certificado foi expedido, qual era a denominação oficial do curso e qual equivalência acadêmica o candidato atribui a esse título. A apresentação desses elementos permitiria distinguir uma eventual imprecisão biográfica de uma controvérsia maior sobre qualificação acadêmica.
Informação ganha peso em plena campanha
A revelação ocorre no momento em que Cury passou a receber maior atenção na disputa presidencial. O candidato ganhou exposição nas últimas semanas por crescimento nas redes sociais, pesquisas eleitorais e pela divulgação de propostas de governo. Com maior visibilidade, sua trajetória pessoal e profissional também passou a ser submetida a escrutínio mais intenso.
A Justiça Eleitoral disponibiliza propostas de governo e outras informações das candidaturas justamente para ampliar a transparência da disputa. Embora o TSE receba os documentos, isso não significa que a Corte faça uma certificação acadêmica prévia de cada informação biográfica inserida pelos candidatos em seus planos.
O esclarecimento, portanto, cabe ao candidato e à campanha. A questão objetiva é simples: por que o documento apresentado ao eleitor registra doutorado em Psicologia Multifocal enquanto o currículo acadêmico citado pelas reportagens registra PhD em Administração de Empresas?
Enquanto não houver uma explicação documental, a divergência permanece como um ponto aberto da candidatura de Augusto Cury.