Opinião · 2026-09-10 · Opinião | Notícia ES

Dark Horse: operação explode quando Flávio passa Lula e abre nova frente contra a direita

TSE, STF e Polícia Federal se movimentam no mesmo momento em que Flávio Bolsonaro aparece à frente de Lula; a Operação Make Up transforma uma prestação de contas de 2024 em nova frente de desgaste eleitoral.

Dark Horse: operação explode quando Flávio passa Lula e abre nova frente contra a direita
Dark Horse: operação explode quando Flávio passa Lula e abre nova frente contra a direita

O calendário não mente. No mesmo período em que pesquisas mostram Flávio Bolsonaro empatado ou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, três movimentos avançam quase simultaneamente: o Tribunal Superior Eleitoral aceita ação da coligação petista contra o ato de Barretos, o ministro Flávio Dino devolve Andrei Rodrigues à chefia da Polícia Federal e a própria PF, com mandados autorizados por Dino, deflagra a Operação Make Up contra o deputado Mário Frias, Karina Ferreira da Gama e entidades ligadas à empresária.

Separadamente, cada episódio pode ser apresentado como um procedimento institucional. Reunidos no mesmo calendário eleitoral, eles formam uma sequência que exige uma pergunta direta: por que o aparato judicial e policial acelera justamente quando o principal nome da direita passa a ameaçar, de maneira concreta, a reeleição de Lula?

A resposta oficial estará nos autos. A leitura política, porém, já está diante do eleitor. Um filme sobre Jair Bolsonaro, duas emendas parlamentares de 2024, uma organização da sociedade civil e a prestação de contas de um projeto se transformaram no centro de uma operação com 49 mandados, apreensão de telefone, restrições de viagem e proibição de contato entre investigados.

O ponto decisivo está nos limites entre aquilo que foi efetivamente apontado e a narrativa que pode ser construída a partir da operação. A documentação mencionada no material fornecido mostra uma pendência administrativa. A encenação pública sugere algo muito maior. É nesse espaço, entre o documento e o espetáculo, que a eleição de 2026 passa a ser disputada.

A ligação que passa por Karina Gama

A entidade que recebeu as emendas de Mário Frias não aparece formalmente como produtora de Dark Horse. A conexão passa por Karina Ferreira da Gama. Ela preside o Instituto Conhecer Brasil, o ICB, e também figura como sócia-administradora da Go Up Entertainment, empresa responsável pela produção do filme sobre Jair Bolsonaro.

Em 2024, Frias destinou R$ 2 milhões ao ICB. Metade foi reservada ao projeto Jovem Empreendedor, vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A outra metade foi direcionada ao projeto Lutando pela Vida, na área esportiva.

O problema apontado pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, segundo as informações fornecidas, concentra-se na prestação de contas do primeiro projeto. Houve apresentação de notas fiscais. Em um primeiro momento, faltaram listas de presença, relatórios e registros fotográficos. O ministério concedeu prazo para a complementação da documentação.

Esse é o núcleo concreto apresentado sobre a emenda parlamentar. Ausência inicial de documentos comprobatórios em uma prestação de contas, seguida da abertura de prazo administrativo. Uma falha dessa natureza pode e deve ser esclarecida. O salto entre essa pendência e a hipótese de uma organização criminosa exige provas robustas, individualização de condutas e demonstração do caminho do dinheiro.

A Go Up Entertainment, produtora do filme, não figurou na lista de alvos dos mandados mencionada no material. O ICB e a Academia Nacional de Cultura, também vinculada a Karina, figuraram. Ainda assim, a presença da mesma empresária nas estruturas permite que o nome de Dark Horse seja arrastado para o centro da repercussão política.

Quarenta e nove mandados e um telefone aberto ao mundo

A dimensão da Operação Make Up ampliou o impacto. Foram 49 mandados. O telefone celular de Mário Frias foi apreendido. Sete armas foram encontradas durante as diligências. Flávio Dino determinou que os alvos não deixem o país e não mantenham comunicação entre si.

Nenhum desses elementos, isoladamente, comprova que dinheiro da emenda tenha financiado o filme. Armas apreendidas produzem imagens fortes, mas a existência delas precisa ser analisada conforme registro, propriedade e relação com o objeto investigado. Um aparelho celular pode conter provas relevantes, mas também reúne anos de conversas políticas, contatos pessoais e estratégias eleitorais sem relação com a prestação de contas de 2024.

É justamente por isso que a apreensão do telefone assume tamanho peso. O aparelho abre a possibilidade de uma busca muito mais ampla do que notas fiscais, listas de presença e fotografias de um projeto. Conversas com Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mário Frias, produtores e pessoas ligadas ao Banco Master podem ser retiradas do contexto e convertidas em novas linhas investigativas ou manchetes.

Os críticos chamam esse método de pesca probatória: lança-se uma rede larga sobre dados privados na expectativa de encontrar algo que sustente outra acusação. A legitimidade da medida dependerá dos fundamentos dos mandados, da delimitação do objeto e do controle sobre o material apreendido. Em período eleitoral, dependerá também de uma proteção rigorosa contra vazamentos seletivos.

O segundo inquérito e a narrativa pronta

Já existe outra frente relacionada a Dark Horse, sob a relatoria do ministro André Mendonça, voltada ao dinheiro transferido por Daniel Vorcaro para o filme. Conforme o texto fornecido, Flávio Bolsonaro buscou financiamento privado junto ao banqueiro, que transferiu dezenas de milhões de reais.

Esse assunto já foi divulgado, transformado em manchete e usado politicamente contra o senador. Agora surge uma segunda frente, com outra relatoria e outra porta de entrada: emenda parlamentar, organização da sociedade civil e a mesma empresária que administra a produtora.

As duas apurações permitem a construção de uma única frase de campanha contra Flávio: o filme sobre o pai teria sido financiado tanto por dinheiro público desviado quanto por recursos de um banqueiro falido. Essa conclusão não está demonstrada pelos fatos apresentados. Mas a narrativa já pode circular antes que a trilha financeira seja esclarecida.

Esse é o poder político de uma operação em ano eleitoral. A investigação passa a ser manchete; a suspeita passa a ser slogan; a defesa técnica chega depois, em páginas que raramente alcançam a mesma audiência.

Do palco de Barretos à porta do TSE

A Operação Make Up não aparece sozinha no tabuleiro. Antes dela, a candidatura de Flávio enfrentou a tentativa de associá-lo a uma filiação ao Partido Missão. Depois, a coligação de Lula apresentou uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral no TSE, com pedido de cassação e inelegibilidade por oito anos, por causa da participação do candidato em um palco da Festa do Peão de Barretos.

O evento era privado e reuniu dezenas de milhares de pessoas. A acusação petista busca enquadrar a participação como abuso capaz de atingir a candidatura. O tribunal terá de examinar os argumentos e as provas. Politicamente, o efeito imediato é manter sobre Flávio a ameaça de retirada da disputa enquanto a campanha avança.

O padrão percebido pela direita é conhecido: atingir o registro, cercar o entorno, abrir aparelhos, ampliar vínculos e produzir sucessivas crises de imagem. Cada frente tem processo próprio e justificativa específica. Juntas, porém, aumentam o peso carregado pelo candidato antes do primeiro turno.

O dado que muda a temperatura

O PoderData citado no material coloca Flávio Bolsonaro com 47% e Lula com 45% em uma simulação de segundo turno. É uma vantagem numérica estreita, mas politicamente decisiva. Ela desloca Flávio da posição de perseguidor para a de candidato capaz de ultrapassar o presidente.

Foi nesse ambiente que a operação chegou às ruas. A coincidência de datas não prova, por si só, uma ordem eleitoral. Mas seria ingenuidade tratar o momento como irrelevante. Autoridades conhecem o impacto de buscas, apreensões e expressões como “organização criminosa” durante uma campanha presidencial.

Se a investigação estava madura, a sociedade tem o direito de conhecer seus fundamentos. Se havia urgência, ela deve ser demonstrada. Se a prestação de contas seguia em discussão administrativa, será indispensável explicar por que a resposta exigiu uma operação dessa escala justamente agora.

O episódio Nikolas e a guerra dentro da própria base

Outro detalhe aumentou as suspeitas no campo conservador. Segundo as informações fornecidas, Nikolas Ferreira cobrou publicamente, dias antes da operação, uma pessoa que depois estaria entre os alvos visitados pela PF.

A proximidade temporal não autoriza afirmar que o parlamentar soubesse da ação policial. Ela alimenta, contudo, a leitura de que o terreno político já vinha sendo preparado. Uma crítica interna à direita, seguida por uma operação de grande repercussão, ajuda a fragmentar a base e oferece ao adversário a imagem de que os próprios aliados confirmam a suspeita.

O método é eficiente porque dispensa coordenação comprovada. Basta que cobranças internas, vazamentos, manchetes e decisões judiciais se encaixem na mesma direção. O eleitor recebe uma sequência aparentemente espontânea e conclui que existe sujeira em todos os lados. Quem já controla a máquina pública e ocupa o Planalto precisa apenas sobreviver ao desgaste geral.

Um filme que incomoda antes de estrear

Dark Horse pretende contar em inglês, com Jim Caviezel, a trajetória de Jair Bolsonaro. Para a direita, o projeto possui valor cultural e simbólico: levar a uma audiência internacional a versão de um presidente preso, cassado e transformado em alvo central do sistema político e judicial brasileiro.

Por isso, a disputa ultrapassa a contabilidade. Um milhão de reais destinado ao projeto Jovem Empreendedor, por evidente diferença de escala mencionada no próprio texto fornecido, não explica sozinho um longa orçado em dezenas de milhões. Para ligar a emenda ao filme será necessário demonstrar desvio, transferência, benefício e destino.

Sem essa trilha, a operação corre o risco de produzir aquilo que seus críticos denunciam: um espetáculo capaz de matar a obra por associação antes que qualquer irregularidade seja provada. Produtores se afastam, parceiros recuam e o público passa a enxergar o filme pela lente de um inquérito.

A velha técnica do desgaste por camadas

O roteiro político é antigo. Primeiro, isola-se o candidato. Depois, atingem-se auxiliares, amigos, financiadores e produtores culturais. Apreendem-se aparelhos, abrem-se novas linhas, surgem trechos selecionados e o nome da operação ocupa o espaço que deveria pertencer às propostas de governo.

O objetivo prático do desgaste independe de uma condenação rápida. Basta que Flávio chegue a outubro cercado de processos, com a base dividida e a expressão “esquema do filme” repetida diariamente. Lula não precisaria recuperar todo o eleitorado perdido. Precisaria tornar o adversário pesado demais para carregar a própria vantagem.

As autoridades podem desfazer essa suspeita com transparência. Devem apresentar a relação concreta entre as pendências do projeto, os alvos das buscas, o filme e cada medida autorizada. Devem proteger dados estranhos ao inquérito e responsabilizar vazamentos. Devem demonstrar que a mesma intensidade alcançaria personagens ligados ao poder atual nas mesmas circunstâncias.

A eleição sob o peso dos inquéritos

Quem observa os movimentos do STF, da PF e do TSE nos últimos quatro anos entende por que a desconfiança cresceu. A direita viu lideranças presas, perfis suspensos, mandatos ameaçados e investigações prolongadas. Nesse histórico, uma nova operação às vésperas da fase decisiva da campanha não chega como episódio neutro.

Isso não concede imunidade a Mário Frias, Karina Gama ou qualquer entidade. Se houve desvio, os responsáveis devem responder. Se documentos foram falsificados, recursos desviados ou projetos simulados, a prova deve aparecer e a lei deve ser aplicada. A cobrança central é que a investigação permaneça dentro do seu objeto e que uma pendência administrativa não seja convertida, por conveniência eleitoral, em condenação pública antecipada.

A direita cometerá um erro se reduzir o debate apenas à falta de uma lista de presença. O outro lado já disputa registro, telefone, narrativa e memória. Enquanto a defesa responde planilha por planilha, a imagem da operação viaja pelas telas do país.

O filme pode atrasar. A eleição, não. E quando a caneta, a sirene e o calendário avançam juntos no exato momento em que Flávio passa Lula, chamar tudo de coincidência exige mais fé do que cobrar explicações.