Política ES · 2026-11-07 · Redação Notícia ES

Debate sobre juros tem tudo a ver com movimentação juvenil e popular que levou Lula à vitória, diz André Singer

Cientista político afirma que pacote para bolso do eleitor, ruas mobilizadas e apoio de Janones foram chave da vitória de Lula, mas que avanço da direita radical é 'ameaça' que não desaparece com resultado da eleição.

Debate sobre juros tem tudo a ver com movimentação juvenil e popular que levou Lula à vitória, diz André Singer
Debate sobre juros tem tudo a ver com movimentação juvenil e popular que levou Lula à vitória, diz André Singer

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano foi, em grande parte, sustentada pela mudança de postura do governo, que passou a dialogar com as necessidades reais da população.

O contexto do cenário político

Extinguir as bets, reconhecer o alto preço dos alimentos e criar medidas com impacto direto no bolso da população foram iniciativas cruciais para a virada do primeiro para o segundo turno, analisa o cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

Mas o autor do recém-lançado Impasse - O Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras), dentre outras obras, afirma que, a despeito da vitória no Brasil e da mais recente derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos , a democracia ainda corre risco.

"Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática", afirma Singer em entrevista à BBC News Brasil.

Como interpretar os resultados

Uma das explicações para o avanço da direita radical, segundo o pesquisador, seria o agravamento das desigualdades causado pela crise financeira de 2008, apontada como a pior recessão global desde a Grande Depressão de 1929.

De lá para cá, não importa muito quem vem ganhando as eleições: a vida das pessoas não está melhorando, defende Singer. "A sociedade continua com a corda no pescoço e sem horizonte de futuro para si e para os seus filhos", afirma.

Parte dessa população, portanto, se deslocou para a direita radical, que avançou muito nos últimos anos em todo o mundo.

"A boa notícia que eu posso dar para quem é favorável à democracia, como é meu caso, é que a extrema-direita também não está encontrando solução para essas pessoas."

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BBC News Brasil - A antropóloga Rosana Pinheiro Machado, que pesquisa também os efeitos da plataformização do trabalho, defende que uma nova classe aspiracional , que busca prosperar financeiramente e se frustra por considerar que suas necessidades não são contempladas pelas políticas públicas atuais, representa uma "bomba-relógio" que quase estourou nessas eleições.

Essa bomba está desarmada ou apenas sua explosão foi adiada?

André Singer - Vamos tomar essa imagem da bomba-relógio como ponto de partida. Eu diria que aconteceu uma coisa excepcional: ela, digamos, estourou no primeiro turno e "desestourou" no segundo.

Na verdade, ela foi revertida, como se o efeito dela tivesse virado ao contrário.

E esse é o fenômeno incrível, porque nós temos que lembrar que o presidente Lula ganhou de Flávio Bolsonaro pelo dobro da diferença com que ele ganhou de Jair Bolsonaro em 2022.

Então, o final do processo é o inverso do que aconteceu no primeiro turno. E eu estou falando não apenas dos números, mas de uma interpretação política profunda do que aconteceu.

De tal maneira que a ideia da bomba-relógio é excelente, mas acho que o que aconteceu entre o primeiro e o segundo turno foi a reversão desse processo.

O que não significa que a bomba tenha sido desativada, mas ela teve, do ponto de vista estritamente político, e quem analisa política precisa analisar cada conjuntura, uma reversão desse processo no segundo turno.

BBC News Brasil - E por quê? O que aconteceu? Já dá para apontar fatores concretos para essa reversão?

Singer - Foram três fatores. Começa com uma mudança de postura do presidente e, portanto, do caráter do governo. Esse talvez seja o aspecto menos notado.

O presidente, a meu ver, mudou a campanha completamente em meados de setembro. Na verdade, o marco específico é o comício de Porto Alegre em 11 de setembro, quando ele reconheceu que os preços do supermercado estavam caros, citando especificamente o café e a carne.

A partir daí, ocorre uma grande mudança. Ele começou a tomar medidas no sentido de dialogar com as necessidades da população. E talvez a mais emblemática tenha sido a proibição das bets.

Porque o que acontece aqui é uma confluência de diversos fatores: aumento do custo de vida, uma crise de endividamento das famílias e, em terceiro lugar, a epidemia das bets.

Não digo que seja só isso, mas em parte ocorre porque as pessoas estavam endividadas e tentavam conseguir uma renda extra para pagar suas dívidas. E o mecanismo das bets é feito para que a pessoa perca.

Então, a maioria dessas pessoas acabava mais endividada, numa situação muito angustiante.

Em resumo

O que aconteceu?

A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano foi, em grande parte, sustentada pela mudança de postura do governo, que passou a dialogar com as necessidades reais da população.

Qual é o ponto principal?

Extinguir as bets, reconhecer o alto preço dos alimentos e criar medidas com impacto direto no bolso da população foram iniciativas cruciais para a virada do primeiro para o segundo turno, analisa o cientista político André Singer, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

Quais são os dados mais importantes?

Mas o autor do recém-lançado Impasse - O Brasil diante da onda reacionária (Companhia das Letras), dentre outras obras, afirma que, a despeito da vitória no Brasil e da mais recente derrota de Donald Trump nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos , a democracia ainda corre risco.

Qual é o contexto?

"Estamos diante de uma extrema-direita violenta e abertamente antidemocrática", afirma Singer em entrevista à BBC News Brasil.

Quais são os próximos desdobramentos?

Uma das explicações para o avanço da direita radical, segundo o pesquisador, seria o agravamento das desigualdades causado pela crise financeira de 2008, apontada como a pior recessão global desde a Grande Depressão de 1929.

Fontes