Delator diz que destino de remessas foi omitido
Antônio Carlos Freixo Júnior afirmou à PF que não sabia da ligação dos recursos com o filme Dark Horse; investigadores apontaram divergências documentais.

Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, afirmou em delação premiada à Polícia Federal que não foi informado sobre a destinação de remessas aos Estados Unidos para o filme Dark Horse. O depoimento foi prestado em 1º de outubro e teve novos trechos divulgados nesta sexta-feira (16).
A versão foi publicada pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo Jornal de Brasília, que reproduziu dados do material da investigação. As duas fontes registram também que a PF encontrou divergências entre o relato do empresário e documentos reunidos no inquérito.
Segundo o depoimento, a operação teria sido apresentada como investimento em um fundo ligado a empreendimentos imobiliários no Texas e na Flórida. Freixo disse que a ordem para transferir US$ 12,3 milhões partiu de Fabiano Zettel e foi confirmada por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
PF aponta divergências documentais
O empresário afirmou que soube pela imprensa da relação entre os recursos e a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Disse ainda que tentou solicitar o resgate integral das quantias e um balancete do fundo, mas não obteve resposta dos gestores.
A investigação, contudo, identificou uma carta-acordo dirigida à Entre Investimentos, empresa usada nas remessas. Conforme a PF, o documento estabelecia compromisso de aporte de US$ 24 milhões e mencionava a produção de um filme, ponto que precisa ser confrontado com a declaração do delator.
Os investigadores também analisam a origem do dinheiro. Freixo declarou que os aportes vieram de saques em conta garantida do Banco Master, venda de ativos e caixa próprio. A polícia apontou que a conta da Entre recebeu R$ 12 milhões da Super Empreendimentos na véspera da primeira remessa.
Há ainda lacunas nos comprovantes apresentados. De acordo com a apuração, parte das operações não possui documentação bancária completa, e os papéis da produtora Go UP não permitem identificar todas as contas de origem dos recursos enviados ao exterior.
Inquérito ainda reúne provas
A previsão investigada era destinar US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação citada, ao projeto cinematográfico. Do total, US$ 12,3 milhões, aproximadamente R$ 62 milhões, teriam sido transferidos por meio da Entre Investimentos ao fundo Havengate.
A delação de Freixo foi homologada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em setembro. A homologação reconhece a regularidade formal do acordo, mas não confirma automaticamente a veracidade de cada afirmação, que precisa ser confrontada com documentos e outras provas.
A PF pediu mais 90 dias para concluir diligências, perícias e análises das remessas internacionais. A solicitação mantém o caso em fase investigativa, sem conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal dos envolvidos ou sobre a origem de todos os valores.
A campanha de Flávio Bolsonaro, a defesa de Vorcaro e Paulo Calixto, administrador do fundo citado, não haviam apresentado manifestação às reportagens até a publicação das apurações. As versões poderão ser incorporadas ao processo durante o prosseguimento do inquérito.
Em resumo
Freixo afirmou que não sabia que as remessas aos Estados Unidos seriam relacionadas ao filme Dark Horse.
O depoimento menciona US$ 12,3 milhões remetidos ao exterior, aproximadamente R$ 62 milhões na cotação citada.
Uma carta-acordo mencionava compromisso de US$ 24 milhões e a produção de um filme, embora o delator tenha negado conhecer esse destino.
Não. As afirmações precisam ser confirmadas por documentos, perícias e outras provas reunidas no inquérito.
A PF pediu mais 90 dias para concluir diligências e analisar as remessas internacionais.