Dívida pública coloca ajuste fiscal no centro do próximo governo
Endividamento de 82,9% do PIB pressiona os candidatos a explicar como pretendem conter despesas, preservar serviços e ampliar receitas.

A dívida bruta de 82,9% do Produto Interno Bruto colocou o ajuste fiscal entre as decisões mais difíceis para quem assumir a Presidência em 2027. Neste domingo (18), uma semana antes do segundo turno, o debate opõe propostas de corte de despesas a medidas de aumento de arrecadação.
O InfoMoney comparou os programas de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro e ouviu economistas sobre os limites de cada estratégia. As estatísticas fiscais do Banco Central confirmam que o endividamento avançou em agosto, enquanto a Instituição Fiscal Independente projeta pressão crescente nos próximos anos.
O programa de Flávio propõe reduzir ao menos dez ministérios, cortar cargos comissionados, combater supersalários e retomar privatizações e concessões. O documento também promete mais transparência para emendas parlamentares, mas não identifica todos os órgãos que seriam atingidos nem quantifica a economia esperada.
Lula defende preservar investimentos sociais e buscar equilíbrio com tributação maior sobre rendas elevadas, revisão de benefícios fiscais e crescimento econômico. A proposta aposta ainda na queda sustentada dos juros, que reduziria o custo de rolagem da dívida, mas depende de credibilidade fiscal e de condições monetárias que não estão sob controle direto do Planalto.
Orçamento limita cortes rápidos
A maior dificuldade está na rigidez das despesas. A maior parte do Orçamento federal é formada por gastos definidos em lei ou pela Constituição, como Previdência, salários e pisos de saúde e educação. Isso reduz a margem para um corte amplo sem mudança legislativa e sem negociação no Congresso.
Economistas ouvidos pelo veículo apontaram Previdência, funcionalismo, subsídios e emendas como áreas a revisar. Ao mesmo tempo, alertaram que uma redução linear pode comprometer serviços essenciais e investimentos públicos. O tamanho do corte, portanto, não basta: sua composição define o efeito sobre a atividade e sobre a população.
O custo dos juros amplia o problema. Quando investidores enxergam risco maior na trajetória da dívida, exigem remuneração mais alta para financiar o Tesouro. A conta se retroalimenta, porque juros elevados aumentam o gasto financeiro e dificultam a estabilização do endividamento, mesmo quando o resultado antes dos juros melhora.
Também há limites para elevar receitas. A carga tributária já é elevada e novos impostos dependem de aprovação política, desenho técnico e capacidade de cobrança. Revisar renúncias fiscais e tornar a tributação mais progressiva pode gerar recursos, mas cada benefício eliminado mobiliza setores organizados e produz resistência parlamentar.
Planos exigem números verificáveis
O próximo governo precisará transformar diretrizes eleitorais em metas anuais, projetos de lei e medidas com impacto calculado. Dizer que haverá corte de desperdícios ou cobrança dos mais ricos não permite, por si só, avaliar quanto a dívida deixará de crescer nem quais grupos pagarão a conta.
O teste será conciliar três objetivos: conter o endividamento, manter políticas públicas e recuperar espaço para investimento. Medidas aprovadas no começo do mandato costumam aproveitar maior capital político, mas mudanças duradouras precisam de regras compreensíveis e de uma transição que evite choques sobre renda, emprego e serviços.
A eleição definirá a direção inicial, não a solução completa. Qualquer ajuste relevante passará pelo Congresso e será acompanhado pelo Banco Central, por órgãos de controle e pelo mercado. A transparência sobre valores, prazos e efeitos distributivos será decisiva para separar um plano executável de uma promessa genérica.
Em resumo
Ela alcançou 82,9% do PIB em agosto de 2026, segundo os dados citados na apuração.
O programa prioriza cortes de despesas, redução de ministérios e cargos, privatizações e controle de supersalários.
O programa combina preservação de investimentos sociais, tributação mais progressiva, revisão de benefícios fiscais e crescimento econômico.
Grande parte das despesas é obrigatória e só pode ser alterada por leis ou mudanças constitucionais aprovadas pelo Congresso.
Faltam valores, cronogramas e estimativas detalhadas que permitam medir o efeito das medidas sobre dívida, serviços e renda.