Djamila critica distorções sobre lugar de fala
Escritora afirma que conceito não impede ninguém de falar, comenta nova edição do livro e aborda aborto, racismo e violência digital.

A filósofa e escritora Djamila Ribeiro afirmou que o conceito de “lugar de fala” foi reduzido de forma equivocada a uma autorização para calar pessoas. Em entrevista publicada neste domingo, 18 de outubro, ela também criticou setores da esquerda pela resistência ao debate sobre aborto e comentou a preparação de um livro sobre a cultura das chamadas red pills.
O Metrópoles publicou a conversa no programa Que Dia. A edição ampliada de Lugar de Fala, lançada em junho pela Rosa dos Tempos, é confirmada pelo site da autora e por entrevistas recentes à Folha de S.Paulo e ao podcast Repertório 451 MHz.
Conceito voltou ao debate
Djamila sustenta que todas as pessoas ocupam um lugar social e, portanto, têm lugar de fala. A diferença está nas condições históricas, materiais e culturais a partir das quais cada uma interpreta o mundo. Para ela, reconhecer essas posições amplia o debate em vez de proibir opiniões.
A autora rebate a fórmula segundo a qual pessoas brancas não poderiam falar sobre racismo ou homens não poderiam discutir desigualdade entre os sexos. Seu argumento é que ninguém parte de uma posição neutra: pessoas de grupos privilegiados podem participar, mas precisam reconhecer como sua experiência difere daquela vivida pelos grupos diretamente afetados.
A nova edição do livro foi ampliada para responder a críticas e simplificações acumuladas desde a publicação original. Djamila relaciona parte das distorções ao ambiente das redes sociais, no qual conceitos complexos são transformados em frases de impacto para gerar engajamento, disputa e monetização.
Ela também afirma que críticas ao “lugar de fala” muitas vezes ignoram o objetivo central do conceito: investigar por que algumas vozes receberam mais espaço e autoridade do que outras. A discussão envolve acesso à publicação, à universidade e aos circuitos de produção cultural, não apenas conflitos individuais na internet.
Entrevista abordou novas disputas
Na conversa, Djamila voltou a cobrar que o aborto seja discutido como tema de saúde, economia e direitos das mulheres. Ela criticou governos e partidos progressistas que, em sua avaliação, evitam o assunto por cálculo político. Posição semelhante já havia sido apresentada em entrevista ao UOL em agosto.
A escritora adiantou ainda que trabalha em um livro sobre red pills, expressão usada por comunidades digitais masculinas que dizem revelar uma suposta verdade escondida sobre relações entre homens e mulheres. Djamila relaciona o fenômeno à misoginia on-line e ao crescimento de discursos hostis contra mulheres jovens.
Outro eixo da entrevista foi a relação entre trajetória intelectual e memória familiar. A autora falou das cartas dirigidas à avó Antônia e da influência de mulheres de sua família na formação de sua escrita, conectando a discussão pública sobre poder com experiências pessoais de afeto, ausência e pertencimento.
As declarações reúnem debates culturais que ultrapassam uma disputa partidária: circulação de livros, linguagem acadêmica, responsabilidade nas redes e representação de grupos historicamente excluídos. Ao revisar o próprio trabalho, Djamila tenta recuperar a complexidade de um conceito que se tornou popular justamente porque passou a ser usado muito além de seu texto original.
Em resumo
Que todos têm lugar de fala, mas falam a partir de posições sociais diferentes.
Não. Segundo a autora, ele amplia perspectivas e exige reconhecimento das desigualdades.
Sim. Lugar de Fala foi relançado em junho numa versão revista e ampliada.
Disse que setores progressistas evitam discutir aborto por cálculo político.
A cultura das red pills e sua relação com misoginia e discursos hostis contra mulheres.