Política Nacional · 2026-09-13 · Redação Notícia ES

Dos aplausos ao cadafalso: a militante de redação troca o xerife quando o xerife vira estorvo

Em dezembro de 2024, Eliane Cantanhêde pediu palmas a Alexandre de Moraes, ‘implacável contra golpistas’. Neste domingo, na mesma coluna do Estadão, o mesmo homem é ‘caso perdido’ e a única saída é renunciar à toga. O giro não é mistério. É o método.

Dos aplausos ao cadafalso: a militante de redação troca o xerife quando o xerife vira estorvo
Coluna de Eliane Cantanhêde no Estadão: O triste fim de um ‘xerife’.

No caderno de Política de O Estado de S. Paulo deste domingo, 13 de setembro de 2026, Eliane Cantanhêde ocupa a página A10 com o título “O triste fim de um ‘xerife’”. O texto online, solto na véspera, é ainda mais seco: a única saída para Alexandre de Moraes é renunciar à toga. Ela chama o quadro de caso perdido. Diz que os ministros não podem ignorar “134 milhões de motivos” para investigar o colega. E pergunta, em destaque, qual a pena para quem enlameia a Justiça, se a cabeleireira Débora pegou 14 anos por pintar uma estátua com batom.

Nove meses antes, no mesmo jornal, na mesma coluna, a mesma assinatura escreveu outra coisa. Em 26 de dezembro de 2024, no texto “Quem será o Xandão e o Dino contra abusos e desvios do Judiciário?”, Cantanhêde afirmou que “Alexandre de Moraes é implacável contra golpistas de vários naipes e estrelas” e que Flávio Dino era implacável contra emendas que evaporam. Em seguida: “Palmas para eles.”

O que as duas páginas expõem, lado a lado, não é um capricho de humor. É o ofício da militante de redação: primeiro consagra o instrumento, depois o descarta quando o instrumento suja a mesa.

O que é uma militante de redação

Militante de redação não precisa de ficha de partido na carteira. Precisa de um lado moral permanente e de um personagem útil. O lado quase nunca muda. O personagem muda conforme a conveniência da semana.

No ciclo anterior, Moraes era útil. Servia para nomear o adversário de golpista, para transformar dúvida em crime de lesa-democracia e para transformar rigor seletivo em virtude. “Implacável” era elogio. “Palmas” era a bênção laica da página nobre. Quem questionava o método do ministro saía do debate jurídico e caía no cercadinho dos suspeitos.

Neste domingo o mesmo espaço trata o mesmo homem como peso morto. Contrato com o escritório da família. 51 mensagens de Daniel Vorcaro. Respostas em “visualização única” para não deixar rastro. Risco de “esgarçar sem conserto a credibilidade do Supremo”. Risco de “impactar a eleição presidencial sem retorno”. A militante não pede o devido processo com a mesma fúria com que, antes, pedia o espetáculo. Pede a saída rápida. Renuncie, antes que o plenário seja obrigado a despí-lo.

Essa é a tendência. Enquanto o alvo é o campo contrário, a toga é escudo sagrado. Quando o dono da toga vira passivo eleitoral e institucional, a toga vira fardo e a coluna vira certidão de óbito.

O que a página de domingo escreve, sem firula

Cantanhêde parte da decisão que o Supremo “está prestes a tomar” na terça-feira. O dilema, diz ela, é doído, mas de simplicidade desconcertante: se qualquer cidadão pode ser investigado por suspeita de desvio, por que não o ministro? Se culpado, condenado. Se inocente, inocentado.

O que a Corte não pode fazer é ignorar os 134 milhões de motivos para a apuração. Tentar salvar Moraes, “um caso perdido”, custaria desmoralizar as instituições e ainda mexer na eleição “sem retorno”. Se o plenário for por esse caminho, “vai concluir o desmoronamento do Supremo sem conseguir salvar a pele, a reputação e o destino” do ministro. “Em vez de desmoronar um, desmontaria a Corte com todos dentro.”

Ela escreve que Moraes insiste em se pronunciar na terça e pergunta se tem o que dizer. A resposta dela é não. Não há, no texto, como explicar o valor do contrato com o escritório da família, negar as 51 mensagens de Vorcaro nem o uso da visualização única. “Sabia o que estava fazendo e quais as consequências.”

No miolo do argumento vem a sentença: “A única saída para Alexandre de Moraes é renunciar à toga, antes que seja obrigado a despi-la.” Com isso, segundo a coluna, ele daria trégua à divisão no STF e livraria os pares “do profundo incômodo de ter de defendê-lo sem argumentos.”

O cenário que ela considera mais provável é outro. Moraes sairia “com quatro pedras e mais um rascunho da PF” para puxar André Mendonça “para o seu próprio buraco”. Isso pioraria a situação dele, da Corte e da eleição.

Fachin entra como quem “demorou a engrenar” e agora é saudado por não misturar o caso de Moraes com as críticas processuais a Mendonça na mesma sessão. Mendonça, admite ela, “deve explicações”, inclusive sobre a demora em investigar o escândalo Dark Horse, “que envolve Flávio Bolsonaro e valores iguais aos do contrato do Barci Advogados”. Aí vem a frase de ouro da militância bem-educada: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.”

Fecha com Débora. 14 anos por pintar a estátua. Qual a pena para quem joga lama na Justiça?

O Natal em que o xerife ainda prestava

A coluna de 26 de dezembro de 2024 cobrava penduricalho, vale-peru de desembargador em Mato Grosso, teto furado e venda de sentença. Perguntava quem enfrentaria os desmandos de dentro do Judiciário. No meio da cobrança, Moraes e Dino apareciam como exceção virtuosa. Um contra golpistas “de vários naipes e estrelas”. O outro contra emendas que somem. Palmas para eles. Só então a autora perguntava quem faria o mesmo papel contra a própria toga.

Naquela página, o problema estava nos outros juízes, no Congresso e nos golpistas. Moraes era o remédio. Neste domingo, Moraes é a doença. O jornal não mudou de nome. A coluna não mudou de endereço. Mudou a utilidade do personagem.

A tendência que a caneta revela agora

Olhe o movimento, não o adjetivo.

Primeiro a militante de redação constrói o herói funcional. “Implacável” não descreve um juiz. Descreve uma necessidade política: alguém que aperte o campo adversário sem que a página precise discutir prova, contradiório ou proporcionalidade. Palmas substituem escrutínio.

Depois, quando o herói acumula o que a própria coluna agora lista (contrato, mensagens, rastro apagado, desgaste da Corte, sombra sobre a eleição), a mesma caneta troca o gênero. O xerife vira caso perdido. A investigação que antes era “ataque às instituições” vira dever dos 134 milhões. A renúncia, que seria capitulação se pedida pelo lado de lá, vira gesto de grandeza se pedida da página A10.

A comparação com a cabeleireira só funciona porque o rigor de 14 anos já foi, por muito tempo, tratado nessas mesmas páginas como preço aceitável da democracia. Agora o rigor vira espelho. A militante não abandona a pena dura. Ela só recusa que a pena dura suba o elevador até o gabinete que ela mesma aplaudiu.

Há ainda o detalhe eleitoral, escrito sem pudor. Salvar Moraes poderia “impactar a eleição presidencial sem retorno”. Ou seja: o critério já não é só se houve desvio. É se o desvio atrapalha o calendário. A militante de redação sempre misturou tribunal e urna. Neste domingo ela apenas largou o eufemismo.

Uma coisa é uma coisa

A ressalva sobre Mendonça e o Dark Horse é o manual. Flávio Bolsonaro aparece no mesmo texto, com “valores iguais aos do contrato do Barci Advogados”. A coluna admite que Mendonça deve explicações. Em seguida separa os prontuários. Moraes é terminal. O outro ainda cabe na frase “outra coisa é outra coisa”.

Esse é o truque de sempre. Dois pesos, duas medidas, uma prosa de gente sisuda. O leitor é convidado a achar que houve equilíbrio. O que houve foi triagem: quem ainda serve para o tabuleiro fica sob ressalva; quem virou lastro vai para o epitáfio.

Duas frases, o mesmo ofício

O assinante que leu só o Natal de 2024 saiu com um xerife. O que lê só este domingo sai com um defunto institucional. O que lê os dois sai com o método. A militante de redação não se desmente. Ela atualiza o elenco.

Cantanhêde não precisa ser chamada de outra coisa além do que a própria obra mostra. Em dezembro, palmas ao implacável. Em setembro, pedido para que o implacável tire a toga antes que a toga seja arrancada. Entre uma data e outra, o país inteiro foi treinado a tratar aquele homem como fronteira entre democracia e barbárie. Agora a fronteira pede demissão, em nome da Corte, da eleição e da reputação dos pares que já não têm argumento.

Terça-feira e a frase que já está impressa

A coluna diz que Moraes quer falar na terça e que não tem o que dizer. O fechamento não é um voto. É um recado de redação ao plenário: ou ele sai, ou arrasta Mendonça, suja a eleição e deixa “cicatrizes indeléveis”.

Quem quiser discutir o mérito das 51 mensagens, do contrato familiar ou do Dark Horse vai ter de ir aos autos. Quem quiser entender a militância que habita a página de política no Brasil pode parar nas duas frases. Uma pede palmas. A outra pede a toga no chão.

O xerife não mudou de sobrenome. Mudou o preço de sustentá-lo. E a militante de redação, sob a caneta de Cantanhêde, fez o que essa estirpe sempre faz quando o instrumento quebra: escreveu o obituário com a mesma solenidade com que, nove meses antes, escreveu o hino.

Em resumo

O que Eliane Cantanhêde escreveu sobre Alexandre de Moraes em dezembro de 2024?

Na coluna de 26 de dezembro de 2024, ela chamou Moraes de implacável contra golpistas e pediu palmas para ele e para Flávio Dino.

O que a coluna de domingo pede a Alexandre de Moraes?

Que renuncie à toga antes que seja obrigado a despi-la, chamando o quadro de caso perdido.

Qual é a crítica central desta matéria?

A crítica é ao giro da mesma colunista: primeiro consagra o ministro como instrumento útil e depois o descarta quando ele vira passivo eleitoral e institucional.

A matéria ignora a investigação sobre Moraes?

Não. O texto registra o contrato familiar, as 51 mensagens de Vorcaro e o uso de visualização única, e cobra que o mérito vá aos autos.