Política ES · 2026-11-01 · Redação Notícia ES

Eleição evidenciou a força do voto dos mais velhos, mas há um longo caminho contra o etarismo, diz especialista

Sérgio Serapião analisa o papel decisivo dos idosos na vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro

Eleição evidenciou a força do voto dos mais velhos, mas há um longo caminho contra o etarismo, diz especialista
Eleição evidenciou a força do voto dos mais velhos, mas há um longo caminho contra o etarismo, diz especialista

A eleição presidencial no Brasil se tornou um marco da força política da população mais velha.

O contexto do cenário político

Vídeos com idosos indo às urnas inundaram as redes sociais, e o presidente Lula (PT), no discurso de vitória , reconheceu o papel desses eleitores em sua virada histórica do primeiro para o segundo turno.

A criação de um Ministério do Idoso já está em pauta, e o petista tomará posse aos 81 anos, quebrando o próprio recorde de presidente mais velho da história do país .

Ainda assim, há um longo caminho de combate ao etarismo para que esse momento represente, de fato, "um salto" no debate sobre a longevidade, e não "um voo de galinha".

Informações e repercussões do episódio

A análise é de Sérgio Serapião, 52, empreendedor social que há mais de duas décadas atua no debate e desenvolvimento de soluções para os desafios da longevidade.

Fellow da Ashoka, rede internacional de empreendedorismo social, ele lidera o Fórum & Festival Longevidade, realizado anualmente em São Paulo, que teve sua oitava edição em setembro deste ano no Pavilhão da Bienal, com uma participação estimada de 15 mil pessoas em três dias de programação.

Nesta entrevista à Folha , Serapião analisa o papel desta eleição no debate sobre a longevidade.

Para ter uma ideia do peso que essa população adquiriu nos rumos políticos , de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, os 60+ representam quase 25% do eleitorado brasileiro, passando de 32,9 milhões em 2022 para 37,4 milhões agora.

E o número de eleitores 70+, não obrigados a votar, cresceu 15% em relação a 2022: são quase 17 milhões, mais de 10% do eleitorado.

A participação desses eleitores, acredita Serapião, ajuda a superar a visão de que os idosos estão ligados apenas ao passado. "O voto é uma afirmação de futuro", argumenta.

Que significado as últimas eleições presidenciais tiveram para o debate sobre a longevidade, considerando a mobilização das pessoas mais velhas para votar, o discurso de vitória de Lula prometendo priorizar os idosos e o próprio fato de o presidente reeleito iniciar a nova gestão aos 81 anos?

Parece que foi o começo de um despertar, em que se jogou luz na invisibilidade histórica da população mais velha. Ninguém coloca o foco nos mais velhos, especialmente do ponto de vista cívico.

O nível de participação cívica dessa população é muito baixo. Nos EUA, por exemplo, há uma associação de aposentados com cerca de 38 milhões de membros. Eles têm presença no Congresso, debatem leis.

O movimento Voto 70+, que surgiu neste ano, liderado pelo data8 [polo de pesquisa especializado em longevidade], fez campanha para reverter a alta taxa de abstenção dos eleitores brasileiros a partir dos 70 anos [girava em torno de 60% em 2022].

Eles não são convidados para a festa, então não vão. As pessoas mais velhas, quando falam que têm um plano de trabalho ou para a vida social, costumam ouvir que "já não têm idade para isso".

Assim, o vínculo do idoso acaba sendo com o passado, e não com o futuro. E o voto é uma afirmação de futuro.

Nós demos um salto, mas precisamos dar vários outros para que isso seja persistente, se não vai ser um voo de galinha. Vivemos em uma cultura "jovencêntrica", em que todo mundo fica fingindo que é mais jovem.

Mas, quando você vê, nessas últimas eleições, que quase 25% dos eleitores são 60+, começa a falar: "Opa! Como é que eu estou me esquecendo disso?".

Esse número era ignorado nas pautas e nos programas dos principais candidatos. No segundo turno, a esquerda precisava virar o jogo e começou a chamar os mais velhos para votar.

E as pessoas invisibilizadas, quando são chamadas para a festa, elas vão. Grupos, seja o exército do Janones [deputado federal André Janones, da Rede-MG, que criou no WhatsApp o "Exército do Lula" ] ou vários outros que surgiram, entenderam isso.

A eleição evidenciou que é preciso capturar o eleitor mais velho, a importância desse voto. E o governo reeleito, logo na primeira semana, divulgou a intenção de criar o Ministério do Idoso.

Ainda não é o Ministério da Longevidade, que poderia olhar o tema de uma forma mais ampla, então temos um longo caminho a percorrer. Mas já é algo que demonstra um olhar para os mais velhos.

Por que o novo ministério deveria ser "da longevidade" em vez de "do idoso"? Historicamente, a gente falava de envelhecimento .

E, quando falamos de envelhecimento, normalmente associamos ao que acontece quando o nosso corpo vai ficando mais velho, vai perdendo capacidades.

Então, a pauta do envelhecimento é a que fala de minimizar perdas, da atenção ao cuidado, à saúde. São medidas importantes, mas o prisma mudou, e começamos a falar de longevidade, que não é sinônimo de envelhecimento.

Falar de longevidade engloba entender que o curso da vida se transformou . Não é mais uma sequência linear "jovem-adulto-velho", "estudo-trabalho-aposentadoria".

Ganhamos muitos anos de vida, as tecnologias estão mudando a sociedade, os modelos de família mudaram. Posso começar um relacionamento aos 60, uma nova profissão aos 70.

Olhar para a longevidade é entender isso e pensar em um redesenho dos sistemas, do que é uma vida saudável, uma vida financeiramente equilibrada. Envolve pensar em como manter a empregabilidade ao longo da vida.

O envelhecimento é um problema? Não, o problema é manter nossas estruturas com uma organização ultrapassada. Temos que repensar a moradia, as cidades, a educação, o mercado de trabalho, tudo.

Lula, no discurso da vitória, disse que era preciso olhar para "os velhinhos". Embora ele mesmo tenha 81 anos, o uso desse termo é um problema?

Ainda temos um desafio, uma mudança cultural a ser feita para evitar o idadismo.

Por mais que tenhamos um lado carinhoso nisso, do uso que o brasileiro faz do diminutivo, é preciso cuidado com o termo, porque ele pode levar a uma diminuição daquelas pessoas. Mesmo partindo de alguém de 81 anos.

Lula, por sua vez, também enfrentou o idadismo, com Flávio Bolsonaro (PL) zombando, no debate, de sua dicção e de que o petista não estaria escutando direito.

Depois do que aconteceu com o Biden [em 2024, o presidente dos EUA, aos 81, foi pressionado a abrir mão da candidatura à reeleição por ser considerado velho], Lula incorporou ações preventivas nesse sentido, como o vídeo em que aparece correndo, para construir uma imagem juvenil.

Então, quando o Lula corre, dizemos que parece um jovem, que tem espírito jovem.

Por que não considerar que ele é um idoso de 81 anos que está bem preparado, conseguindo correr e tocando uma campanha eleitoral dessa forma?

É algo incrível mesmo, mas não precisamos dizer que ele parece mais novo por isso.

Em resumo

O que aconteceu?

A eleição presidencial no Brasil se tornou um marco da força política da população mais velha. Vídeos com idosos indo às urnas inundaram as redes sociais, e o presidente Lula (PT), no discurso de vitória , reconheceu o papel desses eleitores em sua virada histórica do primeiro para o segundo turno.

Qual é o ponto principal?

A criação de um Ministério do Idoso já está em pauta, e o petista tomará posse aos 81 anos, quebrando o próprio recorde de presidente mais velho da história do país . Ainda assim, há um longo caminho de combate ao etarismo para que esse momento represente, de fato, "um salto" no debate sobre a longevidade, e não "um voo de galinha".

Quais são os dados mais importantes?

A análise é de Sérgio Serapião, 52, empreendedor social que há mais de duas décadas atua no debate e desenvolvimento de soluções para os desafios da longevidade.

Qual é o contexto?

Nesta entrevista à Folha , Serapião analisa o papel desta eleição no debate sobre a longevidade. Para ter uma ideia do peso que essa população adquiriu nos rumos políticos , de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, os 60+ representam quase 25% do eleitorado brasileiro, passando de 32,9 milhões em 2022 para 37,4 milhões agora.

Quais são os próximos desdobramentos?

A participação desses eleitores, acredita Serapião, ajuda a superar a visão de que os idosos estão ligados apenas ao passado. "O voto é uma afirmação de futuro", argumenta.

Fontes