Eleição nos EUA: vitória democrata não deve aliviar pressão de Trump sobre Brasil, avaliam analistas
Novo Congresso de maioria democrata aumentará obstáculos à agenda interna do presidente, mas não tem mecanismos institucionais para barrar tarifas, sanções e medidas contra outros países.

Se o governo do presidente republicano dos Estados Unidos, Donald Trump, deverá encontrar obstáculos institucionais mais robustos para prosseguir com sua agenda interna agora, a vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato , as midterms , confirmada pelas apurações das urnas, não mudará a postura da Casa Branca atual em relação ao Brasil.
O contexto do cenário político
Para analistas ouvidos pela BBC News Brasil, a mudança na correlação de forças da política americana manterá intactas as tarifas impostas por Trump aos produtores nacionais, as pressões para que o país se afaste da China ( principal parceiro comercial brasileiro desde 2009 ) e se reaproxime da esfera de influência americana, e a classificação das duas maiores facções criminosas — o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) — como organizações terroristas, que abriu uma brecha para incursões militares dos EUA em território nacional.
"O Congresso mais democrata até modifica a capacidade de interlocução com o Itamaraty, mas ele não terá condições de mexer na política comercial de Trump, justamente onde estão as implicações mais fortes sobre a relação entre Washington e Brasília hoje", avalia o economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre 2007 e 2009, e ex-diretor do Banco Mundial entre as décadas de 2000 e 2010.
Embora nem todos os Estados tenham terminado de apurar suas urnas, os dados disponíveis já apontam que os democratas voltarão a controlar a Câmara dos Representantes — com 237 parlamentares contra 139 do lado republicano, até agora — e do Senado, com 54 cadeiras contra 44 do partido de Trump.
Informações e repercussões do episódio
Neste caso ainda falta a definição no Mississippi e no Alasca, onde a democrata Mary Peltola disputa voto a voto com o republicano Dan Sullivan. Até a noite desta quarta, 77% das seções já tinham sido apuradas, com uma diferença de 625 votos em favor da candidata.
Esses resultados mudarão a composição do Congresso a partir de 3 de janeiro de 2027. Hoje, os republicanos têm a maioria do Senado (possuem 53 cadeiras contra 49 dos democratas) e da Câmara (220 contra 215).
Era ela que vinha permitindo que Trump governasse o país sem grandes constrangimentos políticos.
Canuto observa que a relação entre o parlamento dos EUA e a Casa Branca deve ficar mais conflituosa a partir do ano que vem, mas que a falta de competências institucionais do próprio Congresso, que não interfere na política externa, manterá as pressões de Trump sobre o Brasil, assim como sobre outros países.
"Vão ter mais pedidos de esclarecimentos — em um primeiro momento, inclusive, sobre a presença de Flávio Bolsonaro na Flórida —, ou alguns projetos de lei contrários à agenda do Executivo e até algumas pressões aqui e acolá, mas nada que afete as tarifas, por exemplo, que são elementos mais sérios para nós", diz ele, que também é professor da Elliott School of International Affairs da George Washington University, na capital norte-americana.
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Lucas Leite, que leciona na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), também é reticente.
Na avaliação dele, se o governo Lula, que acabou de ser reeleito, tende a ganhar mais interlocução no Congresso democrata, sobretudo em temas onde o mandato petista tem afinidade com nomes do partido, como o caso do meio ambiente, isso não será suficiente para mudar a forma como Trump administra sua política externa.
"Ele até terá mais empecilhos, especialmente na América Latina, mas a vitória democrata nas urnas não anula a agenda trumpista", observa.
Na visão dele, isso acontecerá não só porque as ferramentas que o presidente tem usado para criar pressões fogem da esfera de atuação do Capitólio, a sede do Legislativo americano, mas porque o Brasil não será uma prioridade dos parlamentares eleitos.
Eles devem agir, antes, para formar uma oposição mais robusta às políticas internas de Trump, sobretudo a de deportações, protagonizada pela agência federal de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês).
"É muito possível que as comissões de Relações Exteriores das duas Casas passem a ser presididas por democratas, e que isso levará a mais pedidos de esclarecimentos ao Departamento de Estado, por exemplo", conjectura Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
"Esse será o contraste mais evidente no novo jogo de forças", continua.
O departamento de Estado é administrado por Marco Rubio, que encabeçou algumas das ações mais agressivas dos EUA na América Latina nos últimos meses, como a prisão de Nicolas Maduro, após uma incursão militar na Venezuela, em janeiro, e o embargo energético a Cuba.
Em resumo
Se o governo do presidente republicano dos Estados Unidos, Donald Trump, deverá encontrar obstáculos institucionais mais robustos para prosseguir com sua agenda interna agora, a vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato , as midterms , confirmada pelas apurações das urnas, não mudará a postura da Casa Branca atual em relação ao Brasil.
Para analistas ouvidos pela BBC News Brasil, a mudança na correlação de forças da política americana manterá intactas as tarifas impostas por Trump aos produtores nacionais, as pressões para que o país se afaste da China ( principal parceiro comercial brasileiro desde 2009 ) e se reaproxime da esfera de influência americana, e a classificação das duas maiores facções criminosas — o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) — como organizações terroristas, que abriu uma brecha para incursões militares dos EUA em território nacional.
"O Congresso mais democrata até modifica a capacidade de interlocução com o Itamaraty, mas ele não terá condições de mexer na política comercial de Trump, justamente onde estão as implicações mais fortes sobre a relação entre Washington e Brasília hoje", avalia o economista Otaviano Canuto, ex-vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre 2007 e 2009, e ex-diretor do Banco Mundial entre as décadas de 2000 e 2010.
Embora nem todos os Estados tenham terminado de apurar suas urnas, os dados disponíveis já apontam que os democratas voltarão a controlar a Câmara dos Representantes — com 237 parlamentares contra 139 do lado republicano, até agora — e do Senado, com 54 cadeiras contra 44 do partido de Trump.
Neste caso ainda falta a definição no Mississippi e no Alasca, onde a democrata Mary Peltola disputa voto a voto com o republicano Dan Sullivan. Até a noite desta quarta, 77% das seções já tinham sido apuradas, com uma diferença de 625 votos em favor da candidata.