Empresa de ex-sócios de Sidônio lidera gastos de Lula
Delta3 Comunicação aparece como principal fornecedora da campanha presidencial de Lula, com R$ 31 milhões registrados para serviços de comunicação e marketing.

A campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva registrou R$ 31 milhões em despesas com a Delta3 Comunicação e Projetos, empresa de Francisco Kertész e Raul Rabelo. Os dois empresários foram sócios do ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, até o fim de 2025.
A Revista Oeste atualizou o valor nesta quinta-feira, 15 de outubro, ao informar que a campanha já declarava R$ 100 milhões em gastos. Em setembro, o g1 havia identificado o mesmo contrato no sistema DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral, e esclarecido que o valor se referia à contratação ao longo da campanha, sem indicar que toda a quantia já havia sido efetivamente paga.
Contrato concentra despesas eleitorais
A Delta3 foi aberta em 1º de dezembro de 2025 e atua em publicidade, produção audiovisual, marketing e comunicação. Registros cadastrais consultados por veículos de imprensa apontam Kertész como sócio-administrador e Rabelo como sócio da empresa.
Antes da criação da Delta3, ambos integravam a Nordx Estratégia e Criatividade ao lado de Sidônio. O ministro detinha 40% da sociedade e transferiu suas cotas por R$ 960 mil em dezembro de 2025. A Nordx havia operado anteriormente com o nome M4 Comunicação e Propaganda e participou da campanha de Lula em 2022.
O valor de R$ 31 milhões já chamava atenção antes do primeiro turno. Em levantamento publicado em 17 de setembro, o g1 informou que o contrato representava 47% dos R$ 65 milhões então declarados pelo candidato. A assessoria de Lula disse na ocasião que a cifra abrangia serviços previstos para toda a campanha e que o pagamento não havia sido concluído integralmente.
Essa diferença importa para a precisão do relato. Despesa contratada, despesa registrada e valor efetivamente quitado não são expressões equivalentes. A prestação de contas eleitoral permite acompanhar fornecedores e pagamentos, mas os números precisam ser lidos com a data de atualização e a natureza de cada lançamento.
O fato objetivo é que a Delta3 ocupa a primeira posição entre os fornecedores informados pela campanha. A ligação empresarial anterior de seus donos com o ministro da comunicação não torna o contrato ilegal por si só, mas cria interesse público legítimo sobre seleção, escopo, preços e execução dos serviços.
Critério deve valer sempre
O enquadramento dado pelos veículos também merece atenção. A Revista Oeste destacou no título a relação dos fornecedores com Sidônio. O g1 apresentou o contrato dentro de uma comparação mais ampla dos gastos dos presidenciáveis, mas registrou no texto a sociedade anterior e a participação do ministro na campanha.
Os dois recortes trazem partes relevantes. A comparação entre candidatos ajuda a dimensionar despesas; a identificação dos vínculos ajuda o eleitor a avaliar possíveis conflitos. O jornalismo perde informação quando apresenta apenas o número sem os relacionamentos ou apenas o relacionamento sem explicar que o registro eleitoral não prova favorecimento.
A mesma régua deve alcançar fornecedores ligados a antigos assessores, ministros ou dirigentes de qualquer campanha. Se um contrato dessa dimensão envolvesse ex-sócios de uma autoridade de governo de direita, a conexão seria notícia legítima; o critério não pode mudar quando o vínculo está no campo político oposto.
A fiscalização efetiva depende de dados atualizados do TSE, notas fiscais, descrição das entregas e manifestação dos envolvidos. Até que surja prova de irregularidade, a informação correta é que a campanha declarou o gasto, a Delta3 lidera a lista de fornecedores e seus sócios mantiveram sociedade anterior com Sidônio, que já não integra a empresa.
Em resumo
A Delta3 Comunicação e Projetos aparece como principal fornecedora, com R$ 31 milhões registrados para serviços de comunicação e marketing.
A empresa pertence a Francisco Kertész e Raul Rabelo, que foram sócios de Sidônio Palmeira na Nordx.
Não. Sidônio transferiu suas cotas da Nordx em dezembro de 2025, antes da campanha eleitoral de 2026.
A campanha registrou o contrato nesse valor, mas informou anteriormente que a quantia abrangia serviços de toda a campanha e ainda não havia sido integralmente paga.
Não. O vínculo justifica transparência e fiscalização, mas não demonstra favorecimento ou ilegalidade sem provas adicionais.