Escolas cristãs reabrem na Síria após décadas fechadas pela guerra
Unidades franciscanas em Knaye e Yacoubieh voltam a receber alunos, empregam moradores e planejam ampliar de 80 para quase 300 estudantes.

Duas escolas cristãs voltaram a funcionar nas aldeias sírias de Knaye e Yacoubieh, na província de Idlib, após quase seis décadas de interrupções, desapropriação e guerra. As unidades Terra Santa, administradas por frades franciscanos da Custódia da Terra Santa, foram inauguradas no domingo (20) diante de autoridades civis e religiosas. A reabertura foi anunciada nesta terça-feira (22) e já reúne 80 alunos.
O projeto divide o ciclo escolar entre os dois prédios. Yacoubieh recebe crianças de três a dez anos, enquanto Knaye atende estudantes de dez a dezessete. Os responsáveis planejam ampliar a capacidade para quase 300 alunos quando a restauração estiver concluída, previsão apontada para o próximo ano. As vagas não serão limitadas às famílias cristãs: a proposta divulgada pelos franciscanos inclui também crianças muçulmanas das comunidades vizinhas.
A história das unidades acompanha as rupturas políticas da região. Segundo o padre Khukaz Mesrob, pároco de Knaye, os franciscanos abriram a escola local em 1958, mas perderam o controle do edifício em 1972. Décadas depois, durante a guerra, o prédio serviu como abrigo para pessoas deslocadas. A saída dos últimos refugiados, após a mudança de governo na Síria, permitiu acelerar a recuperação física das instalações.
Mesrob coordenou o trabalho com o padre Luai Bisharat, pároco de Yacoubieh. Com apoio da organização Pro Terra Sancta, da Custódia, de associações religiosas e de trabalhadores locais, cerca de 80% das obras foram concluídas. O percentual informado indica que a inauguração marca o retorno das aulas, mas não encerra a reconstrução: ainda há serviços a executar e capacidade a recuperar.
Obra levou renda a famílias e trouxe professores de volta
A recuperação movimentou a economia das aldeias. Quase cem pessoas trabalharam como eletricistas, carpinteiros, pintores, artistas e auxiliares de construção, segundo o relato dos responsáveis. Em comunidades pequenas, cada contratação alcança uma família inteira. O efeito econômico é relevante num país que enfrenta infraestrutura danificada, deslocamento populacional e escassez de oportunidades depois de anos de conflito.
As escolas contam agora com 25 professores de disciplinas como inglês, matemática, química e biologia. Muitos são jovens formados que retornaram à região. O quadro docente, portanto, representa uma segunda dimensão do projeto: não se trata apenas de restaurar salas, mas de criar motivo concreto para profissionais permanecerem nas aldeias e reconstruírem vínculos comunitários.
O bispo Hanna Jallouf, vigário apostólico de Aleppo dos latinos, apresentou a educação como base para a reconstrução do país. Sua avaliação parte da experiência de uma geração formada sob a violência. Crianças e adolescentes precisam recuperar rotina, aprendizagem e convivência para que a guerra não continue determinando suas perspectivas mesmo depois do recuo dos combates.
Escolas abertas a cristãos e muçulmanos
Os franciscanos destacam que a identidade cristã das instituições não significa fechamento religioso. A meta é receber estudantes muçulmanos e trabalhar valores de respeito, caridade e cuidado com o próximo. Mesrob contou ter reencontrado um imã que havia estudado na escola antes do fechamento; o pai do próprio padre fora professor de inglês daquele aluno. A memória mostra que a convivência entre comunidades já fazia parte da história local.
Na cerimônia de reabertura, líderes cristãos, muçulmanos, representantes governamentais e diplomáticos estiveram reunidos. O encontro não apaga divergências nem resolve as tensões do país, mas oferece um espaço institucional para que crianças de famílias diferentes convivam em torno do mesmo currículo. Em uma região marcada por deslocamentos e mudanças de controle, essa dimensão exige acompanhamento contínuo.
O contexto educacional sírio permanece grave. Reportagens da Associated Press registraram escolas saqueadas ou danificadas e milhões de crianças fora das salas de aula. A Reuters também mostrou que o novo ano letivo envolve disputas sobre idioma e currículo em áreas curdas reintegradas ao Estado. As dificuldades variam entre regiões, mas apontam para o mesmo desafio: reabrir prédios não basta sem professores, material, segurança e reconhecimento das comunidades atendidas.
Próximos passos incluem completar a restauração
O passo imediato será concluir os 20% restantes das obras e elevar gradualmente o número de matrículas. A expansão precisará demonstrar que as unidades podem atender quase 300 estudantes com salas, docentes e recursos adequados. Também será necessário preservar o acesso de diferentes grupos religiosos, elemento apresentado pelos responsáveis como parte central da missão franciscana.
Hoje, cerca de duzentas famílias vivem em Knaye, Yacoubieh e nas aldeias próximas, número que, segundo os frades, dobrou em relação ao período mais duro da guerra. A reabertura das escolas serve, por isso, como indicador do retorno populacional. Famílias tendem a permanecer quando encontram educação para os filhos e trabalho para os adultos.
O resultado de longo prazo dependerá da estabilidade política, da continuidade do financiamento e da capacidade de manter os professores. A inauguração é um avanço verificável, mas ainda inicial. As escolas retomaram o ensino, geraram renda e abriram espaço para convivência entre cristãos e muçulmanos; agora precisarão transformar essa retomada em funcionamento regular durante todo o calendário letivo.
Em resumo
Elas ficam nas aldeias de Knaye e Yacoubieh, na província de Idlib, no noroeste da Síria.
As escolas Terra Santa são conduzidas por frades franciscanos da Custódia da Terra Santa.
As duas unidades têm atualmente 80 estudantes e projetam chegar a quase 300 após a conclusão das obras.
Não. Os responsáveis afirmam que as vagas também serão abertas a famílias muçulmanas da região.
A obra empregou quase cem moradores em diferentes ofícios e as escolas contam com 25 professores.
Concluir os 20% restantes da recuperação e ampliar gradualmente a capacidade durante o próximo ano.