Estadão descobre a desobediência civil. Só esqueceu quem já pagou o preço de dizer não
Jornal que batizou o 8 de Janeiro de golpe agora cita Thoreau, Gandhi e Arendt para ensinar que o cidadão pode recusar o Estado. O texto não cita um nome brasileiro do lado que o próprio jornal ajudou a criminalizar

No dia 14 de setembro de 2026, o Estadão publicou no Espaço Aberto o artigo “Desobediência civil”, assinado pelo economista José Guimarães Monforte. O texto defende que a desobediência civil faz parte da democracia quando a autoridade se afasta dos princípios que deveria proteger. Diz que obedecer cegamente não é virtude. Diz que o cidadão deve fidelidade primeiro a valores éticos e só depois às ordens do poder. Cita Henry David Thoreau, Mahatma Gandhi e Hannah Arendt. Fecha com a fórmula “cidadão acima do Estado” e “convicção acima de conveniência”.
A pergunta que o colunista coloca no centro é antiga e, em abstrato, correta: a que princípios devemos permanecer obedientes? O problema não está na frase. Está no silêncio que a cerca. Em setembro de 2026, no Brasil concreto, essa pergunta já tem endereço, processo, prisão, tornozeleira, multa e conta bloqueada. O artigo não aponta nenhum.
O que o texto diz, palavra por palavra
Monforte abre com a tese de que indignar-se não basta. A democracia, escreve, não se sustenta só em leis, eleições e instituições formais. Depende de o poder reconhecer limites e o cidadão assumir responsabilidade. Quando as instituições deixam de servir ao interesse público e os mecanismos de correção parecem insuficientes, surge a pergunta sobre o dever de obediência.
Thoreau recusou impostos a um governo que considerava imoral. Gandhi transformou a recusa em instrumento coletivo sem copiar a violência do Estado. Arendt acrescentou o ponto decisivo: a desobediência civil ganha sentido político quando cidadãos se organizam em público, de forma aberta e não violenta, contra decisões incompatíveis com os princípios da comunidade. Nessas circunstâncias, diz o artigo, desobedecer pode ser defesa da democracia, não ameaça a ela.
Há um parágrafo de ressalva. O autor distingue desobediência de desordem. A primeira seria pública, consciente, responsável e sem violência. Não buscaria destruir instituições, e sim obrigá-las a reencontrar a finalidade. E avisa: quando cada grupo só considera legítimo desobedecer com o adversário no poder, o que existe não é cidadania. É conveniência.
Essa ressalva é o ponto mais honesto do texto. Também é o ponto que o próprio jornal, na prática editorial dos últimos anos, não aplicou a si.
Quem assina e de onde fala
José Guimarães Monforte não é militante de rua. É economista formado pela Universidade Católica de Santos, sócio de consultoria, passagem por conselhos de Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil, JBS, Natura, Vivo, Sabesp, CCR e outras grandes empresas. Presidiu o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa. Fundou gestora de patrimônio. O Estadão o apresenta como “economista, foi membro de conselhos de grandes empresas”.
Nada disso anula o direito de opinar. Anula a pose de outsider moral. O artigo fala em cidadão acima do Estado a partir de um lugar confortável no mercado e na governança corporativa. Não fala a partir da cela, do acampamento, da audiência de custódia ou da tornozeleira. O tom é de ensaio de seminário. O país ao redor, não.
O que o mesmo jornal escreveu quando o alvo era outro
O mesmo Estadão, na seção de opinião institucional e em colunas assinadas, tratou o 8 de Janeiro de 2023 como tentativa de golpe, espírito golpista e agressão que não admite minimização. Em editorial de janeiro de 2025, o jornal escreveu que minimizar o ataque às sedes dos Três Poderes “é parte do mais puro espírito golpista”. Chamou os envolvidos de “falsos patriotas” e disse que o desrespeito às instituições é o ânimo putschista.
Em janeiro de 2026, na cobertura dos três anos do episódio, a reportagem do jornal abriu chamando os fatos de “atos golpistas”. A linha se repetiu no Estadão Verifica, que classificou como falsa a tese de infiltrados e atribuiu a depredação a apoiadores de Jair Bolsonaro que não aceitaram o resultado de 2022.
Colunistas do próprio grupo reforçaram a tese de crime de multidão e de punição exemplar. O Supremo condenou centenas sob os tipos de tentativa de golpe, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano e associação. Parte das penas caiu sobre gente que estava na Esplanada, filmou, gritou ou entrou no prédio, sem prova individual de comando armado. O jornal, no conjunto, sustentou o enquadramento.
Agora o mesmo veículo abre espaço para um ensaio que ensina: instituições que abusam devem ser confrontadas; quando os meios normais falham, a sociedade não perde o direito de agir; silenciar também é uma escolha; em certos momentos a cidadania exige a coragem de dizer não.
A pergunta óbvia não aparece no texto. Se desobediência civil é defesa da democracia quando o poder se desvia, o que foi a recusa de aceitar inquéritos eternos, censura de redes, bloqueio de contas, prisão de deputado, jornalista e apoiador sem o rito ordinário do júri e da primeira instância? O artigo não formula a pergunta. Não porque ela seja difícil. Porque formulá-la obrigaria o jornal a olhar no espelho.
O tratamento desigual dos verbos
O critério do jornalismo brasileiro recente é simples de medir. Quando a esquerda ocupa fazenda, bloqueia estrada, invade prédio público ou chama isso de luta, o verbo costuma ser “manifestar”, “pressionar”, “ocupar”. Quando a direita acampa em quartel, sobe a rampa ou grita “intervenção”, o verbo vira “golpear”, “abolir”, “associar-se para o crime”.
O artigo de Monforte tenta parecer acima desse jogo. Fala em liberdade, impessoalidade, limites ao poder, dignidade humana e responsabilidade institucional. Princípios que, escritos assim, qualquer republicano assina. O teste não é assinar o princípio. O teste é aplicá-lo no caso que dói.
Thoreau recusou imposto porque o governo americano sustentava escravidão e uma guerra que ele considerava injusta. Gandhi enfrentou Império. Arendt escreveu depois do totalitarismo e da banalidade da obediência. Nenhum dos três é figurinha de vitrine para legitimar o próprio campo e condenar o campo vizinho. O uso seletivo desses nomes é o truque antigo da grande imprensa: emprestar autoridade moral clássica a uma tese contemporânea sem pagar o custo de apontar o abuso concreto do próprio tempo.
Se o Estadão levasse Arendt a sério, o foco não seria só a turba da Praça. Seria também o hábito de tratar ordem judicial excepcional como rotina, inquérito como destino e desobediência de um lado como patriotismo filosófico e do outro como patologia.
O que o texto esconde ao ficar no universal
Monforte escreve que governos, autoridades e maiorias são transitórios, e que os princípios da convivência republicana precisam estar acima da conveniência do momento. Correto. Em 2026, a autoridade que menos se apresenta como transitória no Brasil não é o presidente da República. É o núcleo do Supremo que concentrou inquérito, instrução, julgamento e execução em matéria política, com repercussão direta sobre fala, mandato, patrimônio e liberdade.
O artigo menciona um livro brasileiro, Desobediência Civil Organizada, de Vagner Gimenez Borin, e elogia a ideia de cidadania organizada contra explosões de indignação. Outra frase correta. Organização sem princípio degenera, diz o colunista. Ação sem responsabilidade pode destruir o que pretendia proteger. Também correto.
Falta o parágrafo seguinte. Quem organizou recusa pacífica a um Supremo hiperativo foi tratado, na cobertura dominante, como milícia digital, ameaça à urna e inimigo da democracia. Quem organizou ocupação de terra, greve de rua e pressão sobre o Congresso recebeu, com frequência, a moldura de movimento social. A filosofia do artigo pede o mesmo critério para os dois lados. A prática do jornal, não.
Conveniência: a palavra que o autor usou e o jornal não aplica
O trecho mais útil do texto é este: desobediência só tem legitimidade democrática quando ligada a princípios que aceitamos também quando nos desfavorecem.
Aplique a frase ao próprio Estadão.
Quando o alvo era o bolsonarismo, o jornal não pediu desobediência civil. Pediu punição, teses penais novas, vigilância de redes e recusa a qualquer anistia ampla. Quando o alvo possível passa a ser o excesso do Estado, o jornal publica um ensaio erudito sobre Thoreau. Sem nomes. Sem processos. Sem as penas já aplicadas. Sem as mães e avós que o editorial de 2025 ironizou. Sem os mandatos cassados. Sem o cerco a parlamentares. Sem o preço pago por quem disse não antes de o Estadão achar o tema elegante.
Isso tem nome. É conveniência com verniz de filosofia.
Não é preciso negar o vandalismo do 8 de Janeiro para ver o problema. Quebrar relógio, pichar estátua e invadir plenário é crime de dano e desordem. Pode e deve ser apurado na Justiça comum, com prova de conduta, pena proporcional e direito de defesa. Transformar presença na Esplanada em golpe de Estado e, ao mesmo tempo, reservar Gandhi para um artigo de setembro de 2026 é operação intelectual, não rigor.
O interesse que não aparece no expediente
O Estadão não é um seminário de teoria política. É empresa de mídia, com linha editorial, anunciante, acesso a fonte de Palácio e de tribunal, e um produto de verificação que já escolheu lado na disputa de narrativa sobre 2023. Abrir o Espaço Aberto para um texto genérico sobre desobediência, no clima de 2026, funciona como válvula. Aplaca o leitor que já não engole a tese de que toda recusa ao sistema é golpismo. Não obriga o jornal a rever os editoriais que chamaram de putschista quem pedia limite ao Supremo.
Monforte tem biografia de conselheiro de estatais e de empresas que convivem com o Estado. Falar em “recolocar o Estado no seu lugar” sem nomear o lugar atual do STF no Brasil é discurso de governança. Soa bem. Não custa processo.
O critério que deveria valer para os dois lados
Desobediência civil, no sentido clássico, é pública, assumida, sem arma e disposta a pagar a pena da lei injusta para denunciá-la. Thoreau passou a noite na cadeia. Gandhi foi preso vezes demais para contar. King escreveu da cadeia de Birmingham. Nenhum deles pediu anistia no mesmo parágrafo em que pedia glória.
Se o princípio vale, vale contra ocupação criminosa de fazenda produtiva, contra quebra-quebra em Brasília e contra decreto judicial que transforma opinião em inquérito permanente. Vale quando o governo é de esquerda e quando é de direita. Vale quando o ministro é popular na redação e quando não é.
O Estadão acertou ao escrever que silenciar também é escolha. Errou ao silenciar o nome do poder que, no Brasil de agora, mais exige submissão em nome da democracia. Errou ao descobrir Thoreau depois de ter usado anos para transformar o “não” de metade do país em diagnóstico policial.
Cidadão acima do Estado só é frase republicana se o cidadão do outro lado da urna continuar cidadão. Se vira súdito quando discorda do jornal, o que sobra não é Arendt. É catecismo.
A democracia brasileira não precisa de mais um ensaio sobre a coragem de dizer não. Precisa de um jornal que aplique a mesma frase ao Supremo, ao Planalto, ao MST e ao 8 de Janeiro. Sem troca de verbo. Sem troca de santo. Sem esperar o calendário eleitoral para redescobrir a consciência.
Indignar-se não basta, escreveu o colunista. Concordamos. Falta o Estadão se indignar com a própria assimetria.
Em resumo
O editorial acusa o jornal de defender a desobediência civil em termos abstratos sem aplicar o mesmo princípio aos brasileiros ligados à direita que foram criminalizados e punidos por confrontar o Estado.
O artigo foi assinado pelo economista José Guimarães Monforte e publicado no Espaço Aberto do Estadão em 14 de setembro de 2026.
O texto menciona Henry David Thoreau, Mahatma Gandhi e Hannah Arendt como referências sobre desobediência civil e limites à obediência ao Estado.
Sustenta que a imprensa costuma usar verbos mais brandos para atos da esquerda e enquadramentos penais mais severos para manifestações da direita.
Defende um critério público, não violento e coerente, aplicado igualmente ao Supremo, ao Planalto, ao MST e aos acontecimentos de 8 de Janeiro.