Estadão transforma R$ 750 mil numa cadeia de contratos no “abastecimento” do filme de Bolsonaro
PF aponta repasse de empresa ligada a projeto de emenda para a produtora de “Dark Horse”. Jornal trata a suspeita como fato consumado e esquece o outro lado da conta pública.

Nesta quinta-feira, 10 de setembro de 2026, a Polícia Federal deflagrou operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, do STF, com 49 mandados de busca contra o deputado federal Mario Frias (PL-SP), a empresária Karina Ferreira da Gama e entidades ligadas a ela. O Estadão estampou: a PF “diz que ao menos R$ 750 mil de recursos públicos abasteceram produtora de filme sobre Bolsonaro”. A reportagem, no Blog do Fausto Macedo, amarra emendas, um instituto e a Go Up Entertainment, dona de “Dark Horse”.
O fato bruto existe. A leitura que o jornal faz dele é outra história.
O que a PF realmente descreveu
Segundo o recorte reproduzido pelo Estadão, o Instituto Conhecer Brasil (ICB), de Karina Gama, recebeu R$ 2 milhões em emendas de Frias e tem contrato com a Prefeitura de São Paulo. O ICB teria pago cerca de R$ 700 mil a duas editoras do mesmo grupo empresarial (Dinâmica Editora e Instituto Super Poder Educacional). No mesmo período, a NTT Brasil, de Heric Dias, enviou R$ 750 mil à Go Up Entertainment. A PF destaca a proximidade dos valores e o fato de o objeto do termo de fomento só ter tentativas de execução em 2026, depois das transferências.
Isso é uma cadeia. Não é um comprovante de que o Tesouro pagou o set, o elenco ou a pós-produção de “Dark Horse”.
A Go Up é da mesma dona do ICB. Frias é produtor executivo do filme e transferiu, em conta própria, R$ 645,4 mil à produtora. Outros remetentes no período de gravação incluem câmbio, assessoria cultural e o publicitário Marcello Lopes, com R$ 1 milhão. Nada disso, por si, prova desvio da emenda para o longa. Prova que a PF quer olhar o rastro. Olhar o rastro é o trabalho da polícia. Transformar o rastro em manchete de “abastecimento do filme” é o trabalho do jornal.
Em maio, Frias já havia dito ao STF que a afirmação de destinação das emendas a “qualquer produção cinematográfica” era “absolutamente falsa, desprovida de qualquer lastro probatório e difamatória”.
A defesa existe. O Estadão prefere o verbo da PF.
Há um segundo fio, mais concreto e menos cinematográfico: o projeto educacional financiado com emenda. Relatos de auditoria descrevem curso online pago na casa dos R$ 300 mil, site registrado depois do fim do convênio, videoaulas publicadas meses depois e visualizações ridículas (aulas sem um único acesso). Se o serviço não foi prestado, isso é problema de emenda, de prestação de contas e, se comprovado, de peculato. Vale para Frias. Vale para qualquer parlamentar que tenha feito o mesmo com ONG amiga.

O que o Estadão fez com o fato
Título: “PF diz que ao menos R$ 750 mil de recursos públicos abasteceram produtora de filme sobre Bolsonaro”. Data: 10 de setembro de 2026. O gancho é o filme. Não é “PF investiga execução atrasada de projeto educacional financiado por emenda”. Não é “ONG da mesma dona da produtora movimentou dezenas de milhões e pagou empresas do mesmo grupo”. O filme é o produto. O resto é cenário.
O jornal cita o ICB como “principal entidade captadora”, menciona R$ 83 milhões movimentados entre setembro de 2023 e agosto de 2024 e sugere devolução a pessoas ligadas a Frias. Tudo isso pode ser grave. Continua sendo o mercado de emendas e de contratos com prefeitura, um mercado que não nasceu em 2025 e não é monopólio do PL.
A operação de hoje, a chamada Make Up, está sob Dino e mira emendas. É distinta do inquérito de André Mendonça sobre os aportes de Daniel Vorcaro via fundo nos Estados Unidos. Misturar os dois no mesmo fôlego ajuda o leitor a achar que “o filme do Bolsonaro” é um só poço de dinheiro sujo. Ajuda o jornal. Não ajuda o fato.
O caso espelho que a capa não cabe
Enquanto R$ 750 mil numa sequência de pessoas jurídicas vira operação nacional na semana eleitoral, o Fundo Setorial do Audiovisual e a Ancine seguem como torneira ordinária do cinema que o governo gosta.
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura, recebeu R$ 7,5 milhões do FSA em chamada pública do governo Lula. O orçamento total passou de R$ 27 milhões. Não houve 49 mandados porque a dona da produtora também tinha uma ONG. Houve nota de cultura e tapete vermelho.
Em 2025 o Ministério da Cultura celebrou R$ 1,41 bilhão desembolsado no audiovisual, recorde da série, 1.556 projetos em execução com recurso público. Isso é política de Estado. Quando o filme chama Bolsonaro de protagonista, R$ 750 mil inferidos viram “abastecimento”. Quando o filme fala a língua do Planalto, o mesmo Estado chama de fomento.
Há histórico. “Marighella” e outros longas alinhados passaram por editais e leis de incentivo sem virar “organização criminosa” na capa do Estadão no dia do mandado. Emendas Pix para cultura, educação e “cidadania” existem à esquerda e à direita. A UOL, em 2025, já havia mapeado R$ 2,6 milhões de deputados do PL para série documental da Academia Nacional de Cultura, a mesma sigla que agora reaparece no alvo. O problema das emendas opacas não começou ontem. A seletividade da capa, sim.
A perícia privada apresentada pela defesa de Karina Gama, ainda no inquérito paulista do Wi-Fi, afirmou custo de cerca de R$ 75 milhões para “Dark Horse” e origem no fundo Havengate, nos Estados Unidos. A PF pode desconfiar do laudo. O jornal pode cobrar o laudo. O que o jornal não pode é tratar a desconfiança como sentença e fingir que o cinema brasileiro só usa dinheiro público quando o personagem é Jair Bolsonaro.
Quem ganha com o enquadramento
Fausto Macedo e o Estadão operam o batente jurídico-político que, neste ciclo, amplifica cada passo da PF e do STF contra o círculo de Bolsonaro. Flávio Bolsonaro é pré-candidato. O filme virou ativo de campanha e, ao mesmo tempo, ativo de desgaste. Uma operação de Dino na quinta, com foto de mandado e número redondo (R$ 750 mil), entra no horário nobre das redes com o verbo certo: abasteceram, rastreou, mesma dona.
O interesse é documentável no padrão de pauta, não num e-mail secreto. O mesmo veículo não dedica a mesma temperatura a cada emenda de ONG petista, a cada contrato cultural com artista de palanque, a cada edital da Ancine cujo resultado político é previsível. A régua mede o filme. Não mede o sistema.
Karina Gama acumula ICB, Academia Nacional de Cultura e Go Up. Isso é conflito de papéis e merece auditoria dura. Frias destinou emenda, assinou como produtor e mexeu conta pessoal. Isso exige explicação de lastro, e a PF já anotou que o rendimento mensal do deputado não parece caber no volume transferido. Nenhuma dessas frases precisa do adjetivo “filme sobre Bolsonaro” para ser verdadeira. O adjetivo é o que vende o clique.
A regra que deveria valer para os dois
Se o curso online não existiu de fato, o dinheiro tem de voltar e alguém tem de responder. Se houve subcontratação de fachada entre ICB, editoras e NTT, o caminho é o mesmo de qualquer outro esquema de emenda: quebrar sigilo, confrontar nota fiscal com serviço, separar o que é cultura do que é caixa dois eleitoral.
A mesma regra vale para o FSA, para a Lei do Audiovisual, para a Secom e para a prefeitura que assinou contrato de Wi-Fi de R$ 108 milhões com o mesmo instituto. Serviço fantasma é serviço fantasma. Dona em comum de ONG e produtora é risco. Filme político com dinheiro de banqueiro falido é outro inquérito, com outro relator.
O que não vale é o atalho: R$ 750 mil numa empresa que recebeu de quem recebeu de quem recebeu emenda vira, na capa, o abastecimento de uma cinebiografia, enquanto bilhões oficiais no cinema “certo” continuam sob o nome educado de fomento.
A PF tem o ônus de provar o nexo, não só a coincidência de CNPJ e de data. O Estadão tem o ônus de aplicar o mesmo título amanhã, se o próximo R$ 750 mil sair de uma ONG alinhada ao governo e cair numa produtora de documentário sobre o próprio presidente. Até lá, o leitor fica com o que a capa entregou hoje: uma suspeita de cadeia financeira vendida como veredicto sobre um filme.
Em resumo
A operação apura o caminho de recursos ligados a emendas destinadas ao Instituto Conhecer Brasil e transferências que chegaram à Go Up Entertainment, produtora de Dark Horse.
Segundo a matéria, a sequência de transferências é investigada, mas não constitui por si só comprovante de pagamento do set, elenco ou pós-produção do filme.
O deputado federal Mario Frias e a empresária Karina Ferreira da Gama estão entre os alvos mencionados.