Fé e Sociedade · 2026-09-22 · Redação Notícia ES

Estudo identifica avanço de narrativa de “guerra espiritual” em redes evangélicas

Monitoramento de 573 perfis analisou 26,7 mil publicações sobre a crise no STF; autores alertam para demonização de adversários e radicalização.

Estudo identifica avanço de narrativa de “guerra espiritual” em redes evangélicas
Imagem do relatório “Crise no STF”, produzido pelo Instituto Democracia em Xeque e Casa Galileia. Imagem: Instituto DX.

Um monitoramento de 573 perfis públicos identificou o uso crescente de linguagem de “guerra espiritual” para interpretar a crise entre atores políticos e o Supremo Tribunal Federal nas redes sociais evangélicas alinhadas ao bolsonarismo. O estudo, produzido pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, examinou 26.762 publicações entre 31 de agosto e 13 de setembro de 2026 e foi divulgado em 16 de setembro.

Os pesquisadores encontraram 189 milhões de interações no conjunto analisado. Entre os 20 perfis de maior alcance classificados no campo da direita e do bolsonarismo, houve 63,2 milhões de interações; entre perfis evangélicos de esquerda, 7,1 milhões. A diferença de aproximadamente nove vezes mede o universo selecionado pelo estudo e não representa, sozinha, a opinião de todos os evangélicos brasileiros.

Segundo o relatório, ministros e instituições foram enquadrados em termos religiosos: André Mendonça apareceu como autoridade escolhida por Deus, enquanto Alexandre de Moraes foi associado por alguns conteúdos a imagens demoníacas. O estudo também registrou apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro e circulação da expressão “Modo Nepal” em postagens de tom radical.

Linguagem religiosa ganhou função política

“Guerra espiritual” é uma expressão teológica usada em diferentes tradições cristãs para descrever conflito entre bem e mal. No ambiente político, ela pode transformar divergência institucional em batalha sagrada, na qual adversários deixam de ser pessoas ou autoridades sujeitas a crítica e passam a ser apresentados como inimigos absolutos.

Os autores consideram que esse enquadramento facilita desumanização e reduz espaço para debate racional. A conclusão é analítica e deve ser distinguida do dado bruto de alcance. Também não significa que toda menção a oração, batalha espiritual ou valores cristãos promova violência. A interpretação depende do contexto, do alvo e da mensagem completa.

O relatório identificou perfis de pastores, influenciadores e agentes políticos, mas não realizou uma pesquisa representativa com fiéis. A amostra observa conteúdo público de redes e mede o que circulou com maior intensidade. Ela é útil para mapear narrativas, não para afirmar como cada igreja ou denominação pensa.

Campo evangélico permanece plural

Evangélicos brasileiros reúnem denominações, teologias e posições políticas distintas. Há lideranças conservadoras, progressistas e comunidades que evitam apoio partidário. Mesmo dentro de uma igreja, membros podem divergir sobre governo, Supremo, eleições e limites entre púlpito e campanha.

O contraste de alcance encontrado pelo estudo mostra uma assimetria digital: perfis de direita produziram mais interação no período. Não demonstra automaticamente maior número de fiéis, nem permite converter curtidas e compartilhamentos em intenção de voto. Plataformas recompensam conteúdos de forte reação emocional, e contas muito grandes podem concentrar parte relevante do volume.

Transparência e responsabilidade

O relatório recomenda atenção a mensagens que associem adversários a forças demoníacas ou legitimem ruptura institucional. Igrejas e lideranças podem criticar decisões do STF e participar do debate público, mas continuam sujeitas às leis eleitorais, às regras das plataformas e à responsabilidade por ameaças ou desinformação.

Para acompanhar a tendência, será necessário repetir a medição com metodologia comparável, divulgar a lista de critérios e observar como narrativas mudam até a eleição. A principal contribuição do estudo é documentar uma estratégia comunicacional específica. Sua limitação é igualmente importante: 573 perfis não falam em nome de milhões de evangélicos.

A pesquisa também observou que crises institucionais funcionam como gatilho para narrativas já presentes. Quando há decisão judicial controversa, perfis reinterpretam o episódio à luz de profecias, perseguição ou escolha divina. A repetição cria identidade de grupo e pode aumentar engajamento, mesmo entre pessoas que não acompanham os detalhes do processo.

Especialistas em liberdade religiosa ressaltam que linguagem teológica não deve ser censurada apenas por ser religiosa. O limite aparece quando há ameaça, perseguição, discriminação ou afirmação factual falsa capaz de causar dano. Moderação de plataforma e aplicação da lei precisam avaliar conteúdo concreto e preservar crítica política legítima.

Para igrejas e organizações cristãs, a discussão inclui cuidado pastoral e educação midiática. Ensinar fiéis a conferir fonte, diferenciar opinião de fato e rejeitar ameaça não impede posicionamento político. Também protege a comunidade de manipulação que usa linguagem religiosa para obter engajamento ou silenciar divergentes.

Em resumo

Quem produziu o estudo?

Casa Galileia e Instituto Democracia em Xeque.

Quantos perfis foram analisados?

573 perfis públicos.

Qual foi o período observado?

De 31 de agosto a 13 de setembro de 2026.

O estudo representa todos os evangélicos?

Não. Ele analisa uma amostra de perfis e circulação pública nas redes.

O que significa “guerra espiritual” no relatório?

Uso de linguagem religiosa para enquadrar conflito político como batalha entre bem e mal.

Interação em rede equivale a voto?

Não. Curtidas e compartilhamentos medem circulação, não intenção eleitoral.

Fontes

  • UOL — redes evangélicas e crise no STF
  • Instituto Democracia em Xeque — relatório Crise no STF
  • Casa Galileia — pesquisa e formação
  • Folha de S.Paulo — disputa de narrativas entre evangélicos