Política Nacional · 2026-08-29 · Redação Notícia ES

Flávio atravessa prova de fogo na Globo, aposta em moderação e sai da sabatina com discurso de governo mais definido

Na entrevista mais exposta da campanha até aqui, candidato do PL manteve tom controlado, afirmou que respeitará o resultado das urnas, prometeu corte de impostos e apresentou nome para a Saúde; pontos controversos também foram cobrados ao vivo.

Flávio atravessa prova de fogo na Globo, aposta em moderação e sai da sabatina com discurso de governo mais definido
Flávio atravessa prova de fogo na Globo, aposta em moderação e sai da sabatina com discurso de governo mais definido

Flávio Bolsonaro saiu da entrevista à TV Globo na noite desta sexta-feira, 28, tendo cumprido um dos objetivos centrais traçados por sua campanha: atravessar uma sabatina de alta pressão sem perder o controle, apresentar compromissos concretos de governo e reforçar a imagem de candidato capaz de falar para além da base bolsonarista. A avaliação de aliados ouvidos pela CNN Brasil foi de que o presidenciável passou por uma “prova de fogo” ao manter postura calma diante de questionamentos duros sobre eleições, economia, o filme Dark Horse, o 8 de Janeiro, relações familiares e temas institucionais.

A entrevista foi conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, e integrou a série com os seis candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest usada pela emissora para definir os convidados. Flávio participou da sabatina na sexta-feira, depois de Lula e antes de Augusto Cury.

Postura mais controlada virou ativo político

O ponto mais celebrado por integrantes da campanha foi a forma. Flávio evitou confrontos pessoais prolongados com os entrevistadores, agradeceu perguntas em diferentes momentos e tentou responder críticas sem elevar o tom. Segundo a CNN Brasil, aliados consideraram que ele transmitiu “calma” e “maturidade”, justamente atributos que a campanha deseja associar à candidatura para ampliar seu alcance entre eleitores de centro.

Esse esforço também apareceu quando o candidato afirmou que respeitará o processo e o resultado das eleições. A declaração tem peso político porque o tema da confiança nas urnas eletrônicas continua no centro da disputa institucional. Durante a entrevista, Flávio também reconheceu ter se expressado de forma equivocada anteriormente ao falar sobre a fabricação das urnas, uma admissão incomum em campanhas marcadas por respostas defensivas.

Economia: corte de impostos sem mexer em aposentadorias

Na área econômica, Flávio procurou transformar críticas ao governo Lula em proposta. Disse que pretende fazer um “tesouraço” nos impostos, reduzir o número de ministérios, cortar cargos comissionados e diminuir a burocracia para abrir espaço fiscal. Também afirmou que um eventual ajuste não deveria recair sobre aposentados nem sobre quem recebe salário mínimo.

A Folha de S.Paulo registrou que o candidato descartou mudanças na Previdência e na política de valorização do salário mínimo como caminho para o ajuste fiscal. A proposta ainda precisa ser detalhada em números, especialmente porque cortes tributários exigem compensações para não ampliar o déficit público, mas a entrevista serviu para deixar mais claro qual é a direção política que Flávio pretende defender: Estado mais enxuto, menos impostos e preservação de benefícios populares.

Nome para a Saúde foi apresentado ao vivo

Outro movimento relevante foi o anúncio de Cláudio Lottenberg como escolhido para comandar o Ministério da Saúde em um eventual governo. Lottenberg é médico oftalmologista, já ocupou a Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo e tem longa trajetória na gestão hospitalar. Ao revelar antecipadamente um nome para uma pasta estratégica, Flávio tentou transmitir previsibilidade administrativa e mostrar que a campanha começa a montar uma equipe de governo.

Entrevista não fugiu dos temas difíceis

A sabatina, porém, não foi uma sequência de terreno favorável. Flávio foi pressionado sobre o financiamento do filme Dark Horse, sobre Daniel Vorcaro, sobre sua defesa do pai, Jair Bolsonaro, sobre o 8 de Janeiro e sobre declarações relacionadas às mudanças climáticas. Ele sustentou que o patrocínio do filme foi privado e de boa-fé, mas veículos de checagem afirmaram que ainda existem informações de prestação de contas que não foram tornadas públicas.

Também houve críticas à resposta sobre clima. Aliados reconheceram à CNN que esse foi um dos momentos menos fortes da entrevista. O UOL Confere e o Aos Fatos contestaram afirmações feitas pelo candidato durante a sabatina, especialmente sobre o financiamento do documentário e sobre aquecimento global. Registrar esses contrapontos é essencial porque o desempenho político e a verificação factual são dimensões diferentes de uma entrevista eleitoral.

Um sinal importante apareceu poucas horas depois

Na madrugada deste sábado, a CNN divulgou nova pesquisa Vox Brasil em que Flávio aparece numericamente à frente de Lula em uma simulação de segundo turno: 45,1% a 44,5%. Como a margem de erro é de 2,15 pontos percentuais, o resultado configura empate técnico. O levantamento ouviu 2.100 eleitores presencialmente entre 25 e 27 de agosto e está registrado no TSE sob o número BR-05519/2026.

É importante separar cronologia de causalidade: o trabalho de campo terminou antes da entrevista à Globo, portanto a pesquisa não mede efeito da sabatina. O dado, contudo, ajuda a explicar por que a participação de Flávio na maior vitrine da televisão aberta recebeu tanta atenção. Ele chegou ao estúdio já inserido em uma disputa competitiva e com necessidade de demonstrar capacidade de ampliar o eleitorado.

Campanha tenta construir um Bolsonaro com identidade própria

O movimento da campanha ficou ainda mais evidente na manhã deste sábado, quando a propaganda eleitoral no rádio passou a destacar a trajetória de Flávio para além do pai. O candidato mencionou sua história parlamentar, segurança pública, inflação, endividamento das famílias e fez acenos ao eleitorado feminino. A estratégia busca preservar a força do sobrenome Bolsonaro sem deixar que ele seja a única explicação para a candidatura.

Essa combinação ficou visível na sabatina: defesa firme do legado familiar em temas como o julgamento de Jair Bolsonaro e o 8 de Janeiro, ao lado de sinais de autonomia em outras áreas. Flávio, por exemplo, disse que Eduardo Bolsonaro errou ao agradecer o tarifaço imposto pelos Estados Unidos e procurou apresentar uma agenda própria para economia e saúde.

A noite que a campanha queria atravessar

Para qualquer candidato competitivo, a entrevista na Globo é uma das situações mais arriscadas da campanha. São dezenas de minutos ao vivo, perguntas preparadas sobre vulnerabilidades e uma audiência muito maior que a de eventos partidários. Antes da sabatina, analistas já avaliavam que, para Lula e Flávio, sair sem um dano político grave poderia ser considerado um bom resultado.

Flávio saiu do estúdio com críticas a enfrentar, mas também com elementos que sua campanha pretendia colocar diante do eleitor: autocontrole, reconhecimento de erro quando pressionado sobre as urnas, defesa do resultado eleitoral, promessa de redução de impostos e um nome definido para a Saúde. A disputa agora entra na fase em que esses sinais precisam ser testados fora do ambiente controlado da entrevista, nas próximas pesquisas e na reação do eleitorado ao horário eleitoral.

Se a estratégia era mostrar que Flávio Bolsonaro consegue enfrentar pressão nacional sem abandonar sua base e, ao mesmo tempo, falar como candidato a chefe de governo, a noite da Globo forneceu material para essa narrativa. O efeito eleitoral real, porém, só poderá ser medido nas próximas rodadas de pesquisa realizadas depois da sabatina.

Fontes da apuração

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