Flávio promete preservar renda de quem ganha o mínimo, mas deixa fórmula de reajuste em aberto
Candidato do PL afirma que não pretende fazer ajuste fiscal sobre trabalhadores e aposentados, mas ainda não confirmou se manterá a atual regra de valorização real do salário mínimo.

O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, afirmou que um eventual governo seu não pretende buscar economia fiscal reduzindo a renda de trabalhadores que recebem salário mínimo ou de aposentados, mas deixou sem resposta definitiva se manterá a atual fórmula que garante aumento acima da inflação. A declaração foi dada na sexta-feira, 28, durante sabatina da TV Globo e mantém aberta uma das discussões econômicas com maior alcance social da campanha.
Questionado sobre a política de ganho real, Flávio direcionou a resposta para a proteção da renda das faixas de menor remuneração e para cortes de despesas em outras áreas do Estado. Ele também rejeitou a ideia de fazer economia sobre aposentados e beneficiários vinculados ao piso. O candidato, contudo, não assumiu compromisso explícito com a manutenção integral da fórmula vigente.
A distinção é relevante. Preservar o poder de compra significa, no mínimo, repor a inflação. A política atual vai além e prevê valorização real dentro de limites definidos pela legislação fiscal. Por isso, a definição da fórmula de reajuste tem impacto direto sobre trabalhadores, Previdência, Benefício de Prestação Continuada, abono salarial e contas públicas.
Como funciona a regra atual
O salário mínimo nacional é de R$ 1.621 em 2026. A política vigente combina a inflação medida pelo INPC com o crescimento do Produto Interno Bruto de dois anos antes. Desde a alteração das regras fiscais aprovada em 2024, o componente de ganho real está sujeito ao intervalo de crescimento permitido pelo arcabouço, com limite superior de 2,5%.
Para 2027, o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias encaminhado pelo governo ao Congresso prevê mínimo de R$ 1.717. A estimativa representa aumento de R$ 96, ou aproximadamente 5,9%, e segue a política de valorização que combina inflação e crescimento econômico, respeitando o teto de ganho real.
O valor final do próximo ano ainda depende dos indicadores econômicos usados no cálculo e das decisões orçamentárias. A projeção, porém, mostra por que a política do mínimo ocupa espaço importante na eleição: qualquer alteração na fórmula produz efeitos tanto na renda disponível das famílias quanto nas despesas obrigatórias da União.
Impacto vai além de quem recebe salário
O piso nacional serve de referência para uma parcela ampla da população e influencia benefícios previdenciários e assistenciais. Aposentadorias e pensões do INSS que estão no piso, além do BPC, acompanham o salário mínimo. O abono salarial também utiliza parâmetros ligados ao mínimo.
Isso significa que uma decisão sobre ganho real não se limita à relação entre empregado e empregador. Ela afeta o orçamento federal e a renda de beneficiários da Previdência e da assistência social. O desafio de qualquer proposta presidencial é apresentar simultaneamente a política de renda e a forma de acomodar seu custo nas regras fiscais.
Flávio indicou que pretende buscar espaço fiscal por meio de redução de burocracia, combate à corrupção e diminuição de despesas que considera ineficientes. Até agora, porém, a campanha não apresentou, nessa resposta, uma fórmula alternativa detalhada para o reajuste do mínimo nem informou se pretende modificar a legislação de valorização em vigor.
O que ainda precisa ser definido pela campanha
A fala na sabatina produz duas informações objetivas. A primeira é o compromisso político declarado de não concentrar ajuste sobre quem recebe o piso ou aposentadoria. A segunda é a ausência, até o momento, de uma promessa específica de manter o mecanismo atual de ganho acima da inflação.
Essa diferença deverá voltar ao debate econômico porque permite cenários distintos. Um governo pode preservar o poder de compra apenas corrigindo o piso pela inflação, pode manter a fórmula atual ou pode propor outro modelo de valorização. Cada alternativa gera efeitos diferentes sobre renda, consumo e despesa pública.
Também será necessário esclarecer como a proposta de redução de impostos mencionada pelo candidato se relacionaria com o equilíbrio das contas públicas. Cortes de tributos podem estimular setores da economia, mas reduções de receita precisam ser avaliadas juntamente com despesas, compensações e regras fiscais.
Salário mínimo entra no centro da disputa presidencial
A política de valorização é defendida pelo governo Lula como instrumento de aumento de renda. Adversários do governo, por sua vez, têm criticado o crescimento das despesas obrigatórias e a situação fiscal. A candidatura de Flávio tenta combinar as duas preocupações ao afirmar que pretende proteger quem está na base da renda e buscar economia em outras áreas.
Para o eleitor, a próxima etapa é transformar essa orientação política em números. A campanha ainda poderá apresentar programa econômico, projeções e regras específicas para o mínimo. Enquanto isso não ocorre, seria incorreto afirmar que Flávio decidiu acabar com o ganho real, assim como seria prematuro afirmar que ele garantiu a manutenção da fórmula atual.
O que está documentado é que o candidato afastou a hipótese de fazer economia diretamente sobre trabalhadores do piso e aposentados, mas evitou cravar o mecanismo de reajuste. Em uma campanha marcada pela disputa sobre custo de vida, emprego e contas públicas, essa definição tende a ser cobrada novamente antes do primeiro turno.
Fontes consultadas: Folha Vitória, publicação que originou a pauta; UOL/Agência Estado, registro da sabatina de 28 de agosto; Senado Federal, informações sobre o salário mínimo de R$ 1.621 em 2026 e a política de valorização; Senado Federal, projeção do mínimo de R$ 1.717 para 2027 e explicação da fórmula vigente.