Política Nacional · 2026-08-29 · Redação Notícia ES

Flávio estreia na TV mirando voto feminino, enquanto Lula abre ofensiva direta na campanha presidencial

Primeiro programa presidencial no horário eleitoral expôs estratégias distintas: Flávio Bolsonaro buscou ampliar diálogo com mulheres e eleitores moderados, enquanto Lula reforçou realizações e elevou o tom contra o principal adversário.

Flávio estreia na TV mirando voto feminino, enquanto Lula abre ofensiva direta na campanha presidencial
Flávio estreia na TV mirando voto feminino, enquanto Lula abre ofensiva direta na campanha presidencial

A estreia do horário eleitoral presidencial neste sábado (29) colocou em evidência as duas estratégias que devem organizar a fase mais intensa da campanha de 2026. Flávio Bolsonaro (PL) usou parte importante de seus 4 minutos e 20 segundos para apresentar uma imagem mais familiar, buscar aproximação com o eleitorado feminino e falar de violência, economia e custo de vida. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 5 minutos e 31 segundos, combinou defesa do próprio governo com ataques diretos ao adversário. A propaganda começou no rádio pela manhã e chegou à televisão no início da tarde, abrindo uma etapa em que as campanhas passam a disputar diariamente eleitores menos engajados nas redes sociais.

A cobertura das agendas dos presidenciáveis na quinta-feira (27), publicada pela Agência Brasil, serviu como gatilho para esta reportagem. O Notícia ES refez a apuração a partir da estreia efetiva do horário eleitoral, das regras divulgadas pela Justiça Eleitoral e de reportagens independentes publicadas neste sábado.

Flávio tenta ampliar a candidatura para além da base bolsonarista

O primeiro programa de Flávio Bolsonaro mostrou uma tentativa clara de falar com segmentos em que a candidatura ainda enfrenta resistência. A campanha apresentou sua esposa, Fernanda Bolsonaro, e explorou elementos familiares para construir uma imagem de maior moderação pessoal. A Folha de S.Paulo registrou que o programa buscou de forma explícita o voto feminino, um dos grupos decisivos para a eleição e historicamente mais difícil para candidaturas associadas ao bolsonarismo.

A estratégia não significa abandono da identidade política que levou Flávio até aqui. O programa preservou críticas ao governo Lula e destacou problemas como violência, crime organizado, endividamento das famílias e insegurança econômica. A diferença esteve no enquadramento: a campanha procurou apresentar o candidato como alguém capaz de dialogar com eleitores que concordam com parte da agenda de direita, mas mantêm reservas em relação ao estilo político de Jair Bolsonaro.

Essa busca por expansão ocorre num momento em que Flávio também tenta reduzir dúvidas fora do eleitorado tradicional. Nos últimos dias, ele se reuniu com banqueiros, empresários e representantes do mercado financeiro em São Paulo para apresentar propostas e discutir uma eventual gestão. A aproximação não representa apoio formal do setor financeiro, mas mostra que a campanha trabalha simultaneamente em duas frentes: ampliar confiança entre agentes econômicos e diminuir resistência entre segmentos do eleitorado.

Lula usa o maior tempo para defender governo e atacar o rival

Lula entrou no horário eleitoral com a maior fatia de tempo entre os candidatos à Presidência. A campanha petista tem 5 minutos e 31 segundos por bloco, resultado da coligação formada pelo PT e partidos aliados. O PL concorre isoladamente e ficou com 4 minutos e 20 segundos. Ronaldo Caiado (PSD) tem 2 minutos e 2 segundos, e Augusto Cury (Avante), 35 segundos.

No primeiro programa, Lula apresentou realizações de seus governos e recuperou temas sociais e econômicos que a campanha considera favoráveis. Ao mesmo tempo, lançou ataques diretos a Flávio. A Folha e a CNN registraram que a propaganda petista utilizou referências a investigações e controvérsias envolvendo o senador para aumentar a rejeição do adversário.

No rádio, a campanha de Lula exibiu um áudio relacionado ao banqueiro Daniel Vorcaro e voltou a mencionar episódios como as investigações sobre rachadinhas e antigas homenagens feitas por Flávio quando deputado estadual. O senador nega irregularidades e já teve investigações encerradas ou decisões favoráveis em diferentes etapas judiciais, circunstância que exige separar acusações políticas de responsabilidades efetivamente reconhecidas pela Justiça.

A escolha do PT mostra que a campanha vê Flávio como adversário central desde o início da propaganda. O objetivo aparente é impedir que ele consiga se apresentar ao eleitorado menos politizado apenas como uma renovação geracional da direita ou como candidato de perfil mais moderado.

O horário eleitoral volta a ter peso numa disputa apertada

As redes sociais transformaram profundamente as campanhas brasileiras, mas o rádio e a televisão continuam relevantes porque alcançam públicos que não acompanham diariamente a disputa política pela internet. A própria distribuição de tempo mostra a importância atribuída pelos partidos ao formato: meses antes do início oficial da propaganda, as legendas negociaram alianças também considerando o ganho de exposição em rede nacional.

Segundo a Justiça Eleitoral, os programas para presidente e deputado federal são exibidos às terças, quintas e sábados. Os blocos presidenciais têm 12 minutos e 30 segundos, além das inserções distribuídas ao longo da programação. O primeiro turno será realizado em 4 de outubro.

Uma pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta semana e repercutida pela Folha indicou que 60% dos entrevistados disseram ter intenção de consultar propostas e programas de governo. O levantamento também encontrou diferenças entre grupos políticos, com forte interesse inclusive entre eleitores que votam principalmente para impedir a vitória do adversário. Esse dado ajuda a explicar por que as campanhas estão investindo tanto na construção de mensagens destinadas a quem ainda pode mudar de posição.

Mulheres e indecisos viram terreno decisivo

O primeiro programa de Flávio também sinaliza onde sua campanha enxerga espaço para crescimento. Pesquisas eleitorais divulgadas ao longo do ano mostram diferenças relevantes entre homens e mulheres na disputa presidencial. A presença de Fernanda no programa e o esforço para apresentar uma imagem familiar não parecem casuais: são instrumentos para tentar reduzir uma desvantagem que pode decidir o segundo turno.

Lula também intensificou sua agenda voltada às mulheres neste sábado. Em Belo Horizonte, participou de um ato no qual defendeu o fim da escala 6x1 e destacou políticas destinadas ao público feminino. Isso mostra que os dois principais candidatos disputam o mesmo segmento por caminhos diferentes.

Ao mesmo tempo, ambos procuram o eleitor menos ideológico. A Folha descreveu esse grupo como eleitor-pêndulo, parcela que não se identifica integralmente com nenhum dos polos e pode definir uma eleição equilibrada. Lula tenta atraí-lo com a memória de políticas sociais e resultados de governo. Flávio aposta em uma combinação de renovação, segurança pública, críticas econômicas e esforço de moderação.

A campanha entra numa fase mais dura

A estreia do horário eleitoral indica que a disputa tende a ficar mais agressiva nas próximas semanas. A campanha petista já decidiu explorar vulnerabilidades do adversário. Flávio, por sua vez, começou a responder com críticas ao governo e deve aprofundar temas como segurança, dívida pública, inflação percebida pelas famílias e investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente.

Ronaldo Caiado e Augusto Cury tentam romper a polarização com espaços menores. Caiado usa sua experiência em Goiás e a segurança pública como principal vitrine. Cury procura se apresentar como alternativa de diálogo e pacificação. O desafio dos dois é transformar poucos minutos de exposição em crescimento suficiente para ameaçar a concentração da disputa em Lula e Flávio.

O primeiro sábado de propaganda deixou a linha de batalha mais clara. Lula aposta no peso da máquina política, no maior tempo de televisão e na desconstrução do principal rival. Flávio tenta ampliar sua candidatura para além do eleitor bolsonarista tradicional, especialmente entre mulheres, moderados e setores econômicos. A partir de agora, cada programa será menos uma apresentação e mais uma disputa direta por quem ainda não decidiu o voto.

Fontes da apuração

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