Folha admite que Moraes acordou os evangélicos. No ES, Capitão Assumção já falava isso da tribuna. Mas ele pagou um alto preço por isso
Coluna da Folha diz que a guerra no STF reenergizou igrejas contra o bloco de Lula. No Espírito Santo, o deputado evangélico Capitão Assumção já denunciava Moraes da tribuna da Ales, foi preso, solto pelos pares e acumula R$ 56,88 milhões em multa diária.

A Folha publicou neste sábado, 5, coluna de Juliano Spyer com um título que a própria Folha evitou durante anos: “Alexandre de Moraes acordou evangélicos de direita para a eleição”.

O texto diz o óbvio que a grande imprensa só agora acomoda. Núcleos evangélicos que estavam apáticos com a campanha de Flávio Bolsonaro voltaram a se mexer por causa da guerra no STF. A faísca, segundo Spyer, foi a divulgação dos diálogos de Moraes com Daniel Vorcaro. A senha que circula nos grupos é “vamos orar por André Mendonça”. Tradução política, na leitura do colunista: vamos atuar nesta eleição.
Spyer vai além. Escreve que a antipatia a Moraes empolga mais do que o próprio apoio a Flávio. Que Moraes é lido, em chave bíblica, como o faraó que manda na canetada. Que o ministro “toma banho de riqueza enquanto deixa o povo se lavar com a água dos porcos”, na frase de uma interlocutora pentecostal citada na coluna. E que o choque com André Mendonça, único evangélico no Supremo, ameaça a reputação de um eleitorado que vê o embate como disputa moral, não só jurídica. Fecho da Folha: isso atinge a candidatura de Lula e empurra evangélicos a votar contra o bloco governista representado por Moraes.
A Folha descobriu o termômetro. No Espírito Santo, o termômetro já estava na tribuna.

O que a Folha não conta: quem pagou o preço por dizer isso antes
Na quarta-feira, 2 de setembro, o deputado estadual Capitão Assumção (PL) usou sessão da Assembleia Legislativa do Espírito Santo para dar nome aos bois. No trecho que ele mesmo publicou em seguida no Instagram, a frase é direta:
“Se eu tiver que voltar para a prisão, que seja como da outra vez: por falar a verdade: Moraes não passa de um LADRÃO!”
Não é recado cifrado de grupo de WhatsApp. É pronunciamento de deputado evangélico, no plenário de uma Assembleia que, em março de 2024, já havia derrubado a prisão decretada pelo mesmo ministro.

Assumção é o único deputado capixaba no inquérito das fake news e no inquérito do 8 de Janeiro. É, de longe, o nome bolsonarista mais exposto do estado. Em 28 de fevereiro de 2024, depois de anos de denúncia contra Moraes, foi preso. Ficou detido até 7 de março. Naquele dia, o plenário da Ales, sob a presidência de Marcelo Santos, votou pela liberdade. Foram 24 votos a favor da soltura, 4 contra. Moraes teve de se curvar à Casa legislativa capixaba. Foi a derrota mais nítida que o ministro levou num Parlamento estadual.

Solto, Assumção voltou à tribuna com a Bíblia na mão e a camisa de um movimento jovem da Igreja Cristã Maranata. A resposta de Moraes veio em 25 de setembro de 2024: multa diária elevada de R$ 50 mil para mais R$ 30 mil por dia, bloqueio de bens, ativos, contas, investimentos, veículos, imóveis, embarcações e aeronaves, ofício ao Banco Central, à CVM, ao Renajud, à CNIB, à Capitania dos Portos e à Anac. A Polícia Federal foi mandada coletar e hashear a rede social do parlamentar.
Mesmo assim, Assumção segue à frente do movimento “Fora Moraes” no Espírito Santo. Um colega de Casa, que quase chegou à prefeitura de uma cidade da Grande Vitória, resume o que se ouve nos corredores: homem de muita coragem. Tiro o chapéu para ele.
O outro alerta que a Folha também não encaixa
Em 8 de julho, o mesmo deputado usou outra sessão e o Instagram para avisar a base evangélica sobre o PL 896/2023, o projeto da misoginia, de autoria da senadora Ana Paula Lobato, aprovado no Senado por 67 a 0 e tramitando na Câmara em regime de urgência, com relatoria de Tabata Amaral.

A tese de Assumção é conhecida na bancada cristã: a redação vaga (“ofender a mulher pela sua condição”) entrega a um juiz ativista a chave para enquadrar pregação de Gênesis 3:16, Efésios 5:22 ou 1 Coríntios 11:3. No reel, ele escreveu que “uma mensagem contendo um versículo pode virar motivo de prisão” e convocou igrejas a cobrarem voto contra o projeto.
O texto do PL, de fato, não cita a Bíblia, pastor nem culto. Checagens de esquerda repetem isso como se encerrasse o debate. O ponto político é outro, e é o mesmo ponto da coluna da Folha: evangélicos não leem só a letra da lei. Leem quem vai aplicar a lei. Leem Moraes contra Malafaia, apreensão de equipamentos, retenção de passaporte, quebra de sigilo. Leem o ministro que a Folha agora compara, pela boca das igrejas, ao faraó.
Quando o mesmo jornal que passou anos tratando a mobilização evangélica como pânico moral admite que “orar por Mendonça” é código de campanha, o recado deixou de ser folclore. Virou fator eleitoral.
A régua que a Folha aplica tarde
Spyer descreve com precisão o que vê nos templos. O problema é o atraso seletivo. A Folha só enxerga o eleitor evangélico quando ele ameaça o bloco de Lula. Enquanto esse eleitor era alvo de inquérito, tornozeleira, multa diária e bloqueio patrimonial, a cobertura nacional tratava o protesto como ruído golpista.

O caso capixaba é o espelho que a coluna não usa. Um deputado evangélico do interior do sistema, com base na Igreja Cristã Maranata, denunciou Moraes no plenário, foi preso, foi solto pelos pares, voltou com a Bíblia e continua chamando o ministro de ladrão. A Folha, três dias depois desse pronunciamento, descobre que as igrejas acordaram.
Datafolha desta semana ainda mostra Flávio com 56% a 34% entre evangélicos no segundo turno. A vantagem caiu, mas não sumiu. O que Spyer descreve é o combustível que pode impedir essa vantagem de derreter na reta final: ódio a Moraes, não paixão por Flávio.
A regra que deveria valer para os dois
Se “vamos orar por André Mendonça” é mobilização eleitoral, o pronunciamento de Assumção na Ales também é. Se diálogo de Moraes com Vorcaro reenergiza igreja, cadeia, multa e bloqueio de bens contra o deputado evangélico que denunciou o ministro também reenergiza igreja. Não dá para tratar um fenômeno como antropologia de colunista e o outro como caso de polícia.

Um detalhe que não pode ser esquecido: em 25 de setembro de 2024, Moraes não tirou a multa de R$ 50 mil. Somou mais R$ 30 mil por dia. A conta que o deputado passou a pagar, cada manhã, é de R$ 80 mil. Bloqueio de bens, ativos, contas, investimentos, veículos, imóveis, embarcações e aeronaves veio no mesmo despacho. Ofício ao Banco Central, à CVM, ao Renajud, à CNIB, à Capitania dos Portos e à Anac. A Polícia Federal foi mandada coletar e hashear o Instagram.
Até este sábado, 5 de setembro de 2026, a multa diária de R$ 80 mil aplicada a Capitão Assumção, que denuncia Moraes todos os dias, já passa de R$ 56,88 milhões. São 711 dias. Cinquenta e seis milhões, oitocentos e oitenta mil reais. O povo precisa ver esse número. Não é detalhe de processo. É o preço cobrado de um deputado evangélico do Espírito Santo por continuar denunciando Moraes.

Multômetro
711 dias completos
Projeção matemática em tempo real, sem juros ou correção monetária
A Folha acertou o diagnóstico com dois anos de atraso em relação à tribuna capixaba. O eleitor evangélico não precisou da Folha para acordar. Precisou de Moraes. E, no Espírito Santo, de um deputado que já tinha pago a conta quando a Folha ainda chamava isso de torpor.
Em resumo
A Folha publicou coluna reconhecendo que Alexandre de Moraes reenergizou evangélicos de direita para a eleição de 2026. No Espírito Santo, o deputado Capitão Assumção já fazia essa denúncia da tribuna da Ales, chamou Moraes de ladrão em sessão de 2 de setembro e acumula multa diária de R$ 80 mil, que até 5 de setembro de 2026 soma R$ 56,88 milhões.
Deputado estadual Capitão Assumção (PL-ES); ministro Alexandre de Moraes (STF); colunista Juliano Spyer e a Folha de S.Paulo; ministro André Mendonça; Daniel Vorcaro; Assembleia Legislativa do ES, sob a presidência de Marcelo Santos na votação de 2024; base evangélica capixaba, em especial a Igreja Cristã Maranata.
No plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, nas redes do deputado e, em paralelo, na cobertura nacional da Folha. A prisão, a soltura e a multa tramitam no STF, com cumprimento no ES.
A coluna da Folha saiu em 5 de setembro de 2026. O pronunciamento de Assumção na Ales foi em 2 de setembro de 2026. A prisão foi em 28 de fevereiro de 2024 e a soltura, em 7 de março de 2024, após voto da Ales. A multa de R$ 80 mil por dia vale desde 25 de setembro de 2024. O alerta sobre o PL 896/2023 foi em 8 de julho de 2026.
Mostra que o despertar evangélico descrito pela Folha tem face capixaba e custo concreto: cadeia, bloqueio de bens e R$ 56,88 milhões de multa contra o principal deputado bolsonarista e evangélico do ES. A régua da grande imprensa chegou tarde. A tribuna da Ales chegou antes.
Assumção segue no movimento Fora Moraes no Espírito Santo, denuncia o ministro diariamente e alerta igrejas contra o PL 896/2023. A multa de R$ 80 mil por dia continua correndo. A coluna da Folha transforma em fator eleitoral nacional o que já era fato político no ES.
Fontes
- Folha de S.Paulo, coluna de Juliano Spyer, 05/09/2026, ‘Alexandre de Moraes acordou evangélicos de direita para a eleição’
- Instagram de Capitão Assumção, reel de 02/09/2026 (pronunciamento na Ales: ‘Moraes não passa de um LADRÃO’) e reel de 08/07/2026 (alerta sobre o PL 896/2023)
- Decisão do ministro Alexandre de Moraes, STF, 25/09/2024 (multa adicional de R$ 30 mil ao dia, bloqueios patrimoniais e ofícios a Bacen, CVM, Renajud, CNIB, Capitania dos Portos e Anac); votação da Ales em 06 e 07/03/2024 (24 a 4 pela liberdade)
- Datafolha, recorte evangélico do 2º turno Lula x Flávio Bolsonaro, divulgação nesta semana (56% a 34%); tramitação do PL 896/2023 no Congresso