Política ES · 2026-09-05 · Redação Notícia ES

Folha admite que Moraes acordou os evangélicos. No ES, Capitão Assumção já falava isso da tribuna. Mas ele pagou um alto preço por isso

Coluna da Folha diz que a guerra no STF reenergizou igrejas contra o bloco de Lula. No Espírito Santo, o deputado evangélico Capitão Assumção já denunciava Moraes da tribuna da Ales, foi preso, solto pelos pares e acumula R$ 56,88 milhões em multa diária.

Folha admite que Moraes acordou os evangélicos. No ES, Capitão Assumção já falava isso da tribuna. Mas ele pagou um alto preço por isso
Capitão Assumção na tribuna da Ales e o ministro Alexandre de Moraes. A multa diária de R$ 80 mil já soma R$ 56.880.000 até 5 de setembro de 2026.

A Folha publicou neste sábado, 5, coluna de Juliano Spyer com um título que a própria Folha evitou durante anos: “Alexandre de Moraes acordou evangélicos de direita para a eleição”.

Acuado, Moraes mexeu num vespeiro: evangélicos
Acuado, Moraes mexeu num vespeiro: evangélicos

O texto diz o óbvio que a grande imprensa só agora acomoda. Núcleos evangélicos que estavam apáticos com a campanha de Flávio Bolsonaro voltaram a se mexer por causa da guerra no STF. A faísca, segundo Spyer, foi a divulgação dos diálogos de Moraes com Daniel Vorcaro. A senha que circula nos grupos é “vamos orar por André Mendonça”. Tradução política, na leitura do colunista: vamos atuar nesta eleição.

Spyer vai além. Escreve que a antipatia a Moraes empolga mais do que o próprio apoio a Flávio. Que Moraes é lido, em chave bíblica, como o faraó que manda na canetada. Que o ministro “toma banho de riqueza enquanto deixa o povo se lavar com a água dos porcos”, na frase de uma interlocutora pentecostal citada na coluna. E que o choque com André Mendonça, único evangélico no Supremo, ameaça a reputação de um eleitorado que vê o embate como disputa moral, não só jurídica. Fecho da Folha: isso atinge a candidatura de Lula e empurra evangélicos a votar contra o bloco governista representado por Moraes.

A Folha descobriu o termômetro. No Espírito Santo, o termômetro já estava na tribuna.

Se eu tiver que voltar para a prisão, que seja como da outra vez: por falar a verdade: Moraes não passa de um LADRÃO!
“Se eu tiver que voltar para a prisão, que seja como da outra vez: por falar a verdade: Moraes não passa de um LADRÃO!”

O que a Folha não conta: quem pagou o preço por dizer isso antes

Na quarta-feira, 2 de setembro, o deputado estadual Capitão Assumção (PL) usou sessão da Assembleia Legislativa do Espírito Santo para dar nome aos bois. No trecho que ele mesmo publicou em seguida no Instagram, a frase é direta:

“Se eu tiver que voltar para a prisão, que seja como da outra vez: por falar a verdade: Moraes não passa de um LADRÃO!”

Não é recado cifrado de grupo de WhatsApp. É pronunciamento de deputado evangélico, no plenário de uma Assembleia que, em março de 2024, já havia derrubado a prisão decretada pelo mesmo ministro.

Presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo foi o responsável por devolver a liberdade de Capitão Assumção
Presidente da Assembléia Legislativa do Espírito Santo foi o responsável por devolver a liberdade de Capitão Assumção

Assumção é o único deputado capixaba no inquérito das fake news e no inquérito do 8 de Janeiro. É, de longe, o nome bolsonarista mais exposto do estado. Em 28 de fevereiro de 2024, depois de anos de denúncia contra Moraes, foi preso. Ficou detido até 7 de março. Naquele dia, o plenário da Ales, sob a presidência de Marcelo Santos, votou pela liberdade. Foram 24 votos a favor da soltura, 4 contra. Moraes teve de se curvar à Casa legislativa capixaba. Foi a derrota mais nítida que o ministro levou num Parlamento estadual.

Imagem histórica: deputados votam pela liberdade do deputado Capitão Assumção
Imagem histórica: deputados votam pela liberdade do deputado Capitão Assumção

Solto, Assumção voltou à tribuna com a Bíblia na mão e a camisa de um movimento jovem da Igreja Cristã Maranata. A resposta de Moraes veio em 25 de setembro de 2024: multa diária elevada de R$ 50 mil para mais R$ 30 mil por dia, bloqueio de bens, ativos, contas, investimentos, veículos, imóveis, embarcações e aeronaves, ofício ao Banco Central, à CVM, ao Renajud, à CNIB, à Capitania dos Portos e à Anac. A Polícia Federal foi mandada coletar e hashear a rede social do parlamentar.

Mesmo assim, Assumção segue à frente do movimento “Fora Moraes” no Espírito Santo. Um colega de Casa, que quase chegou à prefeitura de uma cidade da Grande Vitória, resume o que se ouve nos corredores: homem de muita coragem. Tiro o chapéu para ele.

O outro alerta que a Folha também não encaixa

Em 8 de julho, o mesmo deputado usou outra sessão e o Instagram para avisar a base evangélica sobre o PL 896/2023, o projeto da misoginia, de autoria da senadora Ana Paula Lobato, aprovado no Senado por 67 a 0 e tramitando na Câmara em regime de urgência, com relatoria de Tabata Amaral.

Deputado Capitão Assumção faz alerta a líder religiosos: Vão criminalizar a bíblia no Brasil
Deputado Capitão Assumção faz alerta a líder religiosos: "Vão criminalizar a bíblia no Brasil"

A tese de Assumção é conhecida na bancada cristã: a redação vaga (“ofender a mulher pela sua condição”) entrega a um juiz ativista a chave para enquadrar pregação de Gênesis 3:16, Efésios 5:22 ou 1 Coríntios 11:3. No reel, ele escreveu que “uma mensagem contendo um versículo pode virar motivo de prisão” e convocou igrejas a cobrarem voto contra o projeto.

O texto do PL, de fato, não cita a Bíblia, pastor nem culto. Checagens de esquerda repetem isso como se encerrasse o debate. O ponto político é outro, e é o mesmo ponto da coluna da Folha: evangélicos não leem só a letra da lei. Leem quem vai aplicar a lei. Leem Moraes contra Malafaia, apreensão de equipamentos, retenção de passaporte, quebra de sigilo. Leem o ministro que a Folha agora compara, pela boca das igrejas, ao faraó.

Quando o mesmo jornal que passou anos tratando a mobilização evangélica como pânico moral admite que “orar por Mendonça” é código de campanha, o recado deixou de ser folclore. Virou fator eleitoral.

A régua que a Folha aplica tarde

Spyer descreve com precisão o que vê nos templos. O problema é o atraso seletivo. A Folha só enxerga o eleitor evangélico quando ele ameaça o bloco de Lula. Enquanto esse eleitor era alvo de inquérito, tornozeleira, multa diária e bloqueio patrimonial, a cobertura nacional tratava o protesto como ruído golpista.

Imagem da matéria

O caso capixaba é o espelho que a coluna não usa. Um deputado evangélico do interior do sistema, com base na Igreja Cristã Maranata, denunciou Moraes no plenário, foi preso, foi solto pelos pares, voltou com a Bíblia e continua chamando o ministro de ladrão. A Folha, três dias depois desse pronunciamento, descobre que as igrejas acordaram.

Datafolha desta semana ainda mostra Flávio com 56% a 34% entre evangélicos no segundo turno. A vantagem caiu, mas não sumiu. O que Spyer descreve é o combustível que pode impedir essa vantagem de derreter na reta final: ódio a Moraes, não paixão por Flávio.

A regra que deveria valer para os dois

Se “vamos orar por André Mendonça” é mobilização eleitoral, o pronunciamento de Assumção na Ales também é. Se diálogo de Moraes com Vorcaro reenergiza igreja, cadeia, multa e bloqueio de bens contra o deputado evangélico que denunciou o ministro também reenergiza igreja. Não dá para tratar um fenômeno como antropologia de colunista e o outro como caso de polícia.

Imagem da matéria

Um detalhe que não pode ser esquecido: em 25 de setembro de 2024, Moraes não tirou a multa de R$ 50 mil. Somou mais R$ 30 mil por dia. A conta que o deputado passou a pagar, cada manhã, é de R$ 80 mil. Bloqueio de bens, ativos, contas, investimentos, veículos, imóveis, embarcações e aeronaves veio no mesmo despacho. Ofício ao Banco Central, à CVM, ao Renajud, à CNIB, à Capitania dos Portos e à Anac. A Polícia Federal foi mandada coletar e hashear o Instagram.

Até este sábado, 5 de setembro de 2026, a multa diária de R$ 80 mil aplicada a Capitão Assumção, que denuncia Moraes todos os dias, já passa de R$ 56,88 milhões. São 711 dias. Cinquenta e seis milhões, oitocentos e oitenta mil reais. O povo precisa ver esse número. Não é detalhe de processo. É o preço cobrado de um deputado evangélico do Espírito Santo por continuar denunciando Moraes.

Se eu tiver que voltar para a prisão, que seja como da outra vez: por falar a verdade: Moraes não passa de um LADRÃO!
“Se eu tiver que voltar para a prisão, que seja como da outra vez: por falar a verdade: Moraes não passa de um LADRÃO!”

Multômetro

Multa diária de R$ 80.000,00
R$ 56.880.000,00

711 dias completos

R$ 0,925926por segundo
R$ 55,56por minuto
R$ 3.333,33por hora
R$ 80.000,00por dia

Projeção matemática em tempo real, sem juros ou correção monetária

A Folha acertou o diagnóstico com dois anos de atraso em relação à tribuna capixaba. O eleitor evangélico não precisou da Folha para acordar. Precisou de Moraes. E, no Espírito Santo, de um deputado que já tinha pago a conta quando a Folha ainda chamava isso de torpor.

Em resumo

O que aconteceu?

A Folha publicou coluna reconhecendo que Alexandre de Moraes reenergizou evangélicos de direita para a eleição de 2026. No Espírito Santo, o deputado Capitão Assumção já fazia essa denúncia da tribuna da Ales, chamou Moraes de ladrão em sessão de 2 de setembro e acumula multa diária de R$ 80 mil, que até 5 de setembro de 2026 soma R$ 56,88 milhões.

Quem está envolvido?

Deputado estadual Capitão Assumção (PL-ES); ministro Alexandre de Moraes (STF); colunista Juliano Spyer e a Folha de S.Paulo; ministro André Mendonça; Daniel Vorcaro; Assembleia Legislativa do ES, sob a presidência de Marcelo Santos na votação de 2024; base evangélica capixaba, em especial a Igreja Cristã Maranata.

Onde aconteceu?

No plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, nas redes do deputado e, em paralelo, na cobertura nacional da Folha. A prisão, a soltura e a multa tramitam no STF, com cumprimento no ES.

Quando aconteceu?

A coluna da Folha saiu em 5 de setembro de 2026. O pronunciamento de Assumção na Ales foi em 2 de setembro de 2026. A prisão foi em 28 de fevereiro de 2024 e a soltura, em 7 de março de 2024, após voto da Ales. A multa de R$ 80 mil por dia vale desde 25 de setembro de 2024. O alerta sobre o PL 896/2023 foi em 8 de julho de 2026.

Por que isso importa?

Mostra que o despertar evangélico descrito pela Folha tem face capixaba e custo concreto: cadeia, bloqueio de bens e R$ 56,88 milhões de multa contra o principal deputado bolsonarista e evangélico do ES. A régua da grande imprensa chegou tarde. A tribuna da Ales chegou antes.

O que acontece agora?

Assumção segue no movimento Fora Moraes no Espírito Santo, denuncia o ministro diariamente e alerta igrejas contra o PL 896/2023. A multa de R$ 80 mil por dia continua correndo. A coluna da Folha transforma em fator eleitoral nacional o que já era fato político no ES.

Fontes

  • Folha de S.Paulo, coluna de Juliano Spyer, 05/09/2026, ‘Alexandre de Moraes acordou evangélicos de direita para a eleição’
  • Instagram de Capitão Assumção, reel de 02/09/2026 (pronunciamento na Ales: ‘Moraes não passa de um LADRÃO’) e reel de 08/07/2026 (alerta sobre o PL 896/2023)
  • Decisão do ministro Alexandre de Moraes, STF, 25/09/2024 (multa adicional de R$ 30 mil ao dia, bloqueios patrimoniais e ofícios a Bacen, CVM, Renajud, CNIB, Capitania dos Portos e Anac); votação da Ales em 06 e 07/03/2024 (24 a 4 pela liberdade)
  • Datafolha, recorte evangélico do 2º turno Lula x Flávio Bolsonaro, divulgação nesta semana (56% a 34%); tramitação do PL 896/2023 no Congresso