Política Nacional · 2026-09-12 · Redação Notícia ES

Folha iguala patrocínio de filme a R$ 130 milhões no escritório da mulher de Moraes e esconde Vorcaro com Lula. O objetivo: detonar a candidatura de Flávio

Coluna de Celso Rocha de Barros, no ar neste sábado (12), coloca senador e ministro como cúmplices do Banco Master. O verbo contra o candidato é de herança criminal. O verbo contra o ministro termina em ressalva. No mesmo dia, a Veja mostra Vorcaro se gabando de proximidade com o governo Lula ‘igual irmãos Batista’.

Folha iguala patrocínio de filme a R$ 130 milhões no escritório da mulher de Moraes e esconde Vorcaro com Lula. O objetivo: detonar a candidatura de Flávio
Celso Rocha de Barros, colunista da Folha de S.Paulo, compara valores ligados ao filme Dark Horse e ao escritório de Viviane Barci de Moraes.

A Folha de S.Paulo publicou neste sábado, 12 de setembro de 2026, a coluna de Celso Rocha de Barros com o título “Flávio e Moraes receberam a mesma grana do mesmo esquema”. O texto, marcado como opinião e empurrado na conta oficial do jornal no X, diz que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, e o ministro Alexandre de Moraes, do STF, são acusados de ter recebido promessas de Daniel Vorcaro no rastro do Banco Master: R$ 140 milhões de um lado, R$ 130 milhões do outro. E conclui: “se as acusações forem verdadeiras, os dois foram cúmplices”.

O gancho é o fim do sigilo do inquérito do Master, atribuído a Edson Fachin. A tese política vem logo abaixo: o eleitor só entenderá 2026 quando aceitar que senador e ministro “ganharam a mesma grana do mesmo esquema”. O fechamento reserva a Moraes o que a Folha não reserva a Flávio: o caso “não desqualifica o trabalho de Moraes no inquérito do golpe”. “Muito pelo contrário.”

Essa é a matéria. Não é um vazamento novo. É um enquadramento.

O que a Folha fez com o fato

O fato bruto, que a própria Folha já vinha noticiando em outras peças, é conhecido. Vorcaro negociou valores altos com a produção do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro articulada no entorno de Flávio. A coluna de sábado atualiza o número para uma “promessa de R$ 140 milhões” e declara, sem o relatório da PF na página: “Não, não foi para fazer filme.” O longa vira, no parágrafo seguinte, “esquema que permitia aos deputados e prefeitos bolsonaristas, além do eternamente grato Daniel Vorcaro, desviarem dinheiro para o grande caixa 2 bolsonarista.”

Do outro lado da conta, a coluna coloca a “promessa de R$ 130 milhões” associada a Alexandre de Moraes. Não descreve, no título, que o caminho público desse dinheiro passou pelo escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes. Não pergunta, com o mesmo tamanho de letra, o que um contrato dessa magnitude compra de um ministro da Corte que julga o país. Pergunta o que Flávio comprou com um filme.

A diferença começa no verbo.

Flávio não “negociou patrocínio de um filme”. Flávio é “filho do maior criminoso da história do Brasil”. O pai não foi condenado em um processo: cometeu “assassinato em massa durante a pandemia” e, em segundo lugar, a “tentativa de golpe de 2022”. Flávio não é herdeiro de um partido. É “herdeiro do movimento político que deu autorização para que Vorcaro virasse banqueiro”, que “deu bilhões em dinheiro de aposentados para o Master”, que tentou salvar o banco no FGC, que tentou dar ao Congresso poder para demitir diretores do Banco Central e que “deu bilhões de reais do BRB” para evitar a quebra. A culpa é coletiva, retrospectiva e de família.

Moraes não “operou o outro lado do mesmo caixa”. Moraes “chegou ao escândalo no final”. “Chegou atrasado, mas chegou gloriosamente.” A Folha admite que “ainda não sabemos o que Moraes fez, ou teria feito, para justificar um investimento dessa grandeza”. A dúvida, que no caso de Flávio vira caixa 2 na mesma frase, no caso do ministro fica como lacuna elegante. No último parágrafo, a lacuna vira salvo-conduto: o Master comprova o perigo bolsonarista e, por isso, reforça, e não abala, o inquérito do golpe.

Inverta o lado. Um colunista da Folha escreveria que um ministro do STF e o filho de Lula “receberam a mesma grana do mesmo esquema”, chamaria o presidente de maior criminoso da história do Brasil e fecharia dizendo que o escândalo não desqualifica a biografia oficial do lulismo?

A manchete aguenta a troca? Não aguenta. Por isso ela existe.

O que a coluna chama de “mesma grana”

Há investigação sobre Flávio. Esconder isso seria repetir o truque que a coluna atribui aos outros. Mensagens, encontros e valores ligados a Dark Horse estão no noticiário desde maio. Reportagens da própria Folha já descreveram R$ 134 milhões combinados e parcelas pagas à produção. A Polícia Federal trata o fio como lavagem, evasão e corrupção. Isso é fato de capa, não recado de grupo.

O ponto não é inocentar o senador. O ponto é o que a Folha junta para caber no título.

De um lado, um projeto de filme, figurinha de Trump, jantar com ator, cobrança de parcela, que a PF e a imprensa ainda estão medindo. De outro, um contrato milionário no escritório da esposa de um ministro em exercício, enquanto o banco implodia e precisava, nas palavras da própria coluna, “comprar juízes”. A Folha iguala os dois sob o substantivo “grana” e o adjetivo “mesma”. A operação é de linguagem. Não é de balanço.

Se o critério fosse um só, o jornal perguntaria com a mesma fúria:

  • quem assinou o contrato;
  • quem editou a minuta;
  • o que o escritório entregou em 22 meses;
  • se o ministro se deu por impedido;
  • se a Corte admite que cônjuge fatura oito dígitos do banco que depois vira réu.

A coluna de sábado não faz essas perguntas no tom com que transforma Dark Horse em caixa 2 nacional. Faz a pergunta fácil: o eleitor já entendeu que Flávio e Moraes são a mesma coisa?

O que não entrou no título

Neste mesmo 12 de setembro, a Veja publicou que Vorcaro se gabou de proximidade com o governo Lula e se comparou aos irmãos Batista. A frase, em mensagem de julho de 2024 recuperada pela PF, trata a associação com o Executivo como verdade e como marketing: “Única coisa que falaram que somos próximos do governo, igual irmãos Batista são. O que é verdade.” Em seguida: “Isso aí é marketing pra nós. Manda pro Lula e pra base aliada.” O interlocutor fala em encaminhar a “tio Guiga e Jaques”. Na leitura da PF, o entorno de Jaques Wagner.

Não é nota de blog. É diálogo no celular do banqueiro que a Folha transformou, hoje, no elo exclusivo entre Flávio e Moraes.

A própria Folha, em março, já havia descrito o trânsito de Vorcaro entre STF, Congresso, governo e empresários. No material da época, o banqueiro relata à namorada uma reunião “ótima” com Lula no Palácio do Planalto, com Galípolo e ministros na mesa, para falar de concentração bancária. A agenda de Vorcaro cruzava Alcolumbre, ministros do governo, Toffoli, Nunes Marques e o próprio Moraes.

Nada disso cabe no título de sábado. O título de sábado precisa de dois nomes: Flávio e Moraes. Um é o candidato que a Folha quer desidratar na urna. O outro é o ministro que a Folha quer preservar como peça do “Judiciário independente”, mesmo quando o próprio texto admite que não sabe o que ele fez para merecer R$ 130 milhões.

O governo não está no mesmo auto de Flávio. Wagner não assinou Dark Horse. O ponto é outro. Quando Vorcaro se aproxima da direita, a Folha vê esquema, herança e caixa 2. Quando Vorcaro se aproxima do Planalto e se compara aos Batista, a Folha vê, quando vê, contexto. No texto de Rocha de Barros, esse contexto some. Sobram o filho do “bandido” e o juiz que o prendeu, agora “cúmplices” por decreto de coluna.

Quem escreve, de onde escreve

Celso Rocha de Barros não é o repórter de apuração do inquérito. É colunista, doutor em sociologia por Oxford, autor de PT, uma História. A Folha o apresenta assim, na mesma página em que vende o texto como chave da eleição presidencial. O jornal tem o direito de ter coluna. O leitor tem o direito de ver o selo.

O que o selo não autoriza é o disfarce. A conta @folha não espalhou o link como “um sociólogo petista acha que”. Espalhou como #opiniao colada à pauta Banco Master / Eleições 2026, com a frase-bomba no lugar da notícia. Opinião no feed oficial vira fato para quem só lê a manchete. É o método. Não é acidente.

A Folha tem linha, dono, assinante e memória de 2018 e 2022. Tratar o jornal como cartório da República é o primeiro truque da coluna: falar em “imprensa livre” no parágrafo que livra Moraes e falar em “grande imprensa” só quando precisa sugerir que “tem gente grande trabalhando” para esconder a “obviedade”. A obviedade, no caso, é a tese do próprio colunista.

O que a coluna precisa que o leitor não pergunte

Rocha de Barros escreve que Flávio sobe nas pesquisas porque o público está “indignado com um juiz acusado de ser cúmplice de Flávio Bolsonaro no caso Master”. A frase gira no vazio. Primeiro o ministro é o algoz do pai. Depois o ministro é cúmplice do filho. Depois a cumplicidade explica a alta do filho. Depois a alta do filho prova que o público está sendo enganado. O raciocínio só fecha se o leitor aceitar o ponto de partida: os dois já estão no mesmo saco.

Há outro ponto que a coluna não quer no primeiro parágrafo. Se o critério é “promessa de Vorcaro”, a lista de quem recebeu do Master não começa em Flávio e não termina em Moraes. O noticiário do próprio ano já colocou escritórios, ex-ministros da Fazenda de signos diferentes e um ex-presidente da República na fila dos milhões. A coluna de sábado não abre essa fila. Abre a urna.

Isso não lava Flávio. Lava a redução. Dois nomes, uma grana, um esquema, uma eleição. O resto do mapa (Planalto, base aliada, Batista como comparação assumida pelo próprio banqueiro, reunião “ótima” com Lula) fica para o caderno de economia de março, onde dói menos.

O critério que deveria valer para os dois

Se dinheiro de Vorcaro contamina, contamina o filme, o escritório, o jantar, a emenda, o FGC, o BRB e o recado mandado “pro Lula e pra base aliada”. Se o critério é cargo, um ministro do Supremo em exercício não pode ter o cônjuge faturando nove dígitos do banco que depois vira, na expressão da própria Folha, o maior escândalo financeiro do país, sem que isso desorganize a biografia heroica do inquérito do golpe. Se o critério é urna, o candidato que pediu R$ 140 milhões a um banqueiro agora preso deve resposta dura, documento por documento, parcela por parcela, nota por nota fiscal do Dark Horse.

O que não pode é a Folha aplicar a Flávio o verbo da organização criminosa familiar e a Moraes o verbo da ressalva histórica. Não pode chamar de “mesma grana” o que ela mesma descreve como coisas diferentes (filme de um lado, compra tardia de juiz do outro) e depois usar a fusão para explicar a pesquisa. Não pode, no mesmo sábado em que a Veja estampa Vorcaro como quase-Batista do lulismo, fingir que o esquema tem dois sócios e um só endereço ideológico.

O critério único é simples e é o contrário da coluna de hoje. Publique o contrato do escritório com o mesmo corpo de letra do roteiro do filme. Publique a mensagem do Planalto com o mesmo corpo de letra da figurinha de Trump. Chame de investigação o que é investigação e de sentença o que ainda não é. E, se for para dizer que dois homens “receberam a mesma grana do mesmo esquema”, comece listando todos os que receberam. Inclusive os que não servem para o título de sábado.

Até lá, o que a Folha publicou não é a chave da eleição. É o manual de como uma coluna transforma dois inquéritos em um só adversário.

Em resumo

O patrocínio do filme e o contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes são a mesma coisa?

Não. São situações diferentes. De um lado, há valores negociados para financiar o filme Dark Horse. Do outro, há um contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes. A matéria critica a Folha por juntar as duas situações sob a expressão ‘mesma grana do mesmo esquema’.

Qual é a crítica central desta matéria à Folha?

A matéria critica a equiparação entre recursos negociados para o filme Dark Horse e um contrato milionário ligado ao escritório da esposa de Alexandre de Moraes, além da omissão das relações de Daniel Vorcaro com o governo Lula.

O que a Veja publicou sobre Vorcaro e o governo Lula?

A Veja divulgou mensagem em que Daniel Vorcaro dizia ser próximo do governo, comparava essa proximidade à dos irmãos Batista e pedia que o conteúdo fosse enviado a Lula e à base aliada.

A matéria ignora a investigação sobre Flávio Bolsonaro?

Não. O texto registra que há investigação sobre mensagens, encontros e valores relacionados ao filme Dark Horse e cobra esclarecimentos sobre cada parcela e documento.