Política ES · 2026-08-28 · Redação Notícia ES

Gilvan da Federal perde a liminar. No ES, o PL já tem quem fez mais voto do que ele

A decisão de Cueva devolve a inelegibilidade ao 2222. Os 98 mil votos de 2022 do Capitão Assumção, hoje na disputa estadual, superam os 87 mil com que o Federal se elegeu para a Câmara

Gilvan da Federal perde a liminar. No ES, o PL já tem quem fez mais voto do que ele
Gilvan da Federal perde a liminar. No ES, o PL já tem quem fez mais voto do que ele

Cueva derrubou ontem a liminar de Nunes Marques e a inelegibilidade de Gilvan da Federal voltou a valer. A cautelar só congelava o efeito eleitoral da condenação por violência política de gênero (art. 326-B) para pré-campanha, convenção e registro. Não inocentava. Com a queda, incide de novo o art. 1º, I, “e”, 4, da LC 64/90. O 2222 entra em risco a 39 dias do primeiro turno.

O ministro mandou avisar, com urgência, o relator do registro no TRE-ES. O RRC será julgado com a ficha suja de volta. Se a condenação se mantém, registro ou diploma posteriores podem cair (art. 26-C, § 2º). Ainda cabe agravo ao plenário, mas o prazo de julgamento e de substituição acaba em 14 de setembro.

No PL capixaba, a urna de 2022 já aponta um nome estadual com mais votos do que os que elegeram o próprio Gilvan para a Câmara.

A chapa que o DivulgaCand mostrou no dia da decisão

Na atualização das 15h14 do dia 26, o PL aparecia com 11 nomes a deputado federal no Espírito Santo, partido isolado. Gilvan o Federal da Direita, número 2222, constava como “aguardando julgamento”. Na mesma lista estavam Carlos Von (2200), Coronel Pimenta (2210), Gloria Leite (2211), Lucas Polese (2212), Cabo Bonadiman (2220), Dra Bianca Bahiense (2221), Alexsandra Tomaz (2223), Neucimar Fraga (2225), Lázaro (2233) e Enfermeira Eliza Ramlow (2244).

O Estado elege dez federais. Em 2022, o quociente eleitoral ficou em torno de 208 mil votos. O PL somou 220.995 e elegeu uma cadeira. Desse total, 87.994 foram nominais de Gilvan. Quase 40% da votação nominal do partido passou por um homem só. Sem esse puxador, a conta de 2022 despencaria para perto de 133 mil, abaixo da porta de 80% do quociente que autoriza entrar nas sobras. A aritmética é cruel e pública.

O segundo nome da conversa, e o primeiro da urna estadual

A convenção do PL em agosto registrou o que os bastidores já repetiam: Lucas Polese é um dos nomes mais competitivos da chapa federal. O próprio deputado estadual baixou a bola.

Lucas Polese em frente à Assembleia Legislativa do Espírito Santo

“Vamos trabalhar muito, mas, se sobrar uma frestinha na porta para a gente entrar, já está ótimo.” Em 2022, Polese fez 29.490 votos para a Assembleia. Tem 139 mil seguidores no X, campanha histórica de R$ 3.288 sem fundo público e o rótulo, inclusive na imprensa crítica, de influencer do liberalismo capixaba. Magno Malta, por assessoria, já tinha dito que Polese tinha liberdade para escolher entre a reeleição e a Câmara.

Polese herda discurso. Não herda o volume. Mas não há dúvida que os vinte e nove mil no estadual poderão crescer muito no federal. A base conservadora se divide. Há quem o coloque na colinha do 2212. Há quem prefira Gilvan por “mais experiente e combativo” e mande o jovem esperar. A imprensa de centro cobra Lei Seca e condenação civil em Jaguare. A de esquerda cobra o choque com o arcebispo Dom Ângelo, em julho, quando Polese comparou a autoridade espiritual do prelado à de Satanás no deserto. A Arquidiocese e a CNBB rebateram. No eleitor católico, isso não é nota de rodapé.

Se o 2222 sair e o partido apostar só no 2212, a cadeira federal do PL deixa de ser o cenário mais provável e vira disputa de fio. Quarenta a 50% de chance de eleger um. Quarenta e cinco a 55% de zerar.

O nome que a urna estadual já mediu acima do Federal

Há um terceiro nome, e este não está na lista federal. Está no DivulgaCand da Assembleia: Capitão Assumção, PL, 22190, também aguardando julgamento, candidato à reeleição estadual. Em 2022 ele fez 98.669 votos. Foi o segundo deputado estadual mais votado do Espírito Santo, atrás apenas de Sergio Meneguelli. Recorde de reeleição no Estado. A cifra é maior do que os 87.994 com que Gilvan se elegeu deputado federal no mesmo dia.

A comparação exige honestidade de método. Cargo estadual não é cargo federal. Concorrente muda, número muda, mas o eleitor que “guarda o Assumção para a Assembleia” gostaria mesmo é de vê-lo na Câmara, combativo. Mesmo assim, o dado bruto permanece: o maior tesouro nominal do PL capixaba, não é Polese. Muito menos Gilvan. É o 22190.

O histórico dele é o contraponto que a reportagem não pode omitir. A tornozeleira, imposta por Alexandre de Moraes em dezembro de 2022, chegou depois dos 98 mil votos, não antes. O recorde estadual nasceu limpo do aparelho. Na base dura, PM, bombeiro, segurança pública, evangélico, anti-STF, o monitor virou peça da biografia. Ele chamou a tornozeleira de “troféu” no plenário. Moraes o prendeu em março de 2024. A Assembleia revogou a prisão por 24 votos a 4. Derrotado, Moraes foi obrigado a conceder liberdade provisória e manteve cautelares. As redes só voltaram em julho de 2025. E cinco meses depois já estava entre os 100 políticos mais influentes do Brasil (de acordo com o ranking Zeeng). Na proporcional, o eleitor que já o elegeu não desertou. Na disputa pela prefeitura de Vitória, sem redes sociais, o eleitor não o achou.

Capitão Assumção no plenário da ALES com a tornozeleira eletrônica visível

Há custo político na substituição. Em 2024 Assumção foi o candidato do PL contra Lorenzo Pazolini em Vitória e saiu multado pelo TRE. Em 2026 o mesmo PL aparece no palanque de Pazolini ao governo. A urna proporcional separa as contas. O palanque não apaga o arquivo.

O que a lei permite até 14 de setembro

Substituição por indeferimento ou inelegibilidade cabe até 20 dias antes da eleição, 14 de setembro. O partido isolado não coliga no proporcional. Para alçar o 22190 à Câmara no lugar do 2222, precisa do indeferimento ou da inelegibilidade formalizada do Gilvan, da desistência ou da reacomodação do registro estadual e de um RRC novo no prazo. Sem isso, o cenário é só hipótese de bastidor.

Se a hipótese se concretizar, a aritmética do partido muda de faixa. Sem Gilvan e com Polese carregando a federal, eleger um fica em 40% a 50%. Sem Gilvan e com Assumção na Câmara, a faixa de eleger pelo menos um sobe para 70% a 80%, e a eleição do próprio Assumção na federal fica em 60% a 70%, sempre como estimativa de cenário, não como pesquisa de intenção de voto. Dois federais continuam improváveis. Zerar deixa de ser o risco central.

Por que o desempenho “superior” precisa de asterisco

Superior em 2022, no cargo estadual, em voto nominal absoluto: sim. 98.669 contra 87.994. Superior como puxador de quociente para não deixar o PL abaixo da linha das sobras: é o argumento que os números sustentam. Sem um puxador na Assembléia Legislativa do quilate de Assumção, na casa das dezenas de milhar altas, o partido que elegeu 5 deputados e fez uma cadeira por 13 mil votos de folga em 2022 volta ao limbo.

Gilvan foi o puxador federal da marca policial e do confronto. Assumção vai além, opera no mesmo eleitor e no meio evangélico, com o acréscimo da narrativa de perseguição pelo STF e da votação estadual já testada acima da cifra do Federal. Ele tem o voto da gritaria e tem o voto silencioso da igreja. Polese opera no eleitor de rede juvenil. São mercadorias diferentes. Tratar os três como intercambiáveis é erro de reportagem.

Montagem: Gilvan da Federal, Lucas Polese e Capitão Assumção

O que vem agora

O TRE-ES vai julgar o registro com a decisão de Cueva nos autos. O plenário do TSE pode ainda olhar o agravo interno. A campanha, no chão, não espera o acórdão. Quatorze de setembro é a parede. Até lá, o PL capixaba decide se dá para salvar o 2222 na Corte ou se usa a janela de substituição para não entregar a Câmara do Estado a um cálculo de 133 mil votos.

A pergunta que essa conta responde é só esta: se, em 2022, o Gilvan não existisse na urna e aqueles 88 mil votos sumissem do PL, o partido ficaria com 133 mil. Em 2022 o quociente foi cerca de 208 mil. Oitenta por cento disso dá uns 167 mil. Com 133 mil o PL nem entraria na distribuição das sobras.

A bomba não é só a queda da liminar. A bomba é o que a urna de 2022 já tinha escrito e o partido fingia não ler: o maior voto proporcional do PL no Espírito Santo, depois do homem que acabou de ficar inelegível de novo, não está na lista da Câmara. Está na lista da Assembleia. E faz mais voto do que o Federal fez para Brasília.