Opinião · 2026-10-05 · Redação Notícia ES

O grande derrotado do Espírito Santo se chama Magno Malta

O grande derrotado do Espírito Santo se chama Magno Malta
Descrição da imagem: esboço a grafite de uma conversa. À esquerda, uma mulher de cabelo longo observa séria. No centro, um homem de camiseta com o mapa do Brasil gesticula. À direita, um homem de camisa xadrez escuta com um copo nas mãos. Ao fundo, quadros de cidade.

VITÓRIA. O nome que o primeiro turno escreveu na conta do Partido Liberal no Espírito Santo não é o de uma vitória de legenda. É o de uma derrota pessoal. Magno Malta, senador, vice-presidente do PL e dono do microfone mais alto da direita capixaba nas últimas duas décadas, sai destas eleições como o grande perdedor. Não porque a direita tenha sumido das urnas. Porque ele escolheu a filha contra o mapa que Jair Bolsonaro desenhou, contra o candidato que o eleitorado de direita aceitou e contra os nomes que, sem a bênção da família, puxaram a bancada sozinhos.

Com 100% das urnas apuradas neste domingo, 4 de outubro, Renato Casagrande (PSB) e Evair de Melo (Republicanos) foram eleitos senadores. Casagrande somou 995.361 votos, 24,70% dos válidos. Evair, o nome que Bolsonaro indicou para o Senado capixaba, fez 982.978, 24,39%. Magda Santos Malta, a Maguinha, candidata do PL e filha do senador, terminou em terceiro, com 761.722 votos, 18,90%. Ficou a 221.256 votos de Evair. A cadeira que Malta tratou como sucessão não saiu de casa.

O excesso de candidatos ajudou a pulverizar. Foram onze nomes na disputa pelas duas vagas. Maguinha superou Fabiano Contarato (PT), que teve 521.431 votos e perdeu a reeleição, e Marcos do Val (Avante), com 167.900. Superar quem já estava caindo não é o mesmo que ganhar a vaga que o pai prometeu. O mandato de Magno segue até 2031. O de Maguinha não começou.

O recado que Gilvan ouviu e Malta não quis ouvir

A história desta derrota não começa na urna. Começa quando o deputado federal Gilvan da Federal (PL) percorreu os municípios capixabas anunciando pré-candidatura ao Senado. A viagem foi interrompida por um chamado. Jair Bolsonaro o chamou para uma conversa. A versão que circula entre aliados do PL é direta. "Gilvan, não venha para o Senado. Volte para a Câmara dos Deputados. No Espírito Santo o meu candidato se chama Evair de Melo."

Gilvan recuou. Voltou a Vitória e reuniu os pré-candidatos a deputado federal que já tinha alinhado. A chapa, no cálculo de quem a montou, renderia ao PL pelo menos três deputados federais. A reunião ganhou o apelido de "barata voa". Cada um foi para um canto disputar o único cargo que ainda parecia aberto: deputado estadual. Menos um. Lucas Polese, o jovem liberal, não desistiu da pré-candidatura a deputado federal.

Foi nesse vazio que Magno Malta viu a oportunidade. Não a do partido. A da filha. Lançou Maguinha como pré-candidata a senadora com um argumento de estatuto: ela era do PL, onde o pai é vice-presidente, e Evair não pertencia à mesma agremiação. O drible tinha endereço. Bolsonaro queria Evair no PL. Malta preferiu a filha no PL e Evair do lado de fora da sigla. Saiu com Maguinha pelo estado repetindo que Brasília precisava de "pitbulls com raiva e sem coleira" no Senado. Um desses animais, dizia o discurso, seria a própria filha.

O plano parecia fechado no papel. Nas ruas, a direita pedia outra coisa. Pedia governador. Malta chegou a aparecer com 27% nas pesquisas para o Executivo. O meio político, porém, repete há anos o que o senador nunca desmentiu com a própria biografia: ele não gosta do Executivo. Senador acorda quando quer. Governador não. Havia ainda um problema de aliança. Para lançar a filha com campo, o PL precisava de um candidato a governador que conversasse com a direita de Malta. Surgiu o Republicanos. E, com ele, Lorenzo Pazolini.

Pazolini cresceu bebendo da mesma fonte política de Malta. Os dois se afastaram desde a primeira vitória na Prefeitura de Vitória. Nos bastidores corre o rumor de que Pazolini deixou Malta a ver navios no que teria prometido em troca de apoio. Aos trancos e barrancos, os bigodes foram amarrados. Malta conseguiu o que parecia improvável: um candidato a governador apresentado como de direita, e um terreno livre para a filha no Senado. A chapa PL/Republicanos ficou com dois nomes para a mesma Casa. Evair e Maguinha. Tinha jeito de acordo. Tinha cara de disputa interna.

A vaga que o ego comeu

O eleitorado de direita nunca comprou a candidatura de Maguinha. Essa é a frase que os números apenas confirmaram. Casagrande, o nome da esquerda nesta disputa, voltou ao Senado com a maior votação. Evair, o candidato de Bolsonaro, levou a segunda cadeira, já no Republicanos, não no PL. Pazolini foi ao segundo turno com 1.048.633 votos, 49,65%, contra Ricardo Ferraço (MDB), que fez 719.397, 34,06%. A vice plantada pelo PL, escolha também de Malta, passou quase sem eco. O negócio, para o senador, era a filha.

Para isso Malta investiu o que tinha e o que não tinha. Contava com o que costuma arrotar como "votos de wifi": votos que ninguém vê, mas que existiriam, prontos para entregar a vitória à herdeira. O wifi não conectou. Maguinha fez uma estreia numerosa e insuficiente. Ficou na frente de quem já estava liquidado e atrás de quem Bolsonaro tinha indicado desde o começo.

Enquanto o Senado consumia o caixa e a atenção, a proporcional foi largada. Gilvan da Federal tornou-se inelegível. Sobrava Polese. Na conta de Malta, era improvável fazer um deputado federal sem Gilvan. A chapa de estadual nem entrou na conversa. O senador desprezou o campeão de votos da Assembleia, Capitão Assumção, que nem tempo de televisão tinha, e pediu voto para os favoritos. Deixou correr uma chapa de federal que aliados chamam de Mandrake. Tudo o que Malta queria, se o plano era não dividir palco com quem pudesse ofuscar a filha.

O que a urna devolveu foi o contrário do plano.

Os azarões que a família não apostou

Lucas Polese se elegeu deputado federal com 419.735 votos. É a maior votação da história do Espírito Santo para a Câmara. O recorde anterior era de Amaro Neto, 181.813 votos em 2018. Polese, aos 29 anos, na primeira disputa pelo cargo, fez mais que o dobro daquela marca e quase o triplo da segunda colocada, Jack Rocha (PT), que teve 142.187. Recusou a verba do PL. Percorreu o estado sozinho, sem dinheiro de legenda, numa Kombi velha. Levou para Brasília um espólio de mais de 400 mil votos.

Na Assembleia, Assumção voltou a ser o campeão de votos do PL. Na eleição anterior puxara quatro. Nesta, puxou cinco. Numa campanha em que o eleitor não o achou na televisão. A vitória desses deputados não foi desenhada por Malta. Foi mérito deles. Mesmo assim deram conta do recado. Isso não entra na conta do partido como obra do comando, nem na conta da família Malta, que não apostou nos azarões.

O que entra na conta do PL é a derrota de Malta. Ele perdeu a chance de colocar um nome de pura confiança da direita bolsonarista para disputar o governo com a legenda alinhada, e perdeu uma vaga preciosa no Senado por ego. Um partido do tamanho do PL não se governa como caudilhismo. Tentou passar a herança de pai para filha. Não deu certo.

O que quatro anos não apagam

Há um detalhe que a contagem fria não mostra e a política capixaba conhece de cor. Malta nunca precisou do Executivo para existir. Precisou do Senado, do púlpito e da rede. A candidatura da filha foi apresentada como reforço de tropa. Funcionou como bloqueio. Enquanto Evair era o nome que Bolsonaro queria dentro do PL, Malta usou a sigla da filha para mantê-lo fora. O eleitor, no fim, elegeu Evair mesmo assim. Elegeu também, na proporcional, quem Malta tinha deixado para trás.

Pazolini segue vivo para o segundo turno. Isso não reescreve o domingo. A aliança serviu para a filha ter palanque. A filha não teve voto bastante. A vice do PL, plantada na chapa, não virou fato. O fato foi outro: a direita capixaba votou, e votou alto, em quem não estava no script da família.

Quatro anos passam rápido. O mandato de Malta caminha para o fim. A pergunta que o primeiro turno deixa na mesa do PL capixaba é simples. Um partido que acaba de ver um estreante levar 419.735 votos numa Kombi, e um deputado estadual puxar cinco cadeiras sem tempo de televisão, ainda precisa de um caudilho para dizer quem pode e quem não pode?

O grande derrotado destas eleições tem nome, sobrenome e cadeira até 2031. A vaga que ele quis entregar em casa ficou com o candidato de Bolsonaro. O recorde que ele não planejou ficou com o garoto que não pediu licença. Cenas dos próximos capítulos.

Em resumo

Quem o texto aponta como o grande derrotado no Espírito Santo?

Magno Malta, senador e vice-presidente do PL, pela derrota de Maguinha ao Senado e pelo esvaziamento da estratégia da família.

Qual foi o resultado do Senado no ES?

Com 100% das urnas, Casagrande fez 995.361 votos e Evair de Melo 982.978. Maguinha ficou em terceiro, com 761.722.

O que a versão dos aliados atribui a Bolsonaro?

O pedido para que Gilvan da Federal voltasse à Câmara e deixasse o Senado para Evair de Melo.

O que a proporcional devolveu?

Lucas Polese se elegeu deputado federal com 419.735 votos, recorde no Estado, e a bancada estadual do PL foi puxada sem o desenho de Malta.