Tecnologia

IA acelera tarefas, mas pode enfraquecer confiança nas equipes

Pesquisa com 1.033 profissionais associa o uso frequente de inteligência artificial a mais autonomia, porém também a menos coordenação e confiança entre colegas.

2026-10-22T09:39:06.000Z · Redação Notícia ES
IA acelera tarefas, mas pode enfraquecer confiança nas equipes

O uso frequente de inteligência artificial pode ampliar a autonomia de profissionais e acelerar tarefas individuais, mas também reduzir conversas que ajudam equipes a coordenar o trabalho. A conclusão vem de uma pesquisa com 1.033 trabalhadores de escritório nos Estados Unidos, distribuídos por mais de 20 setores.

O estudo foi apresentado em artigo da Harvard Business Review reproduzido pelo InfoMoney nesta quinta-feira (22). Os pesquisadores analisaram como a substituição de consultas a colegas por ferramentas de IA afeta a percepção de conhecimento especializado, a confiança mútua e a capacidade de trabalhar em conjunto.

Os participantes que relataram uso mais intenso de IA enxergavam com maior clareza o conhecimento específico de cada colega. Ao mesmo tempo, quanto mais recorriam à ferramenta em vez de procurar outra pessoa, mais percebiam perda de coordenação e enfraquecimento da confiança dentro do grupo.

Ganho individual cobra coordenação

A tecnologia oferece uma resposta rápida, está sempre disponível e raramente cria o desconforto de pedir ajuda. Essa conveniência pode melhorar o ritmo de execução de uma pessoa, mas elimina interações nas quais os integrantes descobrem quem sabe o quê, alinham prioridades e corrigem interpretações antes que elas virem retrabalho.

O problema não é apenas social. Equipes dependem de modelos mentais compartilhados: cada integrante precisa compreender as responsabilidades, limitações e conhecimentos dos demais. Quando a IA ocupa silenciosamente o espaço dessas trocas, o trabalho pode continuar avançando sem que o grupo perceba onde surgiram lacunas de informação.

Uma pesquisa publicada em 2026 na revista científica Communications Psychology encontrou sinal semelhante em experimento com equipes humano‑IA. Grupos que colaboraram com um agente controlado por especialistas tiveram desempenho inferior ao de equipes formadas apenas por pessoas, além de menor comunicação e engajamento, sobretudo nas tarefas mais difíceis.

Os dois trabalhos usam métodos diferentes e não permitem afirmar que toda adoção de IA prejudica equipes. Eles convergem, porém, num alerta: medir apenas velocidade ou volume produzido pode esconder perdas de coordenação, entendimento comum e capacidade de avaliar coletivamente o resultado.

Gestão precisa preservar vínculos

No levantamento com profissionais de escritório, manter contato diário reduziu parte do efeito negativo. Entre usuários frequentes de IA, a comunicação constante apareceu associada a aumento de 28% na coordenação e de 19% na confiança, em comparação com grupos que interagiam menos.

Mensagens assíncronas, registros de decisões e atualizações visíveis podem ajudar porque preservam o fluxo de informação mesmo quando cada pessoa usa ferramentas próprias. Reuniões não precisam crescer em número, mas a equipe precisa saber quais decisões foram apoiadas por IA, quais dados orientaram a resposta e quem revisou o material.

Também pesa a segurança psicológica. Se consultar uma máquina parece menos arriscado do que admitir dúvida diante de um colega, o desenho do trabalho já favorece o isolamento. Líderes podem corrigir esse incentivo valorizando perguntas, revisão entre pares e resultados coletivos, em vez de premiar somente quem entrega mais rápido.

A adoção responsável, portanto, exige indicadores de qualidade do grupo ao lado das métricas individuais. A IA pode continuar útil para pesquisa, rascunhos e automação, mas não substitui as conversas que distribuem conhecimento, revelam erros e constroem confiança. O ganho sustentável aparece quando a ferramenta amplia a equipe sem torná-la um conjunto de pessoas trabalhando sozinhas.