Economia · 2026-11-04 · Redação Notícia ES

Impacto de juros na dívida deveria entrar em análises do Copom, diz economista da FGV

Entenda as propostas de André Lara Resende para a economia, que sugere integrar política fiscal e monetária e atrai reações do mercado.

Impacto de juros na dívida deveria entrar em análises do Copom, diz economista da FGV
Impacto de juros na dívida deveria entrar em análises do Copom, diz economista da FGV

Enquanto o mercado financeiro mantém a desconfiança sobre a capacidade do governo Lula em cortar gastos para controlar a inflação, a proposta de André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, sobre o cálculo da dívida pública e os impactos das altas taxas de juros no déficit governamental movimentou o debate econômico.

Dados e contexto do setor

Carla Beni, economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que as ideias de Resende provocaram um embate entre correntes econômicas ortodoxas e heterodoxas em um “jogo de forças” que provocou um “chilique” no mercado financeiro.

Beni pontua que o mercado aceita discutir controle e corte de gastos públicos, mas “entra em surto” quando o foco se volta para a conta de juros ou para a meta de inflação, tratando o tema como um “tabu”.

Ela destaca que o valor do debate está em abrir espaço para pensar alternativas e conciliar as políticas fiscal e monetária — alinhamento que já vinha sendo defendido por diversos acadêmicos, mas que ganhou maior projeção quando o tema foi proposto por alguém “de dentro do ninho” do mercado financeiro, como é considerado André Lara Resende.

Impactos e informações adicionais

“Quando o Banco Central sobe a Selic para conter a inflação, e metade dos nossos títulos são corrigidos pela Selic, ele dá um tiro na política fiscal”, afirma Beni.

Ela considera o debate “interessantíssimo” e reforça que discutir abertamente o impacto dos juros e a meta de inflação é indispensável para o país.

No artigo, Lara Resende defende que o déficit fiscal é causado pelos juros altos, e propõe a redução gradual da Selic para cerca de 7,5% ao ano, o que o mercado criticou como “tabelamento de juros”.

A estratégia do economista sugere, ainda, criar o Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN) para integrar as metas fiscais e monetárias, neutralizar pressões cambiais usando as reservas internacionais e aliviar o serviço da dívida pública, apontando a queda dos juros como o caminho para o equilíbrio fiscal.

Beni também cita que o atual modelo de metas de inflação, fixado em 3%, é considerado incompatível com a realidade brasileira, e atua como uma “prisão” para o Banco Central.

Para a economista, uma meta histórica de 4,5%, com banda de tolerância de 1,5 ponto percentual, ofereceria maior flexibilidade e evitaria aumentos drásticos na Selic.

A reação à proposta de Lara Resende mostrou uma divisão nos bastidores da economia.

De um lado, o coordenador do programa de governo para 2027, José Sérgio Gabrielli, defendeu abertamente a tese, argumentando que a verdadeira pressão sobre o endividamento vem do custo financeiro da dívida, e que focar o ajuste apenas em metas primárias sufoca o crescimento sem resolver a trajetória do passivo público.

Por outro lado, o ministro da Fazenda interino, Dario Durigan, e o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, apressaram-se em descartar a adoção de teto para os juros ou reuniões oficiais com o economista, evidenciando a força da resistência do setor financeiro no núcleo governista.

A controvérsia seguiu com lideranças políticas como a ministra Gleisi Hoffmann, que elogiou o diagnóstico, enquanto o presidente do PT, Edinho Silva, tentou conter a especulação reafirmando a autoridade da Fazenda.

No artigo, André Lara Resende reconhece que o Brasil “gasta mal” e cita como exemplos as emendas parlamentares, penduricalhos do Judiciário, vinculações de receitas, isenções e subsídios.

Mas, enfatiza que o corte de despesas primárias não é a causa nem a solução principal do desequilíbrio fiscal.

Segundo o autor, nenhum ajuste fiscal focado em corte de gastos, por mais radical que seja, conseguiria produzir um superávit capaz de compensar o peso dos juros sem empurrar o país para uma profunda recessão.

Ao comentar o artigo, Beni argumenta com números. Ela pontua que 46% do orçamento da União é consumido por juros e amortizações e que o relatório de sensibilidade do Banco Central confirma que cada elevação de 1 ponto percentual na Selic gera um custo adicional de R$ 50 bilhões ao Tesouro Nacional.

Cita também que, com a dívida bruta em 82,5% do PIB (R$ 10,9 trilhões), o custo médio do endividamento atingiu 12,68% ao ano, gerando uma despesa nominal bruta com juros de R$ 1,4 trilhão (10,5% do PIB) ou R$ 1,15 trilhão na dívida líquida (8,7% do PIB).

Em resumo

O que aconteceu?

Enquanto o mercado financeiro mantém a desconfiança sobre a capacidade do governo Lula em cortar gastos para controlar a inflação, a proposta de André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, sobre o cálculo da dívida pública e os impactos das altas taxas de juros no déficit governamental movimentou o debate econômico.

Qual é o ponto principal?

Carla Beni, economista e professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que as ideias de Resende provocaram um embate entre correntes econômicas ortodoxas e heterodoxas em um “jogo de forças” que provocou um “chilique” no mercado financeiro.

Quais são os dados mais importantes?

Beni pontua que o mercado aceita discutir controle e corte de gastos públicos, mas “entra em surto” quando o foco se volta para a conta de juros ou para a meta de inflação, tratando o tema como um “tabu”.

Qual é o contexto?

Ela destaca que o valor do debate está em abrir espaço para pensar alternativas e conciliar as políticas fiscal e monetária — alinhamento que já vinha sendo defendido por diversos acadêmicos, mas que ganhou maior projeção quando o tema foi proposto por alguém “de dentro do ninho” do mercado financeiro, como é considerado André Lara Resende.

Quais são os próximos desdobramentos?

“Quando o Banco Central sobe a Selic para conter a inflação, e metade dos nossos títulos são corrigidos pela Selic, ele dá um tiro na política fiscal”, afirma Beni. Ela considera o debate “interessantíssimo” e reforça que discutir abertamente o impacto dos juros e a meta de inflação é indispensável para o país.

Fontes