Inadimplência empresarial atinge recorde de R$ 244 bilhões
Levantamento da Serasa Experian registrou 9,3 milhões de CNPJs negativados em agosto, com micro e pequenas empresas concentrando a maior parte das dívidas.

O Brasil alcançou em agosto de 2026 o recorde de 9,3 milhões de empresas inadimplentes, alta de 14,3% em um ano. As dívidas somaram R$ 244,4 bilhões e atingiram principalmente micro e pequenos negócios, segmento que reúne a ampla maioria dos CNPJs negativados no país.
Os números foram divulgados nesta quarta-feira, 21 de outubro, pela Serasa Experian e publicados inicialmente pela Veja. O boletim econômico da própria empresa e uma reportagem do UOL confirmam os totais: 68,2 milhões de contas atrasadas, média de 7,4 pendências por companhia e dívida média de R$ 26.355,13 para cada CNPJ inadimplente.
A piora não começou agora. Em julho, a série já havia registrado 9,2 milhões de empresas no vermelho e R$ 238,6 bilhões em débitos. Um mês depois, houve acréscimo de cerca de 100 mil negócios negativados e de R$ 5,8 bilhões no estoque devido. A sequência mostra que a redução gradual da taxa básica de juros ainda não chegou com força suficiente ao caixa empresarial.
Pequenos negócios concentram pressão
As micro e pequenas empresas respondiam por 8,8 milhões dos CNPJs inadimplentes e acumulavam R$ 211 bilhões em dívidas. O grupo registrava 61,4 milhões de contas vencidas, o que evidencia uma combinação de grande capilaridade econômica, menor reserva financeira e dependência de crédito de curto prazo para manter folha, fornecedores e tributos em dia.
O setor de serviços concentrava 56% dos negócios com contas atrasadas. O comércio aparecia em seguida, com 32%, enquanto a indústria reunia 8% e o setor primário, 0,9%. A distribuição acompanha a estrutura da economia brasileira, mas também revela a exposição de atividades que dependem do consumo corrente e sofrem rapidamente quando as vendas desaceleram ou o financiamento encarece.
Mais de três quartos das pendências estavam vinculadas a credores não financeiros. Serviços representavam 31,7% das dívidas, bancos e cartões somavam 19,7%, cooperativas respondiam por 8,5%, contas de utilidades chegavam a 6,7% e telefonia, a 6,2%. O quadro mostra que a inadimplência não está restrita aos empréstimos bancários: ela alcança compromissos básicos da operação.
Crédito caro limita recuperação
A busca empresarial por crédito cresceu 11,2% em doze meses, e as concessões de capital de giro de curto prazo avançaram 113,9%. Esse movimento sugere que parte relevante dos empréstimos está sendo usada para sustentar liquidez e despesas imediatas, e não para ampliar capacidade produtiva. Quando o financiamento serve apenas para atravessar o mês, a empresa fica mais vulnerável a novos atrasos.
A Serasa Experian observou que a inflação mais moderada e os cortes de juros começaram a oferecer algum alívio, mas o efeito sobre as condições de crédito tende a ser gradual. Em setembro, a Selic caiu para 13,75% ao ano, ainda em nível restritivo. O custo elevado dificulta a renegociação de débitos antigos e reduz o espaço para investimentos que poderiam aumentar receita e produtividade.
Regionalmente, o Sudeste concentrou o maior volume de empresas negativadas. São Paulo liderava com 3,17 milhões de CNPJs, seguido por Minas Gerais, com 927 mil, e Rio de Janeiro, com 879 mil. A concentração também reflete o número de empresas formalizadas nesses estados; por isso, os totais absolutos não devem ser confundidos automaticamente com maior taxa proporcional de inadimplência.
O recorde exige leitura além do número principal. A desaceleração da alta anual, de 28,7% para 14,3%, indica menor velocidade de piora, mas não uma reversão. Para que o estoque recue, negócios precisam recuperar margem, alongar passivos e voltar a pagar obrigações correntes. Até que isso aconteça, os 9,3 milhões de CNPJs funcionam como sinal de pressão persistente sobre emprego, fornecedores e arrecadação.
Em resumo
O levantamento registrou 9,3 milhões de CNPJs negativados em agosto de 2026.
As 68,2 milhões de contas atrasadas somavam R$ 244,4 bilhões.
Micro e pequenas empresas reuniam 8,8 milhões de CNPJs e R$ 211 bilhões em dívidas.
Serviços responderam por 56% das empresas negativadas, seguidos pelo comércio, com 32%.
Não. O crédito ainda permanece caro e o efeito dos cortes sobre o caixa empresarial tende a ser gradual.