Inter projeta alívio lento dos juros e da inadimplência
Economista-chefe do banco vê espaço para novos cortes da Selic, mas alerta que o quadro fiscal e a inflação limitam a velocidade da melhora.

A política fiscal e a inflação ainda limitam a velocidade de queda dos juros e o alívio financeiro das famílias, segundo avaliação apresentada pelo Inter em Belo Horizonte. A economista-chefe Rafaela Vitória projeta redução gradual da Selic e uma melhora também lenta da inadimplência até o fim de 2026, sujeita a riscos domésticos e externos.
O diagnóstico foi apresentado durante o Inter Invest Summit, realizado neste sábado (26), e publicado pela CNN Brasil na madrugada de domingo. Uma entrevista concedida por Vitória ao NeoFeed antes do evento confirma a projeção de mais dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa básica, para 13,25% ao ano, além da expectativa de que a inadimplência esteja próxima de um pico antes de começar a ceder.
A segunda edição do encontro ocorreu na Arena MRV e reuniu executivos, economistas e especialistas em finanças. A programação oficial previa oito horas de conteúdo e um painel específico sobre eleições e economia com Rafaela Vitória. O evento também abordou investimentos, comportamento financeiro, ativos digitais e uso de inteligência artificial no mercado.
Queda depende do quadro fiscal
Na avaliação relatada pela CNN, os estímulos fiscais ampliaram a demanda e contribuíram para pressionar a inflação, o que ajuda a explicar o ritmo cauteloso dos cortes de juros. O argumento é que gastos e crédito sustentam consumo e atividade, mas podem reduzir o espaço do Banco Central para aliviar rapidamente a política monetária quando os preços continuam sob pressão.
Vitória disse ao NeoFeed que o cenário-base do Inter considera mais dois cortes de 0,25 ponto percentual até o fim do ano. A projeção levaria a Selic a 13,25%. Trata-se de uma estimativa da instituição, não de uma decisão já tomada: o Copom reavalia a taxa a cada reunião, com base em inflação, expectativas, atividade econômica, câmbio e condições financeiras.
O banco também identifica riscos capazes de interromper essa trajetória. Entre eles estão uma inflação persistentemente elevada, a reação do dólar a anúncios fiscais e a alta do petróleo. Se esses fatores contaminarem preços e expectativas, o Banco Central poderá reduzir o ritmo dos cortes ou, em um cenário adverso, voltar a elevar a taxa.
Para as famílias, a transmissão da Selic não é imediata. Empréstimos, cartões e renegociações dependem do custo de captação das instituições, do risco de cada tomador e da concorrência entre bancos. Por isso, mesmo quando a taxa básica cai, o custo final do crédito pode demorar a recuar e variar muito entre modalidades.
Crédito reage com atraso
O NeoFeed registrou que o endividamento alcançou 82% das famílias em julho e agosto, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio citada na entrevista. Vitória avalia que a inadimplência ainda deve piorar no terceiro trimestre, antes de apresentar recuperação gradual. Segundo ela, o aperto monetário age com defasagem, enquanto estímulos fiscais e creditícios prolongaram o crescimento do crédito.
A economista também demonstrou ceticismo sobre o efeito estrutural de novos programas de renegociação. Na visão apresentada, as edições anteriores do Desenrola tiveram impacto limitado sobre a qualidade do crédito e a inadimplência no longo prazo. O CEO Brasil do Inter, Alexandre Riccio, afirmou ao mesmo veículo que o programa não alterou de forma relevante o comportamento estrutural da carteira do banco.
Renegociar dívidas pode aliviar parcelas e retirar restrições de consumidores, mas não resolve sozinho a diferença entre renda e despesas recorrentes. Para que a inadimplência recue de forma consistente, pesam também emprego, renda real, inflação, custo do crédito e capacidade de planejamento do orçamento doméstico. Essa combinação explica por que a expectativa de melhora é gradual, mesmo com juros básicos em queda.
Os próximos sinais virão das decisões do Copom, dos índices de preços e das pesquisas de endividamento. A projeção do Inter aponta uma direção de alívio, mas não uma reversão rápida. Para consumidores e investidores, a leitura mais prudente é acompanhar a velocidade dos cortes e a resposta efetiva das taxas cobradas nas operações de crédito, sem tratar estimativas como garantias.
Em resumo
O banco projeta mais dois cortes de 0,25 ponto percentual até o fim de 2026, levando a taxa a 13,25% ao ano.
A inflação e os estímulos fiscais mantêm a demanda aquecida e reduzem o espaço para cortes rápidos, segundo a economista-chefe do Inter.
O cenário-base apresentado aponta um pico no terceiro trimestre e uma redução lenta na parte final do ano.
Não. É uma estimativa do Inter; cada decisão da Selic cabe ao Copom e depende dos dados econômicos.
Inflação persistente, dólar mais alto após frustração fiscal e valorização do petróleo estão entre os riscos citados.