Itamaraty acusa Milei de interferir na eleição brasileira
Governo brasileiro classificou manifestação do presidente argentino como ingerência externa após publicação sobre o segundo turno presidencial.

O Itamaraty acusou nesta terça-feira (20) o presidente argentino, Javier Milei, de tentar interferir no segundo turno da eleição brasileira. A reação ocorreu depois de o argentino publicar uma mensagem ofensiva ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e levantar a possibilidade de tentativa de fraude no pleito de domingo (25).
A Revista Oeste noticiou a nota do Ministério das Relações Exteriores, e a CNN Brasil confirmou o teor da resposta diplomática. O governo brasileiro classificou a manifestação como desequilibrada, antidemocrática e incompatível com a postura esperada do chefe de Estado de um país vizinho.
Milei escreveu nas redes sociais que esperava que a última estratégia da campanha adversária não envolvesse roubar a eleição. Na mesma publicação, chamou Lula de ladrão e criticou setores progressistas. O presidente argentino já declarou apoio público a Flávio Bolsonaro no segundo turno brasileiro.
Nota amplia atrito diplomático
O Itamaraty afirmou que Milei repetiu mentiras difundidas por grupos derrotados na eleição de 2022 e relacionou a mensagem aos responsáveis pelos atos de 8 de janeiro de 2023. A pasta também disse que a definição do futuro político do Brasil cabe exclusivamente aos eleitores, sem ingerência estrangeira.
A resposta amplia uma crise bilateral que se agravou durante a campanha eleitoral. Em agosto, o Brasil reduziu o nível da representação diplomática em Buenos Aires após declarações anteriores de Milei contra Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
O governo brasileiro manteve o embaixador Júlio Bitelli em território nacional, enquanto a representação argentina em Brasília passou a funcionar sob comando de um encarregado de negócios. A nova troca de acusações ocorre a cinco dias da votação e torna mais difícil uma normalização imediata das relações.
Fala não citou urnas
A publicação de Milei mencionou a possibilidade de roubo da eleição, mas não citou diretamente as urnas eletrônicas. Esse ponto é relevante porque parte da reação oficial apresentou a mensagem como uma repetição dos questionamentos feitos ao sistema de votação brasileiro.
A crítica do Itamaraty, portanto, combina dois elementos: a ofensa pessoal contra o presidente brasileiro e a insinuação de fraude eleitoral. Até a noite desta terça-feira, a Presidência argentina não havia divulgado uma retratação nem esclarecido se Milei pretendia questionar formalmente o processo eleitoral.
A diplomacia brasileira também não anunciou nova convocação de representantes ou outra medida além da nota pública. Qualquer providência adicional poderá depender de novas manifestações do governo argentino e do ambiente político depois do segundo turno.
A controvérsia passou a integrar a disputa presidencial porque Milei participou da convenção que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro. A manifestação estrangeira, porém, não altera as regras da votação: a organização e a fiscalização do pleito continuam sob responsabilidade da Justiça Eleitoral brasileira.
Em resumo
O governo brasileiro reagiu a uma publicação em que Milei ofendeu Lula e levantou a possibilidade de fraude na eleição.
A nota chamou a fala de tentativa de ingerência externa, manifestação desequilibrada e atitude antidemocrática.
Não diretamente; ele falou em possível roubo da eleição, mas não citou o sistema eletrônico de votação.
Até a noite de 20 de outubro, não havia retratação ou resposta oficial divulgada pela Presidência argentina.
O Itamaraty divulgou a nota, mas não anunciou naquele momento convocação de representantes ou sanção adicional.