Judiciário reduz estoque de processos enquanto acelera uso de IA e integração contra crimes complexos
Dados do CNJ mostram 75,5 milhões de processos em tramitação ao fim de 2025, queda de 4,3%, enquanto novas ferramentas digitais e acordos internacionais tentam responder a litígios em massa e crimes que atravessam fronteiras.

O Judiciário brasileiro terminou 2025 com menos processos acumulados, mesmo diante do maior número de casos novos da série histórica. Ao mesmo tempo, tribunais aceleram a adoção de inteligência artificial e sistemas digitais, enquanto forças de segurança ampliam a cooperação internacional para enfrentar crimes organizados e cibernéticos que não respeitam fronteiras. Os dados ajudam a colocar em perspectiva o debate sobre lentidão judicial e a capacidade das instituições de responder a uma economia cada vez mais digital.
Segundo o relatório Justiça em Números 2026, do Conselho Nacional de Justiça, o país encerrou 2025 com 75,5 milhões de processos em tramitação. O estoque caiu 4,3%, ou 3,4 milhões de casos, em relação ao ano anterior. No mesmo período, ingressaram 40,9 milhões de processos, o maior volume registrado desde o início da série, em 2009.
Mais processos foram encerrados do que recebidos
O Índice de Atendimento à Demanda chegou a 110,4%. Na prática, para cada 100 processos que entraram no Judiciário em 2025, aproximadamente 110 foram baixados. A taxa de congestionamento ficou em 62,6%, com queda de 0,8 ponto percentual.
Apesar da melhora, os números mostram que a lentidão continua concentrada em áreas específicas. As execuções fiscais registraram taxa de congestionamento de 72,4% e levaram, em média, 8 anos e 2 meses para serem baixadas. Quando esse tipo de processo é retirado do cálculo, o tempo médio dos processos baixados cai de 2 anos e 4 meses para 1 ano e 6 meses.
Esses dados relativizam diagnósticos gerais de que todo o sistema funciona da mesma forma. Há gargalos severos, especialmente em cobranças fiscais e litígios repetitivos, mas também houve redução real do estoque e aumento de produtividade.
Inteligência artificial ganha espaço
O CNJ passou a nacionalizar ferramentas de inteligência artificial desenvolvidas por tribunais. Em agosto, a plataforma LIA3R, criada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região, foi disponibilizada por meio do programa Conecta. Segundo o Conselho, a ferramenta reúne mais de 2.330 comandos ativos, 450 bases de dados e já resumiu aproximadamente 1,55 milhão de peças em 106 mil processos.
Outras soluções procuram identificar ações repetitivas ou abusivas. Ferramentas como Berna e Bastião analisam petições e padrões de documentos para sinalizar litigância em massa. A promessa é reduzir trabalho manual e permitir que magistrados e servidores concentrem atenção em tarefas que exigem análise jurídica mais complexa.
O avanço também exige controles. Uso de IA em decisões judiciais envolve questões de segurança de dados, transparência, supervisão humana e risco de erro. Por isso, a tecnologia funciona como apoio e não substitui a responsabilidade de magistrados e servidores pelos atos processuais.
Crime também se tornou mais digital e transnacional
O desafio não se limita ao volume de processos. Organizações criminosas operam em diferentes estados e países, usam sistemas financeiros, criptografia, redes digitais e estruturas empresariais para movimentar recursos. Em fevereiro, a Interpol e o Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil anunciaram acordo para criar uma força-tarefa regional de combate ao crime organizado na América do Sul.
A iniciativa prevê especialistas de vários países e conexão com estruturas como o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia. O objetivo é acelerar intercâmbio de inteligência, rastreamento de criminosos, recuperação de ativos e investigações que cruzam fronteiras.
Em abril, a Polícia Federal participou de uma operação internacional contra serviços de ataques cibernéticos do tipo DDoS, coordenada com apoio da Europol e envolvendo 21 países. Em agosto, outra investigação da PF sobre exploração sexual de brasileiras na França foi conduzida a partir de cooperação com autoridades francesas.
Resposta institucional precisa acompanhar a velocidade do crime
Uma coluna da Tribuna Online que originou esta pauta questionou a passividade e a lentidão dos sistemas judiciais diante da economia digital e do crime globalizado. Os dados oficiais mostram um quadro mais complexo. O Judiciário conseguiu reduzir o estoque processual, mas ainda convive com dezenas de milhões de casos e gargalos que levam anos. Ao mesmo tempo, a transformação tecnológica está em curso, tanto na Justiça quanto nas investigações policiais.
O problema passa a ser menos a ausência de ferramentas e mais a velocidade, a integração e a qualidade do uso desses instrumentos. Sistemas digitais precisam conversar entre si, investigações transnacionais dependem de cooperação rápida e a IA precisa aumentar eficiência sem comprometer garantias processuais.
O cenário de 2026 mostra instituições em movimento, mas também uma corrida permanente contra novas formas de litigância e criminalidade. A capacidade de reduzir prazos, integrar dados e preservar direitos será uma das medidas mais concretas para avaliar se a modernização está produzindo resultados para a sociedade.
Fontes consultadas: Tribuna Online, publicação que originou a pauta; Conselho Nacional de Justiça, relatório Justiça em Números 2026 e informações sobre ferramentas de inteligência artificial; Polícia Federal, operações de cooperação internacional; Interpol, acordo com o Brasil para combate ao crime organizado na América do Sul.