Política Nacional · 2026-09-01 · Redação Notícia ES

Justiça cobra mais provas antes de liberar dados financeiros de produtora de “Dark Horse”

Vara das Garantias devolveu pedido da Polícia Civil de São Paulo para acesso a informações financeiras de Karina Ferreira da Gama e exigiu fundamentação adicional; inquérito sobre contrato municipal foi prorrogado por mais 90 dias.

Justiça cobra mais provas antes de liberar dados financeiros de produtora de “Dark Horse”
Justiça cobra mais provas antes de liberar dados financeiros de produtora de “Dark Horse”

A Justiça de São Paulo devolveu à Polícia Civil, sem autorizar por enquanto, um pedido de acesso a dados financeiros da empresária Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment, produtora do filme “Dark Horse”. A Vara Estadual das Garantias considerou que a polícia precisa apresentar elementos mais concretos para justificar a medida e indicou que parte da argumentação encaminhada até agora se apoiava em informações divulgadas pela imprensa.

A decisão representa um novo capítulo do inquérito que apura suspeitas relacionadas a um contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, entidade também presidida por Karina. A investigação tenta esclarecer se houve irregularidades na contratação e na execução do serviço de wi-fi gratuito em comunidades e se recursos públicos circularam de forma indevida entre o instituto e empresas ligadas à produção cinematográfica.

Pedido de acesso financeiro terá de ser reforçado

A Polícia Civil havia solicitado acesso a informações financeiras e relatórios relacionados a Karina e à produtora. A Vara das Garantias não encerrou a possibilidade de autorizar a medida, mas exigiu fundamentação adicional antes de decidir.

O acesso a dados protegidos por sigilo é uma medida invasiva e, por isso, depende de demonstração de pertinência, necessidade e vínculo com os fatos investigados. A cobrança feita pela Justiça indica que o material apresentado pela polícia ainda não foi considerado suficiente para superar esse patamar de proteção.

Segundo a reportagem que revelou a nova decisão, o juízo também apontou a necessidade de separar indícios produzidos pela investigação de informações originadas apenas em reportagens. O recado processual é que notícia jornalística pode provocar apuração, mas a quebra de sigilo exige elementos próprios reunidos pela autoridade policial.

Inquérito foi prorrogado por 90 dias

Ao mesmo tempo em que devolveu o pedido sobre dados financeiros, a Justiça autorizou a continuidade do inquérito por mais 90 dias. A investigação, portanto, segue ativa e poderá reunir novos documentos, depoimentos, perícias e elementos bancários obtidos por outras vias legais.

O caso começou a ganhar dimensão nacional em junho, quando a Polícia Civil realizou buscas em endereços ligados à Go Up Entertainment, ao Instituto Conhecer Brasil e à Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. A apuração nasceu de suspeitas sobre a execução do contrato de wi-fi e sobre possíveis pagamentos por serviços não prestados ou com valores questionados.

Contrato municipal está no centro da apuração

O Instituto Conhecer Brasil foi contratado para disponibilizar milhares de pontos de internet gratuita na capital paulista. A polícia investiga se houve fraude na contratação, sobrepreço, falhas na prestação do serviço ou emprego irregular de recursos públicos.

A Prefeitura de São Paulo afirma que colaborou com as investigações e que a contratação seguiu os princípios legais. Também sustenta que a maior parte dos pontos previstos estava em funcionamento quando a operação foi realizada. O prefeito Ricardo Nunes já classificou a investigação como politicamente contaminada, enquanto a Polícia Civil afirma atuar com base em elementos reunidos no inquérito.

Karina Ferreira da Gama negou irregularidades e rejeitou a existência de vínculo ilícito entre recursos públicos e a produção de “Dark Horse”. A defesa da empresária também buscou no Supremo Tribunal Federal a suspensão da investigação estadual, argumentando que fatos relacionados ao financiamento do filme já aparecem em apurações sob competência da Corte.

Filme aparece em investigações paralelas

“Dark Horse” é uma produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro e passou a ser citado em investigações depois da revelação de movimentações financeiras envolvendo pessoas e empresas ligadas ao projeto. O senador Flávio Bolsonaro confirmou ter buscado financiamento privado para o filme junto ao então banqueiro Daniel Vorcaro, mas nega qualquer irregularidade.

Outras apurações federais analisam se recursos privados ligados ao projeto tiveram destinos diferentes dos declarados ou se se conectam a investigações sobre emendas parlamentares. Essas linhas de investigação não significam, por si só, prova de crime e precisam ser tratadas separadamente para evitar conclusões antecipadas.

O ministro Flávio Dino, do Supremo, autorizou a Polícia Federal a acessar materiais reunidos pela Polícia Civil paulista. A medida permite cruzamento de informações entre investigações, mas não substitui a necessidade de autorização judicial específica para determinadas quebras de sigilo.

Próximo passo será produzir prova própria

Com a devolução do pedido, a Polícia Civil terá de complementar a fundamentação caso queira insistir no acesso aos dados financeiros. A prorrogação do inquérito fornece tempo para reunir novos elementos e responder aos questionamentos da Vara das Garantias.

A decisão também reforça uma distinção importante: a existência de uma investigação não equivale a confirmação das suspeitas. Até o momento, há hipóteses sob apuração, versões contraditórias e decisões processuais sobre quais provas podem ou não ser obtidas.

O caso seguirá em duas frentes principais. Em São Paulo, a polícia tenta demonstrar se houve irregularidades no contrato municipal e eventual circulação indevida de recursos. Na esfera federal, autoridades examinam conexões do financiamento do filme com outros inquéritos. O avanço de qualquer acusação dependerá da produção de provas independentes e do controle judicial sobre as medidas investigativas.

Fontes