Política Nacional · 2026-09-01 · Redação Notícia ES

Justiça de SP cobra provas da polícia antes de autorizar devassa financeira em produtora de “Dark Horse”

Vara de Garantias devolveu pedido da Polícia Civil sem decisão e exigiu elementos objetivos para justificar acesso a relatórios financeiros de empresária ligada à produtora do filme sobre Jair Bolsonaro.

Justiça de SP cobra provas da polícia antes de autorizar devassa financeira em produtora de “Dark Horse”
Justiça de SP cobra provas da polícia antes de autorizar devassa financeira em produtora de “Dark Horse”

A Vara Estadual das Garantias de São Paulo devolveu à Polícia Civil, sem conceder nem negar definitivamente o pedido, uma solicitação de acesso a dados financeiros da empresária Karina Ferreira da Gama e da empresa Go Up Entertainment, produtora ligada ao filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O despacho exige que os investigadores detalhem quais provas concretas já foram reunidas e expliquem por que o acesso a relatórios de inteligência financeira seria necessário e proporcional.

A decisão foi registrada no Diário de Justiça e passou a ser divulgada nesta terça-feira, 1º de setembro. A investigação paulista examina suspeitas relacionadas a contratos de tecnologia firmados pela Prefeitura de São Paulo com o Instituto Conhecer Brasil, o ICB. A polícia apura se houve confusão patrimonial entre o instituto e empresas privadas vinculadas a pessoas investigadas, entre elas a produtora responsável pelo longa-metragem.

Juízo quer elementos além de reportagens

O pedido policial buscava autorização para acessar relatórios de inteligência financeira produzidos a partir de comunicações de operações consideradas atípicas. A Vara de Garantias pediu que a Polícia Civil indique quais documentos, depoimentos ou outros elementos já incorporados ao inquérito sustentam as suspeitas, de forma independente de notícias publicadas pela imprensa.

O despacho também questionou por que a empresária deveria ser incluída pessoalmente na pesquisa financeira, e não apenas as pessoas jurídicas, e solicitou justificativa para o período de movimentações que a polícia pretendia alcançar. A exigência está alinhada ao entendimento de que medidas invasivas devem ter objeto delimitado e fundamento concreto, evitando buscas genéricas por possíveis irregularidades.

Investigação cita contrato de R$ 108 milhões

Segundo informações do processo divulgadas por veículos que tiveram acesso ao caso, a apuração teve origem em representação do Ministério Público relacionada a contrato de aproximadamente R$ 108 milhões entre o ICB e a Prefeitura de São Paulo. Investigadores registraram suspeitas sobre diferenças entre valores pagos e serviços efetivamente prestados no projeto de conectividade pública.

A polícia também avalia se recursos relacionados à estrutura do instituto tiveram algum vínculo com atividades privadas. Essa hipótese ainda precisa ser demonstrada por provas. O fato de uma empresa ou pessoa constar em uma investigação não significa que tenha cometido irregularidade, e o despacho judicial desta semana reforça justamente a necessidade de sustentação objetiva antes de autorizar acesso a informações protegidas.

Outras apurações alcançam a produtora

O caso ganhou dimensão nacional porque a produtora de “Dark Horse” também aparece em outras apurações. Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o compartilhamento de provas do inquérito paulista com a Polícia Federal, que investiga outro conjunto de fatos envolvendo recursos recebidos pela produtora.

O filme sobre Jair Bolsonaro também entrou no noticiário após a divulgação de informações sobre pedidos de apoio financeiro feitos por Flávio Bolsonaro a empresários. O senador, atual candidato à Presidência, afirmou que os recursos buscados eram privados e negou irregularidades. A existência de pedidos de financiamento, isoladamente, não comprova desvio de dinheiro público.

Com a devolução do pedido, a Polícia Civil poderá complementar a fundamentação e reenviar a solicitação. A Justiça então decidirá se os requisitos legais foram atendidos. O inquérito teve prazo prorrogado por mais 90 dias, permitindo novas diligências antes de eventual conclusão.

Fontes