Cultura · 2026-10-16 · Redação Notícia ES

Livro argumenta que voto se organiza por valores e estruturas mentais, não por fatos

Atônita com o resultado das urnas, a esquerda se perguntou como era possível que tanta gente tivesse votado na direita . Esses eleitores não entendiam o que era melhor para eles? Leia mais (10/16/2026 - 04h00)

Livro argumenta que voto se organiza por valores e estruturas mentais, não por fatos
Livro argumenta que voto se organiza por valores e estruturas mentais, não por fatos

Atônita com o resultado das urnas, a esquerda se perguntou como era possível que tanta gente tivesse votado na direita . Esses eleitores não entendiam o que era melhor para eles?

Pergunta não é de hoje

A pergunta não é de hoje. Em 2004, nos Estados Unidos, muita gente tentava entender o sucesso eleitoral de George W. Bush .

Seu xará, o linguista George Lakoff , professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, ele próprio um progressista, também quis saber como os republicanos tinham conseguido fincar o pé na Casa Branca.

Em particular, perguntou-se o linguista, como podiam ter conquistado tantos votos quando defendiam políticas que, a exemplo das isenções de impostos para os ricos, beneficiavam apenas uma minoria?

Lakoff fez carreira estudando metáforas, por isso não espanta

Lakoff fez carreira estudando metáforas, por isso não espanta que tenha apostado na linguagem como a melhor explicação para o sucesso da direita.

A força eleitoral dos republicanos não vinha exatamente das suas ideias, mas do modo como eles apresentavam suas propostas, conectando-se com valores profundos do eleitorado.

A resposta aparece no livro "Não Pense num Elefante: Entenda Seus Valores e Aprenda a Enquadrar o Debate", que a Fósforo oportunamente publicou, não faz muito tempo, no Brasil.

Mais do que alguém que escolhe os candidatos de maneira racional, comparando propostas, ponderando fatos e informações confiáveis, os eleitores se movem por valores, defende Lakoff.

"Progressistas têm a ilusão de que, se as pessoas entendessem os fatos, ficaria tudo certo", ele escreveu, na introdução à primeira edição do livro. "Errado."

"Os fatos sozinhos não convencem ninguém", complementa a roteirista e produtora Alessandra Orofino , convidada a fazer a apresentação da edição brasileira do livro.

"As pessoas tomam decisões políticas baseadas em seus sistemas de valores e na linguagem que evoca esses valores", ela escreve, ao oferecer uma síntese das ideias de Lakoff.

O livro espalhou, como um rastilho de pólvora, o conceito de "enquadramento" no debate político americano. "Quadros mentais", segundo Lakoff, são estruturas de pensamento que moldam a maneira como vemos o mundo; esquemas, em grande parte inconscientes, que organizam a realidade.

A direita, argumenta o linguista, tem grande habilidade na construção e manipulação de quadros mentais. Veja o caso de "alívio fiscal" ("tax relief", no original).

Os impostos, segundo esse enquadramento, são apresentados como algo que pesa sobre o cidadão, que o aflige –e o governo republicano vem em seu socorro, aliviando-o desse fardo.

O fato de que o corte de impostos diminua a arrecadação, dificulte a redistribuição de renda e a provisão de serviços públicos fica em segundo plano, nesse enquadramento.

Segundo Lakoff, o uso habilidoso de metáforas e imagens desse tipo permitiu que a direita reorganizasse , desde os anos 1970, o debate público nos Estados Unidos.

Se a esquerda quiser voltar a ditar os termos da conversa política, argumenta o autor, o melhor que tem a fazer é copiar a estratégia dos conservadores.

Como diria Don Draper, o publicitário protagonista da série "Mad Men", "se você não gosta do que está sendo dito, mude a conversa".

Até aí, tudo bem. Os problemas do livro de Lakoff começam quando ele pula da linguística para o estudo da ideologia, fazendo um uso bastante liberal, digamos assim, da ciência cognitiva.

Segundo Lakoff, há duas metáforas familiares básicas –que dizem respeito à função dos pais, nas famílias– que organizam os quadros mentais de todas as pessoas, à esquerda e à direita.

A ideia é que a nação é vista, mesmo que inconscientemente, como uma família. Nessa nação-família , a atuação do governo é análoga à dos pais, e os cidadãos são como filhos.

Entre quem é de direita, predominaria o modelo de um pai severo, disciplinador. Quem é de direita acredita que o mundo é um lugar perigoso e competitivo. As crianças não estão preparadas para esse mundo, porque buscam sobretudo a autossatisfação.

Um bom pai deve discipliná-las , a fim de que desenvolvam o autocontrole necessário para alcançar sucesso nesse mundo difícil. É o comportamento moral que leva à prosperidade.

"Consideremos as implicações disso para os programas sociais: é imoral dar às pessoas coisas que elas não fizeram por merecer, porque assim elas não desenvolvem disciplina e se tornam dependentes e imorais", escreve o linguista.

Em resumo

O que aconteceu?

Atônita com o resultado das urnas, a esquerda se perguntou como era possível que tanta gente tivesse votado na direita . Esses eleitores não entendiam o que era melhor para eles?

Qual é o ponto principal?

A pergunta não é de hoje. Em 2004, nos Estados Unidos, muita gente tentava entender o sucesso eleitoral de George W. Bush . Seu xará, o linguista George Lakoff , professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, ele próprio um progressista, também quis saber como os republicanos tinham conseguido fincar o pé na Casa Branca.

Quais são os dados mais importantes?

Em particular, perguntou-se o linguista, como podiam ter conquistado tantos votos quando defendiam políticas que, a exemplo das isenções de impostos para os ricos, beneficiavam apenas uma minoria?

Qual é o contexto?

Lakoff fez carreira estudando metáforas, por isso não espanta que tenha apostado na linguagem como a melhor explicação para o sucesso da direita. A força eleitoral dos republicanos não vinha exatamente das suas ideias, mas do modo como eles apresentavam suas propostas, conectando-se com valores profundos do eleitorado.

Quais são os próximos desdobramentos?

A resposta aparece no livro "Não Pense num Elefante: Entenda Seus Valores e Aprenda a Enquadrar o Debate", que a Fósforo oportunamente publicou, não faz muito tempo, no Brasil.

Fontes