Lula inaugurou a fábrica do amigo, recebeu Vorcaro fora da agenda e agora prefere o silêncio
A linha do tempo reúne a inauguração da Biomm, a participação acionária ligada ao Banco Master, a reunião de Daniel Vorcaro fora da agenda oficial e o silêncio do Planalto diante dos novos desdobramentos.

Em 26 de abril de 2024, Luiz Inácio Lula da Silva foi a Nova Lima, na Grande Belo Horizonte, inaugurar a fábrica de insulina da Biomm. A Folha noticiou o ato como pauta de saúde. Título: ‘Lula e Nísia inauguram fábrica de produção de insulina’. Nem uma linha sobre o maior acionista individual da empresa.
Esse acionista era o Fundo Cartago, ligado ao Banco Master de Daniel Vorcaro, com 25,86% do controle. No palanque, ao lado do presidente, estava Walfrido dos Mares Guia, ex-ministro de Lula, amigo pessoal e sócio da farmacêutica. Vorcaro não apareceu na foto. O Ministério da Saúde já tinha contratos de fornecimento de insulina ao SUS que somam R$ 303,6 milhões. BNDESPar também figura no capital.
A Folha vendeu o evento como retomada da produção nacional depois da escassez. A placa ficou. A pergunta sobre quem lucra com a placa não entrou na matéria.
Sete meses depois, em 4 de dezembro de 2024, Vorcaro entrou no Palácio do Planalto sem constar na agenda oficial. Levado por Guido Mantega, então consultor do Master, pediu para falar com Lula. O presidente chamou Rui Costa, Alexandre Silveira e Gabriel Galípolo, então indicado ao Banco Central. O encontro durou cerca de uma hora e meia.
Na saída, Vorcaro mandou mensagem à namorada: ‘Foi ótimo.’ Depois: ‘Muito forte. Ele chamou o presidente do Banco Central que vai entrar e 3 ministros.’ A conversa vazou da quebra de sigilo do celular do banqueiro. Lula, mais tarde, admitiu o encontro e disse que avisou: não haveria posição política ‘pró ou contra’ o Master, só investigação técnica do BC. Fontes do Poder360 relatam outro recado na mesma sala: crítica a Campos Neto e a André Esteves, e a orientação para Vorcaro não vender o banco ao BTG por R$ 1.
A sequência é simples. O fundo do banqueiro vira o maior sócio da fábrica do amigo do presidente. O presidente inaugura a fábrica. O banqueiro, já sob pressão de liquidez, é recebido fora da pauta com o futuro chefe do Banco Central na mesa. O banqueiro sai dizendo que foi ótimo.
Quando o Master quebrou e a PF prendeu Vorcaro, Lula passou a chamá-lo de golpista e a dizer que ‘falta vergonha na cara’ a quem o defende. O encontro fora da agenda, a inauguração e os R$ 303 milhões em contrato com a Saúde ficaram para o segundo parágrafo, quando apareceram.
O que a grande imprensa fez com o fato
Em abril de 2024, Folha e g1 trataram Nova Lima como política industrial e SUS. Vorcaro não era personagem. Em janeiro de 2026, quando o escândalo do Master já estava na mesa, Poder360, Gazeta do Povo e Oeste reconstruíram a participação acionária. Folha e Estadão confirmaram o encontro de dezembro. O Globo, por Lauro Jardim, tinha noticiado a reunião no ano anterior, sem explodi-la em capa.
Nesta semana o quadro mudou de lugar. André Mendonça tirou o sigilo do relatório da PF sobre as mensagens de Vorcaro com Alexandre de Moraes. O banqueiro pergunta, dois dias antes da prisão: ‘Acha que segunda já tenho que estar fora?’ Pede para ‘segurar’ Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. A PF aponta que Moraes editou contrato de R$ 131 milhões do escritório da mulher com o Master. Gonet, citado no mesmo material, pediu a nulidade da apuração em tempo recorde. Mendonça quer levar o caso ao plenário. Lula, depois de café recente com Moraes e de conversas com Fachin e Gilmar, não falou uma palavra sobre o mérito.
A Veja chegou a registrar o silêncio: ex-ministros cobram apuração, o presidente se cala. É o máximo de simetria que a revista admitiu nesta semana. Folha e g1 abriram espaço para o pedido de nulidade da PGR e para o ‘entendimento’ do caso. O verbo muda. Quando o alvo é o outro campo, o título acusa. Quando o alvo é o Planalto ou o ministro aliado, o título explica.
O caso espelho
Inverta os nomes. Um presidente de direita inaugura fábrica cujo maior acionista é um banqueiro depois liquidado por fraude de bilhões. Recebe o mesmo banqueiro fora da agenda, chama o futuro presidente do Banco Central para a sala e ouve o empresário sair dizendo que a reunião foi ‘muito forte’. A mulher de um ministro do STF fatura contrato de nove dígitos com o banco. O banqueiro pergunta ao ministro se já deve deixar o país. A PGR, também citada nas mensagens, pede para anular o relatório.
Essa matéria teria capa, editoria, verbo no presente e três semanas de desdobramento. A Folha de abril de 2024 prova o ponto: o mesmo evento, com outro enquadramento, virou nota de insulina.
O Dark Horse e o nome de Flávio Bolsonaro reaparecem no mesmo pacote de cobertura desta semana, no mesmo fôlego das mensagens de Moraes. Um lado vira personagem permanente. O outro ganha o direito ao silêncio tático, com o argumento de que ‘receber alguém não implica compromisso’. A frase é da ministra Luciana Santos, em março, sobre o encontro de Lula com Vorcaro. Serve de manual.
Quem tem interesse no silêncio
O Planalto precisa descolar o governo do Master a um mês da eleição. O Supremo precisa decidir se ministro da própria Corte se investiga no plenário ou se a prova some por vício de iniciativa. A PGR precisa explicar por que o parecer de nulidade saiu em hora e meia, enquanto processos comuns dormem meses na gaveta. A Biomm precisa que o contrato de insulina continue sendo lido como política de saúde, não como socorro societário. Folha, Globo e Estadão precisam manter a tese de que o encontro de dezembro foi ‘técnico’ e que a inauguração de abril foi ‘industrial’.
Nada disso apaga o registro. Agenda oficial omitida. Mensagem ‘foi ótimo’. Fábrica do amigo. Maior fatia nas mãos do fundo do banqueiro. Contrato público de R$ 303 milhões. Relatório da PF com pedido de proteção a Moraes, Gonet e Andrei. Pedido de nulidade assinado por quem aparece no mesmo relatório.
A regra que deveria valer para os dois
Se reunião fora da pauta com banqueiro sob alerta do Banco Central é fato grave, é fato grave com qualquer presidente. Se inaugurar fábrica do sócio do investigado exige transparência sobre o capital, exige no dia da placa, não dois anos depois. Se mensagem pedindo para ‘segurar’ a PF justifica inquérito, justifica inquérito mesmo quando o destinatário veste toga e o procurador-geral pede para rasgar o relatório.
Um lado insiste na investigação. O outro prefere o silêncio. A linha do tempo não pede interpretação. Pede a mesma régua.
Em resumo
A matéria reúne a inauguração da fábrica da Biomm por Lula, a participação do Fundo Cartago ligado ao Banco Master e uma reunião posterior de Daniel Vorcaro no Planalto fora da agenda oficial.
Luiz Inácio Lula da Silva, Daniel Vorcaro, Guido Mantega, integrantes do governo federal, a Biomm e o Banco Master aparecem na linha do tempo apresentada.
Os fatos centrais ocorreram em Nova Lima, Minas Gerais, e no Palácio do Planalto, em Brasília.
A inauguração ocorreu em 26 de abril de 2024 e a reunião de Vorcaro no Planalto ocorreu em 4 de dezembro de 2024, com novos desdobramentos em 2026.
A sequência é usada para questionar a transparência das relações entre governo, interesses empresariais e decisões públicas ligadas ao Banco Master e à Biomm.
O caso segue no debate político e jurídico enquanto novas informações sobre o Banco Master, autoridades e investigações chegam ao público.