Lula defende Lulinha, promete Ministério da Segurança Pública e descarta privatizar Correios
Em sabatina na TV Globo, presidente disse confiar na inocência do filho, afirmou que não interferirá na PF e vinculou a criação de um novo ministério à aprovação da PEC da Segurança Pública.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo PT, colocou investigações envolvendo o filho Fábio Luís Lula da Silva, a segurança pública, os Correios e a dívida pública no centro de uma sabatina concedida à TV Globo na noite de quinta-feira (27). Lula disse acreditar que Lulinha será inocentado, afirmou que não haverá interferência do governo na Polícia Federal e prometeu criar um Ministério da Segurança Pública caso o Congresso aprove a PEC da Segurança Pública.
A entrevista ocorreu em meio à campanha presidencial e concentrou boa parte do tempo em temas relacionados a investigações e à atuação de pessoas próximas ao presidente. A repercussão atravessou diferentes veículos nesta sexta-feira (28), com atenção especial às respostas de Lula sobre o filho e à forma como o governo pretende lidar com segurança, empresas estatais e contas públicas em eventual novo mandato.
Lula diz confiar na inocência do filho, mas promete não protegê-lo
Fábio Luís Lula da Silva é alvo de apurações da Polícia Federal relacionadas a suspeitas de tráfico de influência e corrupção. Durante a entrevista, Lula classificou parte das suspeitas divulgadas até agora como ilações construídas a partir de conversas telefônicas. Ao mesmo tempo, afirmou que o filho terá de responder caso algum ilícito seja comprovado.
O presidente também garantiu que não pretende afastar delegados ou interferir nas investigações. A Folha de S.Paulo, o UOL e o Estadão registraram a mesma posição central: Lula declarou confiança na inocência de Lulinha, mas disse que não haverá proteção institucional por causa do vínculo familiar.
A distinção é importante porque as investigações continuam em andamento. Até a publicação desta reportagem, não havia decisão judicial definitiva declarando culpa de Fábio Luís nos fatos mencionados durante a sabatina. Por isso, o Notícia ES trata as suspeitas como objeto de investigação, sem antecipar conclusões.
Roberta Luchsinger e o ex-chefe de gabinete entraram na entrevista
Outro ponto da sabatina foi a relação de pessoas próximas ao presidente com a empresária Roberta Luchsinger, mencionada em investigações da Polícia Federal. Lula afirmou não conhecê-la e criticou o fato de seu ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ter recebido recursos dela. O presidente considerou inadequado esse tipo de relação financeira.
Reportagens publicadas após a entrevista lembraram que existem fotografias de Lula com a empresária. A campanha argumentou que registros fotográficos em eventos não demonstram, por si só, vínculo pessoal ou relação próxima. A existência dessas imagens, portanto, não resolve a questão sobre o grau de contato entre os dois e tampouco comprova participação do presidente em eventuais irregularidades investigadas.
Novo ministério dependeria de aprovação da PEC da Segurança Pública
Na área de segurança, Lula afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública se o Congresso aprovar a PEC da Segurança Pública. Segundo o presidente, a nova estrutura seria criada logo depois da aprovação da proposta e exigiria ampliação de recursos para enfrentar organizações criminosas.
A promessa adiciona um componente institucional ao debate eleitoral sobre segurança pública. Hoje, o tema está concentrado no Ministério da Justiça e Segurança Pública. Uma eventual separação exigiria reorganização administrativa, definição de competências e previsão orçamentária, além da tramitação da própria PEC citada pelo presidente.
A fala também cria uma condicionante clara: a criação do ministério foi apresentada como consequência da aprovação da PEC. Assim, o anúncio não significa que a nova pasta já esteja formalmente criada ou que haja, neste momento, estrutura definida para seu funcionamento.
Correios: Lula rejeita privatização e fala em recuperação da estatal
Ao tratar dos Correios, Lula reconheceu dificuldades da empresa diante das mudanças no mercado de entregas, mas descartou a privatização. Disse que pretende recuperar a estatal e admitiu a possibilidade de parcerias com empresas brasileiras ou estrangeiras.
O tema deve continuar relevante na campanha porque envolve uma empresa pública de alcance nacional e com presença em praticamente todos os municípios. O debate passa por eficiência operacional, custos, concorrência privada e a função pública atribuída ao serviço postal.
Dívida pública entra no debate econômico
Questionado sobre a dívida pública e os gastos obrigatórios, Lula disse que sua prioridade é ampliar o crescimento econômico e que o avanço do Produto Interno Bruto pode reduzir o peso relativo da dívida. Durante a entrevista, não apresentou uma lista específica de despesas obrigatórias que pretende cortar em eventual novo mandato.
A relação entre crescimento, resultado fiscal, juros e trajetória da dívida é um dos pontos centrais da discussão econômica. Crescimento mais forte pode melhorar a proporção entre dívida e PIB, mas a evolução do indicador também depende de arrecadação, despesas, custo de financiamento e decisões fiscais do governo e do Congresso.
Entrevista virou tema da campanha no dia seguinte
Na sexta-feira, durante agenda de campanha em Salvador, Lula voltou ao assunto e disse lamentar que a entrevista tenha dedicado tanto espaço a investigações em vez de propostas de governo. Ao mesmo tempo, reconheceu que jornalistas cumprem seu papel ao fazer perguntas duras.
Com a campanha entrando em sua fase decisiva, a sabatina mostrou que temas pessoais, investigações e propostas administrativas deverão permanecer misturados no debate presidencial. Para o eleitor, o desafio será separar promessas de governo, fatos já comprovados e acusações ainda submetidas à investigação.