Política Nacional · 2026-10-27 · Redação Notícia ES

Lula precisará transformar partidos bolsonaristas em aliados para conseguir governar, aponta Sérgio Abranches - BBC News Brasil

Cientista político que criou termo 'presidencialismo de coalizão' acredita que necessidade de alianças entre partidos no Congresso tende a fazer 'direita democrática' retomar protagonismo perdido para 'direita radical'.

Lula precisará transformar partidos bolsonaristas em aliados para conseguir governar, aponta Sérgio Abranches - BBC News Brasil
Lula precisará transformar partidos bolsonaristas em aliados para conseguir governar, aponta Sérgio Abranches - BBC News Brasil

Passada a euforia da sua reeleição , no domingo (25/10), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve começar a se preparar para o seu último mandato como presidente do Brasil, que, para muitos, pode ser o mais difícil de todos.

Para conseguir construir maiorias significativas dentro de um Legislativo

Para conseguir construir maiorias significativas dentro de um Legislativo com uma oposição fortalecida, Lula precisará contornar a rivalidade acirrada que se formou na eleição para atrair legendas bolsonaristas, como parte do próprio PL , e montar uma coalizão funcional junto com o PT.

Essa é a análise do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, autor de Presidencialismo de coalizão: Raízes e evolução do modelo político brasileiro (Companhia das Letras, 2018), livro que carrega o nome do conceito que ele criou, nos anos 1980, para descrever as relações institucionais entre Executivo e Legislativo no desenho político brasileiro.

"Lula vai precisar colocar mais os partidos que elegeram poucos deputados [ na sua coalizão ] e ainda transformar alguns partidos bolsonaristas em aliados ao governo no Centrão, porque, se não, ele não conseguirá governar", diz Abranches em entrevista à BBC News Brasil.

Próprio Lula indicou que pretende seguir esse caminho

O próprio Lula indicou que pretende seguir esse caminho. "Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas", disse em seu discurso após a oficialização do resultado, em um hotel de São Paulo.

Abranches prevê que boa parte dos congressistas dos partidos de direita, como o próprio PL, por exemplo, tenderão a aceitar se integrar à coalizão governista.

"O PL ficou muito forte no Congresso: fez a maior bancada da Câmara [ com 121 deputados ] e fez vários senadores [ 19 ].

Isso deu uma sobrevida parlamentar à extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão do Lula, e é aí que ela poderá usar as suas lideranças democráticas para fazer um contraponto conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB", argumenta.

"Eles ainda querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda querem dirigir certas organizações, etc", completa. Será nessa relação institucional que, acredita o cientista político, uma "direita democrática" pode se impor sobre a direita radical.

Na entrevista que concedeu à BBC News Brasil, Sérgio Abranches também discutiu os motivos que levaram o petista à segunda reeleição da sua história política e a continuidade do bolsonarismo, como força política, depois da sua segunda derrota seguida nas urnas.

Confira a apuração para presidente e governador em seu Estado e município no mapa interativo da BBC News Brasil

BBC News Brasil – Nunca havia acontecido uma virada do primeiro para o segundo turno. Como Lula conseguiu fazer isso?

Sérgio Abranches – O fator fundamental foi a mudança do tom da campanha dele, que foi muito gelada no primeiro turno. Flávio Bolsonaro teve uma presença mais intensa nas ruas.

Abranches – Lula achou que ia ganhar já no primeiro turno. Inclusive, parte da abstenção ali [ de 21,08% ] se deveu a isso. Os idosos pensaram que ele já estava reeleito e sequer se preocuparam em ir votar.

Daí, quando viram a ameaça da derrota, compareceram [ às urnas no segundo turno ]. A redução da abstenção também foi fundamental para a reeleição.

Soma-se a isso a digitalização da campanha. No primeiro turno, uma parte da campanha do Flávio foi digital, enquanto a do Lula foi quase nada [ digital ]. No segundo, ele foi totalmente para o digital.

Um dos problemas das pesquisas [ de intenção de voto em acertar os resultados ], inclusive, é que elas não veem o digital.

É que estamos em um sistema híbrido: o digital está avançando muito rápido, enquanto alguns aspectos da velha sociedade analógica continuam funcionando. Não é à toa que o fator rua foi muito fundamental também.

A ausência de Lula nas ruas no primeiro turno foi o que o fez perder. Da mesma forma, a ida da campanha para a rua no segundo turno, do jeito que foi — com entusiasmo, com empolgação — fez toda a diferença.

Essas duas coisas foram decisivas: a digitalização da campanha e a rua.

Em resumo

O que aconteceu?

Passada a euforia da sua reeleição , no domingo (25/10), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve começar a se preparar para o seu último mandato como presidente do Brasil, que, para muitos, pode ser o mais difícil de todos.

Qual é o ponto principal?

Para conseguir construir maiorias significativas dentro de um Legislativo com uma oposição fortalecida, Lula precisará contornar a rivalidade acirrada que se formou na eleição para atrair legendas bolsonaristas, como parte do próprio PL , e montar uma coalizão funcional junto com o PT.

Quais são os dados mais importantes?

Essa é a análise do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, autor de Presidencialismo de coalizão: Raízes e evolução do modelo político brasileiro (Companhia das Letras, 2018), livro que carrega o nome do conceito que ele criou, nos anos 1980, para descrever as relações institucionais entre Executivo e Legislativo no desenho político brasileiro.

Qual é o contexto?

"Lula vai precisar colocar mais os partidos que elegeram poucos deputados [ na sua coalizão ] e ainda transformar alguns partidos bolsonaristas em aliados ao governo no Centrão, porque, se não, ele não conseguirá governar", diz Abranches em entrevista à BBC News Brasil.

Quais são os próximos desdobramentos?

O próprio Lula indicou que pretende seguir esse caminho. "Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas", disse em seu discurso após a oficialização do resultado, em um hotel de São Paulo.

Fontes