Lula recusa chamar PCC e CV de terroristas. Porque será?
Em evento de segurança no Rio, o presidente rejeita a classificação usada pelos Estados Unidos e, no minuto seguinte, chama de “terrorismo de Estado” o 8 de Janeiro e o suposto plano de matar autoridades

RIO DE JANEIRO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta sexta-feira, 18 de setembro, uma escolha política que promete incendiar o debate nacional sobre segurança pública. Diante de um evento destinado à apresentação de ações integradas contra o crime organizado, Lula afirmou que não aceita chamar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) de organizações terroristas, classificação adotada pelos Estados Unidos. Minutos depois, usou exatamente a palavra que rejeitou para as facções ao falar do 8 de Janeiro, de Jair Bolsonaro e do planejamento de assassinato de autoridades citado por ele.
“Nós precisamos ganhar do crime organizado. E eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas, como diz o Trump”, declarou Lula.
A frase seguinte transformou a manifestação sobre segurança pública em um confronto político aberto.
“Quem fazia isso? O Bolsonaro tentando dar o golpe no 8 de Janeiro. Isso é terrorismo, pensando em matar Lula, Alckmin e até o Alexandre de Moraes. Isso é terrorismo de Estado.”
Em menos de um minuto, o presidente estabeleceu uma fronteira que dificilmente passará sem contestação. Para Lula, PCC e Comando Vermelho são “facções bandidas” e precisam ser derrotados. Mas ele rejeita para elas a palavra terrorismo. Para o 8 de Janeiro e para o contexto do suposto planejamento de assassinato de autoridades, Lula aceita não apenas terrorismo, mas uma expressão ainda mais grave: “terrorismo de Estado”.
É essa diferença, deliberadamente estabelecida pelo próprio presidente, que passa a ocupar o centro do debate.
O contraste que Lula colocou sobre a mesa
Não foi a oposição que construiu a comparação. Não foi uma interpretação posterior de adversários. Foi o próprio presidente quem colocou PCC, Comando Vermelho, Donald Trump, Jair Bolsonaro, 8 de Janeiro, Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes dentro da mesma argumentação.
O ponto de partida era o crime organizado. O destino foi Bolsonaro.
A construção começa com uma afirmação que dificilmente encontrará divergência: “Precisamos ganhar do crime organizado.” Imediatamente depois, Lula estabelece uma ressalva. “Eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas.”
A questão política nasce exatamente nesse ponto. Se PCC e CV são facções que precisam ser vencidas, por que Lula considera inadequado classificá-las como terroristas? E, sobretudo, por que a palavra rejeitada quando se fala das duas maiores organizações criminosas citadas em seu discurso passa a ser utilizada imediatamente quando o presidente muda de assunto e entra no terreno de seus adversários políticos?
A resposta apresentada pelo próprio Lula está na natureza que ele atribui aos acontecimentos. Segundo o presidente, o terrorismo está relacionado à disputa pelo poder e ao planejamento de assassinato de autoridades. Essa é sua interpretação. Mas a escolha vocabular produz inevitavelmente uma imagem política poderosa: PCC e CV ficam fora da definição que Lula aceita. O 8 de Janeiro entra.
O palco não poderia ser mais simbólico
A declaração não ocorreu em uma reunião partidária. Também não foi feita durante uma conversa improvisada com militantes. Lula estava no Rio de Janeiro participando de um evento destinado justamente à apresentação de ações integradas de segurança pública. Era o cenário no qual se esperaria ouvir o presidente tratar de crime organizado. E foi exatamente o que ocorreu.
Só que a fala rapidamente atravessou a fronteira da segurança pública e entrou na campanha presidencial. Lula é candidato à reeleição. Jair Bolsonaro aparece na declaração como antagonista. Donald Trump é citado nominalmente. E o 8 de Janeiro retorna ao centro da disputa política brasileira.
A combinação é explosiva. O presidente estava diante de um problema concreto, o enfrentamento às organizações criminosas, mas decidiu transformar a própria definição de terrorismo em objeto de disputa eleitoral. Não se trata de procurar um subtexto. O texto foi pronunciado em voz alta.
“Facções bandidas”, sim. “Terroristas”, não
A precisão das palavras importa. Lula não fez defesa de PCC ou Comando Vermelho. Ele os chamou expressamente de “facções bandidas”. Também declarou que é necessário derrotar o crime organizado. Isso precisa ser registrado para que a controvérsia seja apresentada com honestidade.
Mas também precisa ser registrado, com a mesma clareza, aquilo que Lula recusou. O presidente não aceita que PCC e CV sejam chamados de terroristas. Essa é a posição anunciada por ele. E ela ganha dimensão muito maior porque Lula não rejeitou o conceito de terrorismo de forma geral. Ele apenas o transferiu.
A palavra que não serve, segundo sua argumentação, para definir as facções serve para definir o 8 de Janeiro e o contexto do alegado planejamento para matar autoridades. Esse deslocamento é o fato político. Não é necessário exagerá-lo. A declaração presidencial já é suficientemente contundente.
Trump de um lado, Lula do outro
Lula também fez questão de identificar de onde vem a definição à qual se opõe. “Como diz o Trump.” Não falou simplesmente em uma divergência técnica. Personalizou. Donald Trump aparece no discurso como representante da visão que Lula rejeita. Dessa maneira, o presidente brasileiro converte uma questão de segurança pública em mais uma divergência política com o presidente americano.
A diferença fica exposta. A classificação dos Estados Unidos coloca PCC e CV dentro do campo do terrorismo. Lula diz não aceitar essa ideia. O presidente brasileiro prefere reservar o conceito, em sua fala, ao que identifica como uma tentativa de ruptura institucional associada ao 8 de Janeiro. Em seguida, ele vincula Bolsonaro a esse contexto.
“Quem fazia isso? O Bolsonaro tentando dar o golpe no 8 de Janeiro.”
É uma acusação política feita diretamente pelo presidente e deve ser registrada como tal. Mas o encadeamento revela algo maior. Lula não estava apenas definindo terrorismo. Estava escolhendo contra quem utilizar essa definição no ambiente eleitoral brasileiro.
Bolsonaro entra onde PCC e CV saem
Talvez este seja o aspecto mais politicamente sensível da declaração. PCC e Comando Vermelho entram no discurso porque Lula rejeita uma classificação. Bolsonaro entra porque Lula a aceita. É difícil produzir contraste mais claro.
O presidente poderia simplesmente ter afirmado que existem diferenças jurídicas entre crime organizado e terrorismo. Poderia ter encerrado a declaração nesse ponto. Não encerrou. Escolheu Bolsonaro como contraponto. Depois acrescentou o suposto planejamento de assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. A expressão utilizada foi “terrorismo de Estado”.
O impacto político da escolha é evidente. O adversário eleitoral e o 8 de Janeiro passam a carregar, na narrativa presidencial, uma classificação que Lula não admite para PCC e Comando Vermelho. E isso acontece enquanto o Brasil debate segurança pública e enquanto Lula busca mais um mandato.
Uma disputa que vai muito além do dicionário
Alguém poderia argumentar que toda essa discussão é apenas semântica. Não é. As palavras utilizadas por um presidente da República têm consequências políticas. Especialmente uma palavra como terrorismo. Ela não funciona apenas como adjetivo. Carrega significado jurídico, diplomático, policial e institucional.
Por isso, quando Lula afirma publicamente quem considera terrorista e quem não considera, a discussão ultrapassa o terreno da retórica. Ele estabelece uma visão sobre a natureza das ameaças enfrentadas pelo Estado. E escolhe explicá-la diante das forças de segurança.
Esse é o elemento que torna a declaração particularmente relevante. A questão já não é apenas como combater PCC e CV. É como o presidente da República define essas organizações. E como define, ao mesmo tempo, os acontecimentos políticos envolvendo seus adversários.
O problema político da assimetria
Existe ainda uma dificuldade inevitável para o discurso presidencial. Lula reconhece a gravidade das facções. Chama seus integrantes de bandidos. Diz que o crime organizado precisa ser vencido. Mas rejeita a palavra terrorismo. Poucos segundos depois, essa cautela terminológica desaparece quando o assunto muda para Bolsonaro e o 8 de Janeiro.
É essa assimetria que tende a alimentar a reação política. A controvérsia não depende de afirmar que Lula tenha minimizado o crime organizado. Ele declarou que o país precisa combatê-lo. O ponto está em outro lugar. O critério usado para a palavra terrorismo muda conforme muda o objeto do discurso.
Quando Lula fala de PCC e CV, estabelece uma distinção. Quando fala do 8 de Janeiro, emprega o termo de forma direta. Quando fala do suposto planejamento para matar autoridades, intensifica-o: “terrorismo de Estado”.
Não existe necessidade de atribuir ao presidente palavras que ele não pronunciou. As que pronunciou já bastam.
O 8 de Janeiro volta ao centro da eleição
A declaração também confirma o espaço que o 8 de Janeiro continuará ocupando na campanha presidencial. Lula poderia ter respondido a Trump sem mencionar Bolsonaro. Poderia ter defendido sua interpretação sobre PCC e CV sem entrar na disputa eleitoral. Escolheu outro caminho. Trouxe Bolsonaro imediatamente para a resposta.
O 8 de Janeiro aparece novamente como elemento de separação política. De um lado, Lula se apresenta como chefe de governo responsável pelo enfrentamento ao crime organizado. Do outro, associa Bolsonaro ao que chama de tentativa de golpe e terrorismo.
A estratégia discursiva é transparente. A segurança pública começa como assunto administrativo. Termina como argumento eleitoral.
Lula define a ameaça e abre a controvérsia
A fala desta sexta-feira merece atenção justamente porque expõe, sem intermediários, a visão do presidente. Não se trata de vazamento. Não é frase atribuída por terceiros. Não é interpretação de adversários.
Lula disse publicamente: “Eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas.”
E, em seguida: “Isso é terrorismo”, ao falar do 8 de Janeiro e do planejamento contra autoridades citado por ele.
A partir daí, a discussão está colocada. Os brasileiros poderão concordar ou discordar da distinção. Especialistas poderão discutir conceitos. Adversários certamente explorarão a declaração. Aliados tentarão explicar seu fundamento. Mas ninguém poderá dizer que a diferença foi criada artificialmente. Foi Lula quem traçou a linha.
E o fez em um momento especialmente delicado: dentro de um evento de segurança pública, diante do avanço do debate nacional sobre crime organizado e enquanto disputa a permanência no Palácio do Planalto.
Uma frase que pode perseguir a campanha
Campanhas presidenciais frequentemente são marcadas por discursos longos. Mas são lembradas por frases curtas. Nesta sexta-feira, Lula produziu uma delas.
“Eu não aceito a ideia de que as facções bandidas são terroristas.”
Sozinha, a declaração já seria politicamente relevante. Mas Lula acrescentou a segunda metade da equação. Para o presidente, terrorismo foi o 8 de Janeiro e o contexto do planejamento de assassinato de autoridades que mencionou.
Esse contraste muda tudo. A discussão deixa de ser apenas sobre PCC e Comando Vermelho. Passa a ser sobre a própria escala de ameaças adotada pelo presidente do Brasil.
Quem é criminoso? Quem é terrorista? Quando uma organização atravessa essa fronteira? E por que o presidente rejeita o termo em um caso e o emprega com tanta segurança no outro?
Lula apresentou sua resposta no Rio de Janeiro. Agora começa a disputa política sobre ela. Porque, depois de sua fala desta sexta-feira, o debate sobre terrorismo no Brasil já não trata apenas do crime organizado. Trata também da eleição.
E foi o próprio presidente quem colocou os dois assuntos na mesma frase.
Em resumo
Lula afirmou que não aceita a ideia de que as facções criminosas sejam classificadas como terroristas e as chamou de “facções bandidas”.
Lula chamou de terrorismo o 8 de Janeiro e usou a expressão “terrorismo de Estado” ao mencionar o alegado planejamento de assassinato de autoridades.
No Rio de Janeiro, em 18 de setembro de 2026, durante um evento de segurança pública voltado ao enfrentamento do crime organizado.
Primeiro Comando da Capital, o PCC, e Comando Vermelho, o CV.
A diferença de linguagem usada por Lula ao rejeitar a classificação de PCC e CV como terroristas e ao empregar o termo terrorismo para o 8 de Janeiro e o alegado plano contra autoridades.