Justiça · 2026-10-30 · Redação Notícia ES

Médicos são acusados de perseguir colegas e defender boicotes a pacientes por posicionamento político: 'Senti um alvo na minha cabeça'

Casos envolvendo médicos em diferentes Estados incluem exposição de colegas por posicionamento político e postagens que sugerem discriminação contra pacientes que teriam votado no PT.

Médicos são acusados de perseguir colegas e defender boicotes a pacientes por posicionamento político: 'Senti um alvo na minha cabeça'
Médicos são acusados de perseguir colegas e defender boicotes a pacientes por posicionamento político: 'Senti um alvo na minha cabeça'

"Na hora que eu recebi a lista, fiquei sem chão. Senti um alvo na minha cabeça".

As informações principais do assunto

A frase é de um médico anestesiologista ouvido pela BBC News Brasil após ter sido incluído em uma lista de profissionais "esquerdistas" divulgada em um grupo privado de médicos após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) .

A listagem reunia nomes de 15 médicos sob o título "Lulistas = esquerdistas = petistas" e foi enviada em um grupo de WhatsApp que reúne cerca de um terço de todos os médicos da especialidade do Estado.

Ao lado de alguns nomes, foram colocadas bandeiras do movimento LGBTQIA+.

Contexto e informações complementares

O caso expõe como a divisão política vivida durante — e depois — da eleição chegou também a hospitais, consultórios e cooperativas médicas.

À BBC News Brasil, profissionais da saúde relataram episódios que vão desde o do anestesiologista, de exposição de colegas por suas preferências eleitorais, até mensagens que sugerem tratamento diferenciado a pacientes em razão de posicionamentos políticos.

O médico de Sergipe, que pediu para não ser identificado, conta que foi informado da inclusão do seu nome na lista enquanto se preparava para participar das comemorações pela vitória do candidato que apoiou.

Ele diz que procurou imediatamente o colega apontado por outros integrantes do grupo como autor da publicação para questionar a origem e o objetivo da lista. Segundo seu relato, a conversa foi marcada por gritos, ofensas e xingamentos.

"O objetivo da lista é justamente o que eu busco entender. Segundo o colega, seria uma enquete informal. Mas qual o objetivo de identificar quem vota ou deixa de votar na esquerda? Não interessa ao colega meu posicionamento político-partidário", afirmou.

"A maior repercussão é interna. Fui exposto e vejo colegas tentando minimizar a gravidade", relata o médico, que diz ter feito postagens em apoio a Lula em suas redes sociais privadas e participado de duas caminhadas pela eleição do candidato.

"Mas não postei nada em grupos, não me posicionei em ambiente de trabalho. Até evitava falar de política nesses ambientes. Só postava no meu insta", relata.

O anestesiologista diz ter levado seu caso a um grupo institucional do Estado utilizado para a organização de escalas e plantões, onde pediu esclarecimentos sobre a autoria e a finalidade da lista. Segundo ele, a publicação teria sido apagada logo depois.

Ainda de acordo com o relato, novas ligações ocorreram na sequência e incluíram ofensas homofóbicas. Temendo pela própria segurança, o anestesiologista procurou o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV) da Polícia Civil e solicitou medida protetiva.

Nesta semana, ele também formalizou uma denúncia junto à cooperativa responsável pela escala de plantões. A entidade teria atendido ao pedido para que os dois profissionais não fossem escalados juntos enquanto o caso é apurado.

"O presidente da cooperativa veio pessoalmente conversar comigo, me deu um abraço e disse que tudo seria investigado", disse.

O médico afirma que, até o momento, ainda avalia com seu advogado a possibilidade de denunciar o caso ao Conselho Regional de Medicina (CRM).

A BBC News Brasil procurou a cooperativa responsável pela organização de escalas e plantões de anestesiologia e o Conselho Regional de Medicina do Estado de Sergipe (Cremese) em busca de um posicionamento oficial, mas não obteve resposta.

A BBC News Brasil informou que não conseguiu contato com o médico apontado como autor da lista.

Em resumo

O que aconteceu?

"Na hora que eu recebi a lista, fiquei sem chão. Senti um alvo na minha cabeça".

Qual é o ponto principal?

A frase é de um médico anestesiologista ouvido pela BBC News Brasil após ter sido incluído em uma lista de profissionais "esquerdistas" divulgada em um grupo privado de médicos após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) .

Quais são os dados mais importantes?

A listagem reunia nomes de 15 médicos sob o título "Lulistas = esquerdistas = petistas" e foi enviada em um grupo de WhatsApp que reúne cerca de um terço de todos os médicos da especialidade do Estado. Ao lado de alguns nomes, foram colocadas bandeiras do movimento LGBTQIA+.

Qual é o contexto?

O caso expõe como a divisão política vivida durante — e depois — da eleição chegou também a hospitais, consultórios e cooperativas médicas.

Quais são os próximos desdobramentos?

À BBC News Brasil, profissionais da saúde relataram episódios que vão desde o do anestesiologista, de exposição de colegas por suas preferências eleitorais, até mensagens que sugerem tratamento diferenciado a pacientes em razão de posicionamentos políticos.

Fontes