Mendonça denuncia: PF levou cópia do celular de Vorcaro ao gabinete num domingo
HD criptografado com a extração do iPhone chegou lacrado em 8 de março de 2026. Relator pede que quatro delegados expliquem a entrega e barra abrir o conteúdo integral antes do julgamento de Moraes na terça.

No despacho da PET 16.704, o ministro registra que a cópia do celular de Vorcaro chegou ao gabinete em 8 de março de 2026, um domingo, pede explicação a quatro delegados em 24 horas e barra a abertura integral do aparelho antes da sessão
Neste domingo, 13 de setembro de 2026, o ministro André Mendonça assinou despacho na PET 16.704 e fez questão de um detalhe que não é burocracia. O ofício 33V/2026-CINQ/CGRC/DICOR/PF, com o qual a Polícia Federal levou ao gabinete dele uma cópia de segurança do celular de Daniel Vorcaro, chegou em 8 de março de 2026. Entre parênteses, o relator escreveu: um domingo.
Não é data jogada no meio do texto. É recado. Em Brasília, órgão federal não costuma protocolar material sensível fora do expediente. Mendonça marcou o calendário de propósito. Na terça-feira, 15 de setembro, o plenário do STF julga o relatório da PF com as mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes e decide se abre investigação contra o ministro. No sábado, o presidente da Corte, Edson Fachin, tirou o caso das mãos de Mendonça e assumiu a relatoria. Separou as pautas: terça é Moraes e Vorcaro. No dia 23 de setembro fica a discussão sobre a conduta do próprio Mendonça nos casos Master e INSS.
O que o despacho faz, na prática, são três movimentos no mesmo papel.
Primeiro, Mendonça registra divergência de versões sobre como aquele material da PF chegou ao gabinete. Diz que não havia decisão judicial apontada que justificasse aquela entrega daquele jeito. Por isso pede a Fachin que determine a quatro delegados, em 24 horas, as circunstâncias e o contexto da entrega e se eles sofreram constrangimento ao longo das investigações. Os nomes são Daniel Mostardeiro Cola, Wedson Cajé Lopes, Victor Arruda de Oliveira e Guilherme Alves de Siqueira. São os subscritores da representação inicial da PET 15.556, um dos procedimentos do caso Master.
Segundo, ele reforça que todo o material para o julgamento de terça já está disponível na íntegra para todos os ministros. Ninguém precisa de peça nova para votar.
Terceiro, ele barra o pedido de abrir agora o conteúdo completo do celular de Vorcaro. Incluir elementos que ainda não estão nos autos, inclusive a abertura de todas as informações contidas no aparelho, só tumultuaria o julgamento e colocaria em risco o andamento das investigações. Cita o próprio Fachin: a gravidade dos fatos não autoriza atalhos.
O ofício que virou recibo de uma prova
O documento de 8 de março não é recado administrativo qualquer. É o papel com o qual a PF entregou, em envelope lacrado, um HD criptografado com a extração do iPhone de Vorcaro, formalizada no Laudo 4281 da SETEC/PF de São Paulo. O próprio Mendonça descreveu isso dias atrás: a autoridade policial, de forma voluntária e espontânea, levou aquela mídia ao gabinete. Segundo ele, a cópia permanece lacrada e intocada.
A sequência importa. Em 3 de março, Mendonça decretou a prisão de Vorcaro na PET 15.556, a peça-mãe da Operação Compliance Zero. Cinco dias depois, num domingo, a PF levou a cópia de segurança. Em setembro, o relatório da PF sobre as conversas Vorcaro-Moraes virou pauta da sessão extraordinária do dia 15. O material que o plenário discute na terça saiu daquele celular. O ofício de março é o recibo de como uma cópia dessa extração chegou ao relator.
Março de 2026 é bem anterior à explosão de setembro. Mendonça voltou a um episódio antigo e disse, entre parênteses, que a PF protocolou aquilo num dia em que órgão federal normalmente não trabalha. A leitura que circulou na hora é direta: a PF do então diretor-geral Andrei Rodrigues teria se mexido no domingo.
Por que o domingo voltou hoje
Nos últimos dias a briga virou troca de ofício. Moraes e aliados querem mais peças, inclusive o celular inteiro de Vorcaro. Zanin e Moraes pedem o HD completo nos gabinetes antes da sessão. Mendonça responde que o que interessa para terça já está nos autos e que abrir o restante agora é desviar o julgamento.
Há, ao mesmo tempo, divergência de informações sobre as circunstâncias daquela entrega de março. Daí o pedido para ouvir os quatro delegados da PET 15.556. O recado do parêntese é este: a PF se mexeu fora do expediente para colocar aquela mídia no gabinete. Seis meses depois, a mesma mídia é o centro do julgamento sobre Moraes. Mendonça está dizendo que a cadeia de custódia daquele domingo precisa ser esclarecida antes de alguém pedir para romper o lacre e jogar o celular inteiro no meio da sessão.
Cadeia de custódia é o histórico oficial de uma prova. Quem achou, quem guardou, quem abriu, quem copiou, quem transportou e quem devolveu. Se esse histórico quebra, a prova fica vulnerável. No celular de Vorcaro, essa briga é o centro do caso.
O que a lei pede e o que o processo mostra
No processo penal brasileiro, depois do Pacote Anticrime, a cadeia de custódia de vestígio digital precisa ser documentada do começo ao fim. O aparelho original é apreendido, lacrado e registrado. A extração é feita em laboratório. Gera-se um laudo. Cada cópia precisa ter registro de hash, lacre, data, responsável e destino. Quem recebe uma cópia não pode tratar o arquivo como pendrive de trabalho. O objetivo é simples: ninguém no meio do caminho pode selecionar, apagar, acrescentar ou olhar o que bem entender sem deixar rastro.
No caso Vorcaro havia três camadas do mesmo material.
A primeira é o aparelho original. A PF diz que o iPhone permanece sob custódia dela, com cadeia de custódia preservada.
A segunda é a extração técnica. Isso virou o Laudo 4281 da SETEC da PF em São Paulo. É o trabalho pericial: o que saiu do telefone, como saiu, com qual integridade.
A terceira é a cópia de segurança. Em 8 de março de 2026, um domingo, a PF levou ao gabinete de Mendonça, em envelope lacrado, um HD criptografado com essa extração. O ofício 33V/2026 é o recibo dessa entrega. Mendonça diz que a cópia segue lacrada e intocada.
O problema começa aqui. Uma prova digital não deveria aparecer no gabinete do relator de forma voluntária e espontânea, num domingo, sem uma decisão clara mandando aquela entrega daquele jeito. Mendonça admite hoje que há divergência sobre as circunstâncias. Por isso quer ouvir os quatro delegados.
Duas teses, a mesma palavra
A PF e aliados de Moraes sustentam, nos relatórios de inteligência de agosto, que Mendonça pediu material bruto cedo demais. Segundo essa versão, o relator teria acesso a acervo extraído antes da triagem policial completa e teria atuado como investigador, não só como juiz. Se isso for verdade, a cadeia sofre em dois pontos: destino irregular da cópia e uso da prova fora do rito.
Mendonça inverte a acusação. Diz que a cópia de segurança está lacrada, que o original está com a PF e que abrir agora o celular inteiro para todos os gabinetes, fora do que já está nos autos, tumultua o julgamento de terça e arrisca o restante da investigação. Na leitura dele, o risco não é o lacre de março. O risco é romper esse lacre no calor da sessão política.
Os dois lados falam a mesma expressão, cadeia de custódia, para defender teses opostas. Um diz que o juiz não podia ter aquela mídia daquele jeito. O outro diz que a mídia está lacrada e quem quer abrir agora é que quer bagunçar a prova.
O pano de fundo que a sessão não apaga
Isso não nasceu hoje. Mendonça é o relator das duas investigações mais quentes do momento: Banco Master, de Vorcaro, e fraudes no INSS. Em 1º de setembro ele tirou o sigilo de mensagens do celular de Vorcaro que apontam conversa intensa com Moraes, inclusive às vésperas da prisão do banqueiro. Moraes revidou com relatórios de inteligência da PF que criticam a atuação de Mendonça e pediu investigação contra o colega. Mendonça, por sua vez, afastou Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF indicado por Lula, acusando monitoramento ilegal contra ele e contra o AGU Jorge Messias. Flávio Dino reintegrou Andrei. Fachin tentou segurar a Corte.
O ofício de março e os quatro delegados entram nessa guerra de versões. De um lado, quem vê a cúpula da PF alinhada a Moraes e ao governo. Do outro, quem acusa Mendonça de agir como investigador, em causa própria, e de selecionar o que vaza.
O parêntese “um domingo” é o recado curto. O resto do despacho é o recado longo: não mexam no celular agora, ouçam os delegados que assinaram a peça original, e julguem terça com o que já está nos autos.
O que a terça decide de fato
Terça o plenário não julga o Banco Master inteiro. Julga um ponto só: se abre investigação contra Alexandre de Moraes por causa das mensagens com Vorcaro encontradas nesse mesmo celular. Não precisa, em tese, do celular inteiro para votar aquilo. O pedido de Zanin e de Moraes é outro: querem a íntegra da extração nos gabinetes antes da sessão.
Se a Corte aceita abrir o HD completo agora, duas coisas acontecem ao mesmo tempo. Os ministros passam a ter acesso a um universo de dados que ainda não está nos autos do julgamento. E a discussão deixa de ser se as mensagens já documentadas bastam e vira quem mexeu nesse arquivo desde março.
Por isso Mendonça amarrou o ofício de domingo ao julgamento de terça. Ele está dizendo: antes de romper o lacre, expliquem como aquela cópia saiu da PF e entrou no gabinete. Sem esse relato, a cadeia de custódia da prova que vai a plenário continua com um furo na data e no modo da entrega.
O que a imprensa fez com o recado
O que chamou atenção, e o que fez algumas redações reagir no mesmo tom, foi o parêntese. Em vez de tratar o domingo como pergunta sobre expediente, transporte de prova e destino irregular de mídia lacrada, o reflexo imediato em parte da cobertura foi deslocar o foco para Mendonça: o relator que “seleciona”, o ministro que “atua como investigador”, o colega que “tumultua” a Corte. O mesmo movimento que, ao longo desta guerra de versões, tentou desconstruir o trabalho de quem tirou o sigilo das mensagens Vorcaro-Moraes e sustentou que o que interessa para terça já está nos autos.
O ofício existe. A data existe. Os quatro delegados existem. O HD lacrado existe. O julgamento de terça existe. A frase de Fachin sobre atalhos também existe. Nada disso some porque o alvo preferido da semana é André Mendonça e o protegido preferido da cobertura é Alexandre de Moraes.
Dois ministros do Supremo estão em guerra aberta. Um é André Mendonça. O outro é Alexandre de Moraes. No meio estão a Polícia Federal, o banqueiro Daniel Vorcaro e um julgamento marcado para terça-feira. O recado de hoje cabe numa frase: a PF mandou um ofício no domingo. Mendonça fez questão de escrever isso entre parênteses.
Em Brasília, isso não é data. É acusação. E na terça a Corte vai ter de decidir se investiga Moraes com o que já está nos autos ou se aceita romper o lacre de março no calor da sessão. A gravidade dos fatos, como o próprio presidente do STF já escreveu, não autoriza atalhos.
Em resumo
Segundo o despacho na PET 16.704, a Polícia Federal entregou a cópia de segurança em 8 de março de 2026, um domingo, por meio do ofício 33V/2026-CINQ/CGRC/DICOR/PF.
Um HD criptografado, acondicionado em envelope lacrado, com a extração do iPhone de Daniel Vorcaro formalizada no Laudo 4281 da SETEC/PF de São Paulo.
Porque há divergência sobre as circunstâncias e o contexto da entrega da cópia ao gabinete. O ministro pede que os quatro delegados esclareçam a entrega e informem se sofreram constrangimento durante as investigações.
Não. Segundo a matéria, ele barrou a abertura integral por entender que a inclusão de elementos ainda ausentes dos autos poderia tumultuar o julgamento e prejudicar as investigações.
O plenário deve decidir se abre investigação contra Alexandre de Moraes por causa das mensagens com Daniel Vorcaro já documentadas nos autos.